II - parecem-me doces as laranjas não fossem os melros bicar-lhes a cor



Peça em um só ato, acto, para que se me desate o nó de recontar. A época é distante, ou seja, esta que vivemos ou uma outra qualquer, tanto faz. O que existe de melhor e de mais horrendo em cada um de nós permanece imutável. Eu sou eu neste momento aqui e teria sido eu no século XVII e serei eu no ano 2055. Sobre um palco tudo isto é real, os paradoxos desfazem-se, as ilusões refazem-se.
Três personagens caminham por uma estrada. Um rapaz chamado Zapa, António, o pai, ainda muito jovem e o senhor Teodoro, um velho viajante. O sol acaba de nascer. O rapaz, descalço, corre à frente do pai com uma gaiola na mão. O viajante, mais atrás, carrega um saco de veludo azul.

Zapa: Mais depressa pai! Assim nunca mais chegamos.

António: Tem calma, não agites tanto a gaiola. Vais mareá-lo.

O senhor Teodoro: O seu rapaz tem cá uma energia! Perdoe a intromissão, mas é tão triste viajar sozinho. O meu nome é Teodoro.

António: Eu sou António e esse aí é o Zapa, o meu filho. Está ansioso por chegar e soltá-lo.

O senhor Teodoro: Onde…?

António: Não sabemos bem. Tanto pode ser um monte, uma praia, uma floresta, um sentimento. Tem apenas de ser o mais longe possível da cidade dos homens-lâmina que nos laminam também.

O senhor Teodoro: Oh.

António: Já os encontrou?

O senhor Teodoro: Há muito tempo. Por isso carrego este saco.

Zapa pára de repente e coloca a gaiola no chão: Tenho sede, pai.

António: Então vamos descansar junto daquela laranjeira e depois continuamos.

O senhor Teodoro: Parecem-me doces as laranjas, um pouco pálidas talvez.


O rapaz, o pai e o senhor Teodoro sentam-se no chão. O velho viajante percebe que a gaiola está vazia e o rapaz diz-lhe, é o meu sonho, vou soltá-lo. E fecha os olhos ao colo do pai.
As luzes diminuem de intensidade até focarem apenas o saco de veludo azul.
O senhor Teodoro abre-o, tira uma agulha, as linhas de cor. Entoa uma ária velha como ele e vai pousando sobre os joelhos o guarda-roupa das cenas ainda sem falas, os vestidos brancos, os calções de príncipe, os chapéus de caçador.




contos de palco, o segundo









I - cabelo vermelho coração azul




Era diferente. Na fala, nos gestos discretos, no andar contido, estar ou não estar, quem saberia dizer. A tristeza seguia-a, três passos atrás, por isso não tinha sombra.
Recortava máscaras que imaginava, ou outras que lhe sugeriam, e eram tão reais como as pedras dos muros, como a farinha para o pão, como a quentura das mantas nas noites frias. As crianças gostavam dela no empréstimo dos sonhos que sabia traduzir, escondidos os rostos tudo era possível de acontecer e de conquistar. Somos o que encenamos ser.
O teatro onde trabalhava sobrevivia, apenas. Porque era amado. E ela construía os objetos de cena de quase nada e um golpe de luz e apesar dos dias escuros, o público acorria. Bater as palmas aquece, rir aquece, chorar faz brilhar os olhos, pano de palco é um vestido novo que se estreia à quarta-feira.
E quando ela própria cobria a face com a sua máscara perfeita, preferida, aquela que não dava nem cedia, o cabelo avermelhava-se, crescia, desmesuradamente crescia. Nessas noites regougavam gritos pelos cantos da cidade e as velhas acautelavam galinheiros e fechavam as portas das cozinhas.
Era excessiva. E o que não consumia guardava, e possuía vinte esconderijos e não se esquecia do lugar exato de cada um nem do que lá escondia.
Depois o público levantava-se, dizia, bravo! Ela sacudia o coração azul e o pó pousava devagar já era madrugada.




contos de palco, o primeiro











Uma madrugada chegaram, e ela reconheceu-os pelo despojamento das vestes, pelo pó nas sandálias, pelos olhos da cor do chá, pelo tisnado da pele.
Despontavam já rebentos de frésias e aclaravam-se os dias de inverno, porque se o frio apequena todas as coisas, o oriente é onde nasce o sol e sempre será. 
Os ciclos repetem-se, como se repete o nascimento e a morte, o gelo e o calor, a guerra e a paz, os tempos de abundância e os de penúria, o desânimo e a esperança, o sol e a lua.
De entre eles, ela sabia que apenas um seria rei e entoou-lhes um canto de janeiro e eles ofereceram-lhe uma cana de açúcar, uma linha de bordar e uma caixa de prata fechada a doze chaves, uma por cada ano que ela tinha.
Nunca contou a ninguém este encontro e foi crescendo mais doze anos e em cada um deles pela madrugada, pegava numa das chaves e abria a caixa de prata e dela retirava uma alegria. Assim resistiu à solidão da infância que os outros chamam de inocente, do melhor que o mundo tem, de lugares comuns que são aqueles que nos conduzem a nenhures.
Pelo caminho aprendeu a trabalhar o açúcar com claras de ovos batidas em neve fina e enfeitava os bolos, colocando-lhes no topo as esculturas que imaginava e chamavam-lhe mão doce, a rapariga que plantava canas e esculpia.
E quando as doze chaves terminaram, ela vestiu uma túnica branca sobre o vestido preto, guardou a caixa de prata no bolso, partiu os ovos, separou as gemas das claras, bateu-as em neve fina. Misturou o açúcar e continuou a bater até o braço lhe doer e por fim fez uma coroa que parecia doce, renda, abertos e fechados de linha.

Mago é o rei capaz de encontrar o que de invulgar tem cada vida.









































Passamos de leve, por alto e assim erramos a maior parte das coisas, ou então ponteamos, para unir um tecido rasgado ou esburacado. Pode ser a nossa pele, o nosso coração ou um vestido de algodão.
A minha avó passajava as meias e as batas da escola, as toalhas de mesa queimadas pelas pontas de cigarro, os lençóis. Era um trabalho minucioso que exigia tempo, perícia e uma agulha muito fina e pontiaguda. E aquelas passagens eram obras de arte, distinguiam-se do resto do tecido, integravam-no e modificavam-no.
Também há outras, solitárias, que inevitavelmente faremos no desejo de um colo seja qual for o lado de lá.
Eu estou à espera dos reis, aqueles que acreditam na linguagem das estrelas e nunca me cansam de serem magos. Por isso acendo lanternas na noite em que escrevo os dias.


desejo-vos um Feliz Ano Novo!