Passamos de leve, por alto e assim erramos a maior parte das coisas, ou então ponteamos, para unir um tecido rasgado ou esburacado. Pode ser a nossa pele, o nosso coração ou um vestido de algodão.
A minha avó passajava as meias e as batas da escola, as toalhas de mesa queimadas pelas pontas de cigarro, os lençóis. Era um trabalho minucioso que exigia tempo, perícia e uma agulha muito fina e pontiaguda. E aquelas passagens eram obras de arte, distinguiam-se do resto do tecido, integravam-no e modificavam-no.
Também há outras, solitárias, que inevitavelmente faremos no desejo de um colo seja qual for o lado de lá.
Eu estou à espera dos reis, aqueles que acreditam na linguagem das estrelas e nunca me cansam de serem magos. Por isso acendo lanternas na noite em que escrevo os dias.


desejo-vos um Feliz Ano Novo!






vamos para casa, já é natal






























Na terceira estante a contar da janela estavam alinhados os livros de gravuras antigas. Tinham pertencido ao bisavô, a seguir ao avô e agora eram do pai. O rapaz ainda não sabia ler, mas gostava de se deitar no chão em cima do tapete com o livro à sua frente, folheando devagar e com o dedo indicador seguia as letras, as palavras. Nalgumas acertava, tantas eram as vezes que o pai lia e ele ouvia, os olhos espantados da magia, das intrigas, da maldade e da bondade dos personagens. Era preciso ser muito cuidadoso com as encadernações, o pai dizia, valiosas, e apenas pelo Natal este consentia que o rapaz levasse para o quarto um livro de cada vez. E assim ele abria-o na gravura de que mais gostava, colocava-o em cima da mesa e durante a noite quando acordava olhava para o livro e voltava a adormecer calmamente.
Uma noite teve um pesadelo medonho, gritou tão alto que o pai acordou e correu espavorido para o quarto do rapaz e este chorava e não havia nada que o consolasse. Então o pai pegou-lhe ao colo, vestiu-lhe um casaco quente por cima do pijama, colocou-lhe um gorro na cabeça e mandou-o calçar umas botas de caminhar. Fez o mesmo em relação a si e saíram para a rua os dois, em bicos de pés, para não acordar o resto família.
O pai tirou do bolso dois sacos de fazenda de lã e estendendo um ao filho disse-lhe, põe o saco ao ombro, vamos apanhar sonhos bons.
A noite estava fria e no céu as estrelas escondidas, mas cheirava a resina de pinheiro e o grito das corujas sossegou-os, ao pai e ao filho. Os olhos do rapaz brilhavam de curiosidade e de excitação, mas o pai tão sério, não lhe permitiu que fizesse perguntas, deu-lhe a mão e seguiram em direção ao bosque dos abetos. Um pouco mais à frente avistaram uma raposinha e o rapaz meteu a mão ao saco e tirou um pedaço de presunto, a raposa comeu-o, fez uma vénia e começou a caminhar com eles.
Por esta altura já o rapaz tinha largado a mão do pai e dava saltos e corria, o saco a balouçar nas costas, as botas a fazer clap, clap, nas pernas finas. Mal tinham andado uns cento e cinquenta metros e em cima de uma pedra viram uma pequena bailarina de papel, desesperada, com medo de se desfazer na água das poças e o rapaz pegou-lhe e soprou-lhe para a secar, descalçou-lhe as sapatilhas para ela não se constipar e meteu-a no bolso do casaco com a cabeça de fora para ela ver onde é que ele pisava. Depois atravessaram uma aldeia, uma ponte e descansaram no adro de uma igreja. Com eles, seguiam agora a raposinha, a bailarina, um cão vadio, uma borboleta noturna e um urso de peluche que não conseguia hibernar. O rapaz estava feliz e os sacos de fazenda, nos ombros de um e de outro, pareciam cheios de movimento.
Até que o rapaz perguntou, pai, se não apanharmos um sonho sequer, podemos regressar a casa? O pai respondeu, não. A seguir pegou nele, sentou-o nos ombros, uma perna para cada lado e disse, vamos para casa, já é natal.
O rapaz não entendeu completamente o que o pai lhe dizia, mas o sono e o cansaço eram tantos que enrolou os braços à roda do seu pescoço, encostou a cara na sua cabeça e adormeceu. A bailarina de papel deu-lhe um beijo na ponta do nariz.




desejo-vos Feliz Natal!





III - de como os mais pequenos se tornam grandes e balsâmico é o desejo de voltar a casa


A saga de Brama espalhou-se rapidamente pelas aldeias e se uns ironizavam afirmando que um veado sem hastes não é um veado, outros desejavam ardentemente que Brama ganhasse coragem, enfrentasse as montanhas e libertasse Timóteo. Entre os últimos, encontrava-se o rapaz mais pequeno da aldeia, o mais tímido, o mais pacífico. Chamavam-lhe Lunar porque tinha nascido entre a lua cheia e o quarto minguante, quando balsâmica é a lua. Do seu verdadeiro nome já ninguém se recordava e Lunar era lunar, o rapaz calado, curioso, que sabia a ciência dos bichos e das plantas.
O rapaz possuía um esquilo voador, pequenino, tímido e pacífico como ele. Por isso pasmava com a fama de Perfidus e dos seus filhos, com a maldade das suas ações. Bem lá no fundo acreditava que alguém ou alguma coisa os tinha tornado assim.
E sonhava com a tristeza de Brama no sopé do monte e com Timóteo, prisioneiro na terceira das torres, aquela que ninguém via. Depois teve uma ideia que considerou genial e disse ao avô:
- Se ateassem fogueiras pelas montanhas acima, talvez Brama subisse e quem sabe.
O avô juntou os homens da aldeia e em cada pequeno planalto fizeram uma fogueira e se a neve era fria, não parecia, e nos olhos do veado brilharam labaredas cor de fogo e à medida que subia, as hastes começaram a crescer e a meio da montanha já lhe pesavam. Chegado ao topo, Brama era um veado adulto e as galhadas na sua cabeça eram as mais belas que alguma vez alguém vira. Foi então que avistou a terceira das torres, invisível para os olhos humanos mas percetível para os seres que têm bom coração. Soube que era ali que Timóteo estava cativo. Mas uma pesada porta guardava a fortaleza e não seria assim que lhe permitiriam entrar. E escondeu-se atrás de uma rocha.
Então o rapaz enviou o seu esquilo voador pequenino e tímido como ele e este bateu na ferragem da porta. Do lado de dentro ouviu-se uma voz:
- Quem és, o que queres?
- Sou um esquilo voador. Venho prestar vassalagem ao meu rei – respondeu, abismado com a ousadia.
Os de dentro, cedendo à vaidade e à cobiça e desejosos de acrescentar mais um ao seu terrível bando, abriram a pesada porta.
O esquilo voador avançou e logo atrás dele surgiu Brama e as suas enormes hastes. E bramindo investiu contra Perfidus e os filhos. Contam alguns que o esventrou, outros que o baniu para sempre das montanhas, outros ainda, que lhes perdoou e redimindo, se redimiram.
Juntamente com Timóteo, cujos dentes da frente tinham o comprimento de vários paus de canela, tal foi a fome que passou, foram libertados dois lobos, quatro coelhos, cinco esquilos comuns, dois castores, uma truta, um urso, um homem, três mulheres e duas crianças.
São assim as lendas. A verdade dos factos mistura-se com a imaginação e lunar é o rapaz balsâmico que possuía um pacífico esquilo voador.
Na aldeia, guardaram-se as nozes para os bolos de mel e as bagas de azevinho rebentaram entre as folhas de um verde muito escuro. Cheirava a húmus e a pinheiro manso e o fogo crepitava nas lareiras.
Foi então que Brama sentiu um apelo, um chamamento dos outros veados. Agitou as hastes, baixou a cabeça, raspou a terra com as patas dianteiras.
E se era dezembro era o tempo de regressar a casa.
esta é a última das Crónicas de Brama
muitas outras se contaram e todas são verdadeiras






II - a traição dos esquilos voadores

Quando chegaram ao sopé das montanhas, Brama e o esquilo descansaram. Por esta altura já o veado entendia a linguagem da cauda do esquilo e os movimentos e as cores que lhe estavam associados. Para inspirar respeito e assustar os inimigos, a cauda triplicava de tamanho, abria como um leque e ganhava tons mais escuros. Para demonstrar alegria, agitava-a ligeiramente para a direita e quando a deixava tombar, queria dizer que estava triste ou cansado. Se a abanava de trás para a frente, significava perigo mortal. Os seus olhos enormes e redondos davam-lhe o conhecimento animado dos objetos e dos bichos, e pressentia até, o que se passava nas suas costas.
E Brama chamou-lhe Timóteo. O esquilo riu-se com os dentes de fora e desatou aos saltos e às cambalhotas.
Nas montanhas existiam três torres invisíveis aos olhos humanos, mas perfeitamente percetíveis para os olhos dos animais da terra seca. A cada torre correspondia um patamar e destinavam-se a abrigar os caminhantes na sua subida até aos cumes gelados. Na Antiguidade Primeira, tinham sido habitadas por velhos e pacíficos guardiões que tanto poderiam ser animais como homens, a única condição era possuírem um coração manso e corajoso. Na Antiguidade Segunda, parcialmente destruídas e tomadas de assalto pelos violadores de pensamentos, ficaram desoladamente abandonadas, tornando a subida mais penosa e solitária. Na atualidade eram habitadas por uma feroz comunidade de esquilos voadores sob a égide de Perfidus, o rei dos esquilos voadores.
E porque a aproximação, de quem não provoca, não intimida, não magoa, não causa tumulto, incomoda os que se julgam poderosos, começou a crescer na cabeça de Perfidus o rei, um plano diabólico, maléfico, vingativo.
Perfidus odiava os esquilos comuns, os veados, os lobos, os ratos, as aves, os peixes e praticamente todas as criaturas. Perfidus tinha cinco filhos. O primeiro era feio como o lodo, o segundo, assustador como as trevas. O terceiro era falso como as finas camada de gelo, o quarto era magro e escuro como as varas de bater nos porcos, e por fim o quinto, era belo, o pelo lustroso, o nariz perfeito. Mas mentiroso, frio, calculista. Perfidus não amava os filhos. Amava o que os filhos tinham de ruim. Enganando a sua própria natureza, excluíam-se do equilíbrio das espécies e excluíam todos os outros.
Brama e Timóteo subiam. O veado levava entre os dentes um último ramo de pinheiro bravo, manchado de pequenos flocos de neve que lhe matavam a sede. O esquilo guardava nas bochechas nozes e bolotas para os tempos de penúria e não se podia rir, nem mostrar os dentes, sob pena de perder todos os seus víveres.
Quando atingiram a primeira torre sentiram um silêncio assustador. A cauda de Timóteo abanava de trás para a frente e os olhos abriram-se como se quisessem rodar. E vindos do nada, como se o nada fosse o mais temível desconhecido, surgiram cinco esquilos voadores e rasaram as suas cabeças e quatro deles seguraram nas patas de Timóteo enquanto o quinto, belo, perfeito, frio e calculista, desatou a corda que trazia na boca e prendeu Timóteo com treze nós tortos. Cego de raiva Timóteo gritou, fez sair as unhas dos quatro dedos dianteiros, mais as cinco unhas dos dedos traseiros, mas os esquilos voadores eram mais fortes, mais negros, mais falsos, mais feios, mais escuros e num segundo, levaram-no dali.
Brama sentiu uma dor aguda dentro do peito. Como se o frio da montanha lhe tivesse paralisado o sangue nas veias, nas artérias e nos capilares. Firmou as patas dianteiras no solo, escavou, baixou a cabeça, investiu com força contra uma rocha, impotente e desolado. As hastes caíram.
Foi então que soltou o maior dos bramidos. E tornou-se tão destituída de sentido aquela subida.



 Timóteo, o esquilo comum



esta é a parte segunda das crónicas de Brama
em que tomados de assalto pelos violadores de pensamentos
Brama e Timóteo ficam desoladamente abandonados e sós