lomami


Uma linha de água separou-os. Nem deram por isso.
De pé na floresta húmida, parece pequeno, cinquenta centímetros de músculos, ossos, cartilagens, coração, pulmões, sangue, cabelos, olhos, boca. O solo rente, o odor primitivo do mundo.
A noite que lhe dá segurança, curiosidade, destreza, também atrai o perigo. Um descuido e torna-se presa, caçado, privado de liberdade, desfeita a vida.  Isso, apenas o saberá no momento exato da captura, não antes, não quando ainda não existia.
Talvez tenha medo do ruído das torrentes, da luz dos relâmpagos, dos ramos emaranhados das árvores, da picada das cobras, da peçonha das aranhas.
Talvez tenha saudades de andar às costas da mãe, de mordiscar o pescoço dos irmãos, de rebolar na erva, único, perfeito.
Nos eclipses da lua interroga-se sobre a mancha que cresce e ocupa a luz, nos do sol cala-se, porque lhe é familiar a natureza da privação. O grupo que o protege é em número reduzido, reconhecem-se pelas vocalizações que emitem, pelo território que ocupam. Escutam os sons da floresta e o estalido das folhas e por fim mergulham nos grandes lagos, superfície líquida, pura, que emerge do olhar.
Nós ficamos deste lado e do outro, timidamente maravilhados macios dentro do peito.
É uma espécie vulnerável. Nós também.
Lomami desenho a pastel de mb
o verdadeiro Cercopithecus lomamiensis é este aqui

II - salto


Eram uns sapatos calados.
Os vestidos pretos tinham a voz da madrugada, os encarnados, a da pimenta verde. Bastava o olhar de uma mulher e eles deixavam-se ir abandonados a uma quimera de teias, de pontos, de cortes, de bainhas, de linhas com que se cosem as tramas.
Os sapatos não. Andam por baixo no ponto mais próximo da terra mesmo que coberta por pedras da calçada, cascalho ou alcatrão. Sentem-se inquietos quando imóveis, exposta a sua natureza viandante a imagem de um é o oposto do outro. Face interna que é externa, o espelho, o esquerdo e o direito, o avesso, o reverso da pele.
No interior de cada tacão, que como sabem é para altear o calcanhar e fingir que as pessoas são maiores do que realmente são, escondem-se por vezes partículas dos seres que os criaram. O dedo que se cortou e sangrou, a unha que lascou. Por isso o sapato tem alma, que o sustenta e o faz caminhar e parte-se. É essa a sua essência humana.
Eram uns sapatos tristes.
Não gostavam de flores a enfeitá-los porque essas são dos campos, das varandas, das jarras, das lapelas, dos altares e das toalhas nos dias de festa.
Pregada na parede, Camila a rapariga moldada em pasta de papel de jornal e cola branca, sabia que dificilmente aqueles sapatos seriam comprados por alguém e ela não tinha pés. Desejou-os, implorou-os, abriu ainda mais os olhos já abertos, mas na azáfama dos dias não lhe entenderam a linguagem parada das tintas e ninguém lhe moldou o resto do corpo.
Numa noite, à hora em que a cidade supostamente adormecia, dando um golpe de rins que ela não tinha, soltou-se do expositor e espalhando pelo chão as pérolas falsas e as contas de vidro, abriu a porta da loja e disse, vão.
Os vestidos gritaram histéricos e tontos, as gavetas deslizaram despejando lenços, meias, casacos de malha, as prateleiras caíram. Depois a calma voltou.
Lá fora na praça, os bancos quietos e um rumor de cortinas a esvoaçar. Cheirava a outono e os sapatos calados pretos tristes abertos de verão, aperceberam-se da inutilidade solitária das estações.




sapatos calados e vestidos tontos
óleos de mb




I - camila


Era manhã. A cidade aquecia. Ela passava a correr, o saco a tiracolo, as havaianas a dançarem nos pés, os pés a dançarem na calçada, as sardinheiras a espreitarem nas varandas, os gatos a ronronarem sonos. O carteiro misturava os códigos postais e as faturas adiadas e o monte de cartas rosnava-lhe, vais-te lixar, baralhas tudo, até a vida. Não faz mal, é tão bonita aquela rapariga.
Depois fazia-se um silêncio de rua antiga, de lojas fechadas, de ferro forjado, de janelas de guilhotina. Os velhos no abandono das casas saíam para o pão nosso de cada dia, café já não, um cigarro enrolado e um dedo de conversa a cada esquina. O outro dedo guardavam-no, era um dedo mágico, porque às vezes sem darmos conta as coisas ganham outra face e quem somos nós para negar a esperança e a alegria.
Mais umas horas e a cidade arrefecia. Ela regressava e quando todos fechavam as janelas, ela abria-as. Primeiro as pessoas desconfiaram, estranharam, mas recordaram o tempo das laranjeiras em flor nos pátios e nas vilas da cidade, quando os vizinhos sabiam os nomes uns dos outros e emprestavam-se dois ovos, um pé de salsa ou uma chávena de farinha. Arriscaram então, ganharam a coragem de um gesto terno e convidaram-na para o chá e as mulheres fizeram biscoitos em forma de estrelas e corações e ela disse, eu tenho um sonho, gostava de ter uma loja de portas sempre abertas, o sol a atravessar os vidros e o passeio lá fora e desenhávamos vestidos de seda da China e de algodão do Egipto, sapatos pretos para ir dançar. Pintávamos as paredes de cores quentes e as contas e os colares poderiam ser de flores para variar. E abriu muito os seus olhos desmedidos, porque medir ela apenas o fazia só de olhar. Os biscoitos deram um pequeno salto em cada prato e os corações colaram-se-lhes ao peito numa aceitação daquele entusiasmo, daquela paixão que os arrebatava.
Ninguém murmurou, que fútil, que inútil pensar em trapos e colares neste tempo de hienas. Então os seus dedos mágicos poupados a dois dedos de conversa, procuraram os pés-de-meia mas não os encontraram, e disseram-lhe, fica com a loja abandonada na casa térrea, o número 7 da rua das flores, dá um abrigo ao teu sonho e desabriga-nos da tristeza, da frieza deste verão.
Nós sabemos costurar os desenhos que inventares, pintar as paredes negras de fungos e fuligem, colocar vidros, consertar os móveis partidos, lustrar e encerar.
Nos olhos da rapariga formaram-se duas conchas de água que ela apanhou para fazer um colar.
Pela noite dentro moldou um tronco, deu forma a um rosto em pasta de papel. Pintou-o de cores fortes, enfeitou-o de flores e muitas contas. Chamou-lhe, Camila.
quem disse que já não podemos sonhar óleos de mb
agradeço a Amélie au Théâtre

hydrangea







Os solos ácidos produzem flores azuis, os solos alcalinos fazem-nas rosa. Os estéreis matam-nas.
Arredondam-se, enormes, invasoras, belas. É agora o tempo da seca, da estiagem e do desencanto que é a ausência de encanto ou a presença do que não esperávamos encontrar.
Gastámos a falácia da aceitação e da conformação e desejaríamos apenas ser fúteis, insignificantes, discutirmos inutilidades como a unha que se partiu e o verniz é rasca e o cabelo espigou com o sol e o sal.
Ao anoitecer a garrafa esverdeia sombras e as folhas apequenam-se, frisam-se em pergaminho antigo. Gostam das cordas dos violoncelos e de um ligeiro cheiro ácido a limão. A erva-príncipe cresce nos locais frios quem sabe o alecrim do norte, tão a norte que a gente se perca e o calor esmoreça adormeça.
As terras estéreis matam-nos. Por isso guardamos a memória dos ventos alísios e acentuamos a presença da noite azul escura das hortências.




















hydrangea óleo de mb