A luz a escorregar pelas vidraças, o cheiro a sargaço, o sal nos lábios. Semelhantes são as casas da praia, duas portas, uma cozinha, sete quartos, um sótão, um estendal balançado de toalhas azuis. Marinho, ultramarino, turquesa, cobalto, celeste. Uma torneira que se abre ao máximo e a mangueira enrolada distende-se, cresce como uma cobra encapelada, gritos de alegria, um arco-íris atravessa a água, este instante atravessa a vida.
No limite, será essa a travessia. Descalços, nus, não necessitamos de mais nada.
Afastamento. Há uma hesitação antes da partida, um medo vago do desconhecido, uma escama de peixe presa na garganta.
Depois abandonamo-nos e em cada desvio o sol é quente e acastanha a pele e o fundo da água uma camada fina de areia como um deserto molhado.
As luas serão duas no céu de agosto.
Aproximação. Os peixes não dormem. Alternam estados de vigília e de repouso, os olhos sempre abertos e eles imóveis, disfarçados, desconhecidos.
Quem regressa encontra o equilíbrio das barbatanas peitorais, desaproxima-se da eternidade dos verões, do tempo que julgamos compreender e que intuímos apenas.
Sabemos tão pouco sobre as guelras e os pulmões.
Um dia guardei uma história antiga na barriga de um peixe. Primeiro abri-o com uma faca afiada, aquietei-o com uma litania de estrelas, ouriços, búzios do mar. Acomodei as palavras, urdi a trama nas frágeis cartilagens, disse-lhe, não tenhas medo.
Depois cosi-lhe as entranhas com uma linha de seda bem fechado o peixe, avaro o que protege. Amarou então. E eu marquei na memória a sua forma, a sua cor, o jeito acrobático das mudanças de corrente, o rodopiar excêntrico. Não sei para quê. Os peixes multiplicam-se, assemelham-se, confundem os humanos. Este é especial pelo que esconde, não pelo que demonstra.
Reconhecimento. Será ele a reconhecer-me e eu não.
Outro dia.