Eu sei que tenho uma forma estranha de me expressar.

A narração é um esboço, um estudo, a busca de uma realidade concreta posteriormente ficcionada, extremada. É causa, objetivo, propósito.

Risco, apago, acrescento, troco, mascaro, preencho, decomponho, desdenho, desenho, recrio, arranco, fixo, desprendo, atendo, registo, esqueço, memorizo, desfaço, rasgo, reinvento.
É como se historiasse a noite e traçasse o silêncio nas maçãs do rosto de quem apanhou o jeito de me ler.

E assim enfeitados de estrelas o mar está manso e frio e sossegado de ondas e num pequeno intervalo entre os sais que o compõem cabe sempre um abraço para celebrar.



 
ao segundo dia do mês de agosto de 2012
completam-se três anos das HISTÓRIAS COM MAR AO FUNDO


até já







três são as estrelas do mar de mb











Marcamos uma linha, um traço. De um lado terra do outro mar. Fronteira é o risco.
O horizonte também é uma linha e pode ser perspetivado ou racional.

Construiu o mais simples, uma estrutura de canas em forma de losango, papel de seda amarelo torrado, círculos azul cobalto. Foi cuidadoso com a corda e o carreto e acrescentou uma cauda para estabilizar.
Disseram-lhe, não voa, vai cair, enrolar. Ele não ouviu. As pessoas falam sempre demais.
Encontrado o equilíbrio entre a força do vento e a da corda aguentou-se no ar, subiu, desceu, volteou, raiou as cabeças das crianças na beira das ondas, estalou ao mudar de direção.
Foi assim o tempo que ele quis, o papagaio estrela, a corda e a perícia dos dedos. Uma eternidade. Depois num impulso, largou-o, soltou-o e antes do mergulho brilhou sobre o mar.
Os peixes-serra e os ratões olharam desconfiados aquele ser nem pássaro nem peixe tal qual os que disseram, não sabe nadar, afoga-se. Na ignorância do que falavam, estabilizou as cartilagens, consolidou a cabeça e as barbatanas, chicoteou a cauda, serenou uma curva em corrente descendente e deixou-se ir na amplitude da água.

Lá no fundo dois ou três grãos de areia trocaram de lugar.




desejo-vos boas férias!





batoidea de mb






acidular

















O café deve ser forte, arábica para aguentar, o açúcar mascavado e o limão acabado de apanhar. Debaixo de um jacto de água da torneira lava-se bem para tirar a caca dos pássaros e as teias de aranha, pega-se numa faca afiada e na tábua da cozinha cortam-se rodelas finas e milimetricamente semelhantes. O gelo laminado. Não interessa como. Pode sair de um frigorífico moderno que nos entrega a água já gelada, capaz de catalogar as caixas de congelação, de as identificar sem misturar a base da sopa de cenoura com a carne à bolonhesa. Alguns também são ecológicos, poupam energia e possuem várias memórias de conversação consoante sejam invadidos pelas crianças em busca de sumos ou pelo avô que guarda a garrafa do whisky de malte escondida na gaveta dos legumes. Os mais educados são caríssimos, mas agradecem sempre que fechamos a porta com o pé e esta bate sem que o consigamos controlar. Na falta deste modelo, serve um martelo e um saco de plástico resistente. Neste caso o gelo não sairá laminado, mas lascado, que é aquela forma como às vezes nos sentimos ainda o verão mal começou.
O movimento de bater no gelo não é isento de perigo e os dedos mais frágeis são o anelar e o mindinho seu vizinho com quem gostamos de partilhar o limoeiro.
O segredo está na proporção talentosa dos elementos, o café, a água gelada, o açúcar, o gelo, as rodelas de limão. Mistura-se com uma vareta num jarro de vidro azulado translúcido para brigar com o amarelo branco preto limão.
Bebe-se pausadamente ou só de um trago e o sabor será igual.
Entre o factual e o imaginado a luz refrata-se no jarro de vidro azulado e o pássaro da tarde já cantou. Coloco então o limoeiro debaixo do braço e vou por aí acidular.



limão metálico desenho a lápis de mb






partículas de deus











A voracidade das lagartas é atroz. Se é folha, tornam-se folha, se é fruto transfiguram-se em polpa e cor. Avançam em visco e rastejo mas se pisadas são ranho.

O senhor da sapataria perguntava, quer a caixa ou um saco? A mãe dizia, saco, eu respondia, caixa, para os bichos. Da seda. As amoreiras já eram árvores em vias de extinção. Andávamos quilómetros até à quinta dos gafanhotos, puxávamos a corda e o sino tocava. Descansávamos então sentados na berma da estrada, porque o caseiro era coxo e levava muito tempo para chegar da horta ao portão. O seu nome era Serafim, mas as pessoas diziam, Serafim o coxo. Hoje diríamos o senhor Serafim, o que tem um defeito numa perna. Não gostaríamos mais dele do que então gostávamos, seríamos apenas mais corretos. A correção pode ser também um enorme defeito, porque sendo falsa, é só por si uma imperfeição. A mim chamavam-me espirra-canivetes por ser alta e magra, o que é incorreto, pois esta expressão significa uma pessoa irritadiça, nervosa, coisa que nunca fui. As poucas vezes que andei à bulha foi de uma forma perfeitamente calma, fria e distante. Bati para defender alguém e quando me batiam, caía sempre, porque tinha peso a menos.

A mais leve, pesa zero vírgula três gramas e a mais veloz pode percorrer mil e quinhentos quilómetros no sentido sul-norte e passar desapercebida. As mais coloridas são diurnas, sofrem o stresse da competição, têm de ser as melhores, as mais belas, as únicas. As noturnas pacificam-se, dispensam o brilhantismo das cores, atraem-se, desenvolvem os outros sentidos e assim se perpetuam.

Serafim deixava-nos subir às amoreiras e apanhar apenas as folhas maiores. As mais tenras e pequenas tinham de ser protegidas para atingirem a maturidade. Depois dos sacos cheios, o ritual repetia-se, Serafim chamava-nos para debaixo da latada e colocava sobre a mesa de madeira um enorme melão. Com a sua faca afiada cortava as pontas, em redondo, a seguir abria-o no sentido do comprimento, retirava as sementes para um balde de lata e dividia connosco as fatias sumarentas. O sumo doce, ligeiramente picante, escorria-nos pelo queixo e matava a sede e a fome de merendar. Lanchar era a fala das cidades onde jamais se encontrariam melões ligeiramente picantes e alaranjados.

As asas são formadas por escamas. Seriam dorso de peixe, barbatana. A longevidade de um ser mede-se pela intensidade da sua vida e um mês pode ser eterno. A Monarca vive nove meses, quatro fases de vida e só se alimenta em duas delas.

A pele dos bichos-da-seda era suave e macia. Devorar era o seu objetivo e a sua cegueira confundia-me. O cheiro a cartão da caixa misturava-se com o cheiro das folhas de amoreira, dos ovos, dos casulos, das borboletas a acasalar. Nauseava-me. Andei quilómetros, subi à amoreira e larguei os bichos e as folhas e a caixa dos sapatos.

Um dia somos partículas de Deus.

















metallic butterfly desenho a lápis de mb