Marcamos uma linha, um traço. De um lado terra do outro mar. Fronteira é o risco.
O horizonte também é uma linha e pode ser perspetivado ou racional.

Construiu o mais simples, uma estrutura de canas em forma de losango, papel de seda amarelo torrado, círculos azul cobalto. Foi cuidadoso com a corda e o carreto e acrescentou uma cauda para estabilizar.
Disseram-lhe, não voa, vai cair, enrolar. Ele não ouviu. As pessoas falam sempre demais.
Encontrado o equilíbrio entre a força do vento e a da corda aguentou-se no ar, subiu, desceu, volteou, raiou as cabeças das crianças na beira das ondas, estalou ao mudar de direção.
Foi assim o tempo que ele quis, o papagaio estrela, a corda e a perícia dos dedos. Uma eternidade. Depois num impulso, largou-o, soltou-o e antes do mergulho brilhou sobre o mar.
Os peixes-serra e os ratões olharam desconfiados aquele ser nem pássaro nem peixe tal qual os que disseram, não sabe nadar, afoga-se. Na ignorância do que falavam, estabilizou as cartilagens, consolidou a cabeça e as barbatanas, chicoteou a cauda, serenou uma curva em corrente descendente e deixou-se ir na amplitude da água.

Lá no fundo dois ou três grãos de areia trocaram de lugar.




desejo-vos boas férias!





batoidea de mb






acidular

















O café deve ser forte, arábica para aguentar, o açúcar mascavado e o limão acabado de apanhar. Debaixo de um jacto de água da torneira lava-se bem para tirar a caca dos pássaros e as teias de aranha, pega-se numa faca afiada e na tábua da cozinha cortam-se rodelas finas e milimetricamente semelhantes. O gelo laminado. Não interessa como. Pode sair de um frigorífico moderno que nos entrega a água já gelada, capaz de catalogar as caixas de congelação, de as identificar sem misturar a base da sopa de cenoura com a carne à bolonhesa. Alguns também são ecológicos, poupam energia e possuem várias memórias de conversação consoante sejam invadidos pelas crianças em busca de sumos ou pelo avô que guarda a garrafa do whisky de malte escondida na gaveta dos legumes. Os mais educados são caríssimos, mas agradecem sempre que fechamos a porta com o pé e esta bate sem que o consigamos controlar. Na falta deste modelo, serve um martelo e um saco de plástico resistente. Neste caso o gelo não sairá laminado, mas lascado, que é aquela forma como às vezes nos sentimos ainda o verão mal começou.
O movimento de bater no gelo não é isento de perigo e os dedos mais frágeis são o anelar e o mindinho seu vizinho com quem gostamos de partilhar o limoeiro.
O segredo está na proporção talentosa dos elementos, o café, a água gelada, o açúcar, o gelo, as rodelas de limão. Mistura-se com uma vareta num jarro de vidro azulado translúcido para brigar com o amarelo branco preto limão.
Bebe-se pausadamente ou só de um trago e o sabor será igual.
Entre o factual e o imaginado a luz refrata-se no jarro de vidro azulado e o pássaro da tarde já cantou. Coloco então o limoeiro debaixo do braço e vou por aí acidular.



limão metálico desenho a lápis de mb






partículas de deus











A voracidade das lagartas é atroz. Se é folha, tornam-se folha, se é fruto transfiguram-se em polpa e cor. Avançam em visco e rastejo mas se pisadas são ranho.

O senhor da sapataria perguntava, quer a caixa ou um saco? A mãe dizia, saco, eu respondia, caixa, para os bichos. Da seda. As amoreiras já eram árvores em vias de extinção. Andávamos quilómetros até à quinta dos gafanhotos, puxávamos a corda e o sino tocava. Descansávamos então sentados na berma da estrada, porque o caseiro era coxo e levava muito tempo para chegar da horta ao portão. O seu nome era Serafim, mas as pessoas diziam, Serafim o coxo. Hoje diríamos o senhor Serafim, o que tem um defeito numa perna. Não gostaríamos mais dele do que então gostávamos, seríamos apenas mais corretos. A correção pode ser também um enorme defeito, porque sendo falsa, é só por si uma imperfeição. A mim chamavam-me espirra-canivetes por ser alta e magra, o que é incorreto, pois esta expressão significa uma pessoa irritadiça, nervosa, coisa que nunca fui. As poucas vezes que andei à bulha foi de uma forma perfeitamente calma, fria e distante. Bati para defender alguém e quando me batiam, caía sempre, porque tinha peso a menos.

A mais leve, pesa zero vírgula três gramas e a mais veloz pode percorrer mil e quinhentos quilómetros no sentido sul-norte e passar desapercebida. As mais coloridas são diurnas, sofrem o stresse da competição, têm de ser as melhores, as mais belas, as únicas. As noturnas pacificam-se, dispensam o brilhantismo das cores, atraem-se, desenvolvem os outros sentidos e assim se perpetuam.

Serafim deixava-nos subir às amoreiras e apanhar apenas as folhas maiores. As mais tenras e pequenas tinham de ser protegidas para atingirem a maturidade. Depois dos sacos cheios, o ritual repetia-se, Serafim chamava-nos para debaixo da latada e colocava sobre a mesa de madeira um enorme melão. Com a sua faca afiada cortava as pontas, em redondo, a seguir abria-o no sentido do comprimento, retirava as sementes para um balde de lata e dividia connosco as fatias sumarentas. O sumo doce, ligeiramente picante, escorria-nos pelo queixo e matava a sede e a fome de merendar. Lanchar era a fala das cidades onde jamais se encontrariam melões ligeiramente picantes e alaranjados.

As asas são formadas por escamas. Seriam dorso de peixe, barbatana. A longevidade de um ser mede-se pela intensidade da sua vida e um mês pode ser eterno. A Monarca vive nove meses, quatro fases de vida e só se alimenta em duas delas.

A pele dos bichos-da-seda era suave e macia. Devorar era o seu objetivo e a sua cegueira confundia-me. O cheiro a cartão da caixa misturava-se com o cheiro das folhas de amoreira, dos ovos, dos casulos, das borboletas a acasalar. Nauseava-me. Andei quilómetros, subi à amoreira e larguei os bichos e as folhas e a caixa dos sapatos.

Um dia somos partículas de Deus.

















metallic butterfly desenho a lápis de mb






acuarela


Depois, antes, agora, sempre, eternamente. São as férias grandes. Os sacos, as sandálias, a bola, a bicicleta, o panamá, os calções de banho onde a avó bordou um barco a ponto cruz, duas velas, uma onda do mar. Se mergulharmos, naufraga e a rocha é dura, quebra os pontos, a madeira frágil, a cruz.
Não mudamos de casa, mas para nós é diferente. Abrem-se as portas e as janelas, espalham-se almofadas pelo chão, adia-se a sopa de cenoura para os dias frios onde é de facto necessário ter os olhos bonitos. Nestes dias mais felizes é que não.
A face da senhora Maria é morena e as mãos brancas de fermento e farinha de trigo. Lambuza-nos de saudade e de beijos, as bolas de Berlim enroladas em papel manteiga e vai avisando, não deixem cair! mas nós deixamos. Açúcar e areia fazem o mesmo som quando trincados.
Os banheiros montam e desmontam as barracas, enrolam os panos de lona dos toldos, assobiam.
A infância só por si é navegar.



Quando todos partem nós ficamos. Embrulhados nas toalhas, o fato de banho húmido, os joelhos abraçados pelos próprios braços, o nariz levantado para o sol ainda. Quase noite entardece, as aves marinhas reaproximam-se do espaço cedido aos humanos, esvoaçam, lutam pelas migalhas, gritam. Um cão dispara numa corrida louca, ladra de alegria, o dono lança um pau à água e ele nada, reconquista-o, entrega-o ao homem. E recomeça, uma e outra vez sem manifestar cansaço.
Os banheiros desmontam as barracas, enrolam os panos de lona dos toldos, riem-se. Podemos agora falar do que nos importa e o sol no horizonte é um vermelhão de luz.



Azul cerúleo é o azul do céu ou verde mar por ser azul.
Azul ultramar é lápis lazúli sem lápis só azul.
Branco é da espuma das ondas dos gelados de nata do leite sem chocolate é a luminosidade o luar.
A cada entardecer, distintos. Enrolam-se, curvam-se, dobram-se, são corpo, sombras e luz. Têm vida. Poderiam libertar-se das cordas, rodar e dançar e seriam arte mágica. Nós permanecemos às riscas azuis e brancas e somos pano, lona, tecido imaginário, dobra no tempo, ponto onde cruzamos imagens, azul ultramar.



"carpas" acuarelas de Enrique Ochotorena

aqui onde o imaginário é luz

gracias lupus!