Quando chegaram ao sopé das montanhas, Brama e o esquilo
descansaram. Por esta altura já o veado entendia a linguagem da cauda do
esquilo e os movimentos e as cores que lhe estavam associados. Para inspirar
respeito e assustar os inimigos, a cauda triplicava de tamanho, abria como um
leque e ganhava tons mais escuros. Para demonstrar alegria, agitava-a
ligeiramente para a direita e quando a deixava tombar, queria dizer que estava
triste ou cansado. Se a abanava de trás para a frente, significava perigo mortal.
Os seus olhos enormes e redondos davam-lhe o conhecimento animado dos objetos e
dos bichos, e pressentia até, o que se passava nas suas costas.
E Brama chamou-lhe Timóteo. O esquilo riu-se com os
dentes de fora e desatou aos saltos e às cambalhotas.
Nas montanhas existiam três torres invisíveis aos olhos
humanos, mas perfeitamente percetíveis para os olhos dos animais da terra seca.
A cada torre correspondia um patamar e destinavam-se a abrigar os caminhantes
na sua subida até aos cumes gelados. Na Antiguidade Primeira, tinham sido
habitadas por velhos e pacíficos guardiões que tanto poderiam ser animais como
homens, a única condição era possuírem um coração manso e corajoso. Na
Antiguidade Segunda, parcialmente destruídas e tomadas de assalto pelos violadores
de pensamentos, ficaram desoladamente abandonadas, tornando a subida mais
penosa e solitária. Na atualidade eram habitadas por uma feroz comunidade de
esquilos voadores sob a égide de Perfidus, o rei dos esquilos voadores.
E porque a aproximação, de quem não provoca, não
intimida, não magoa, não causa tumulto, incomoda os que se julgam poderosos,
começou a crescer na cabeça de Perfidus o rei, um plano diabólico, maléfico,
vingativo.
Perfidus odiava os esquilos comuns, os veados, os lobos,
os ratos, as aves, os peixes e praticamente todas as criaturas. Perfidus tinha
cinco filhos. O primeiro era feio como o lodo, o segundo, assustador como as
trevas. O terceiro era falso como as finas camada de gelo, o quarto era magro e
escuro como as varas de bater nos porcos, e por fim o quinto, era belo, o pelo
lustroso, o nariz perfeito. Mas mentiroso, frio, calculista. Perfidus não amava
os filhos. Amava o que os filhos tinham de ruim. Enganando a sua própria
natureza, excluíam-se do equilíbrio das espécies e excluíam todos os outros.
Brama e Timóteo subiam. O veado levava entre os dentes um
último ramo de pinheiro bravo, manchado de pequenos flocos de neve que lhe
matavam a sede. O esquilo guardava nas bochechas nozes e bolotas para os tempos
de penúria e não se podia rir, nem mostrar os dentes, sob pena de perder todos
os seus víveres.
Quando atingiram a primeira torre sentiram um silêncio
assustador. A cauda de Timóteo abanava de trás para a frente e os olhos
abriram-se como se quisessem rodar. E vindos do nada, como se o nada fosse o
mais temível desconhecido, surgiram cinco esquilos voadores e
rasaram as suas cabeças e quatro deles seguraram nas patas de Timóteo enquanto
o quinto, belo, perfeito, frio e calculista, desatou a corda que trazia na boca
e prendeu Timóteo com treze nós tortos. Cego de raiva Timóteo gritou, fez sair
as unhas dos quatro dedos dianteiros, mais as cinco unhas dos dedos traseiros,
mas os esquilos voadores eram mais fortes, mais negros, mais falsos, mais
feios, mais escuros e num segundo, levaram-no dali.
Brama sentiu uma dor aguda dentro do peito. Como se o
frio da montanha lhe tivesse paralisado o sangue nas veias, nas artérias e nos
capilares. Firmou as patas dianteiras no solo, escavou, baixou a cabeça,
investiu com força contra uma rocha, impotente e desolado. As hastes caíram.
Foi então que soltou o maior dos bramidos. E tornou-se tão
destituída de sentido aquela subida.
Timóteo, o esquilo comum
esta é a parte segunda das crónicas de Brama
em que tomados
de assalto pelos violadores de pensamentos
Brama e Timóteo ficam desoladamente abandonados
e sós