II - o sonho


Era um coelho triste. Gostava de cenouras e de poemas satíricos. Morava no último andar de um prédio antigo de frente para o rio e do outro lado a banda de lá onde já não existem os estaleiros e a linguagem perdida dos guindastes é apenas a memória de um livro que se leu.
Ninguém entendia como é que sendo ele triste, não preferia os poemas de amor, profundos, impossíveis. Um coelho apaixonado pela filha de um rei daria um poema épico e ele poderia chorar desesperado e chorariam com ele as senhoras sós que saíam à rua sós, os lábios desenhados sós, as rugas a espreitar enganos sós. Ou os jovens fumadores cigarro após cigarro, os dedos amarelados, a tosse no sótão, o veneno engolido em desespero de causa, o passado sempre o passado. Não. O coelho era mordaz, sentia o riso difícil, labiríntico e em tempos de complexidade, melhor será sermos complexos do que simplistas, ter graça requer mais talento do que fazer chorar.
Na varanda plantava coentros, cenouras e couve-galega. Pelo meio cresciam papoilas. Não podia tocar em alface, fazia-lhe mal e no inverno agasalhava-se em si próprio e ia para o jardim das amoreiras roer a casca das árvores. Sempre aos saltos e isso aborrecia-o, o coelho desejava saber andar.
No primeiro direito morava um rapaz que tinha um aquário com um peixe-palhaço e eram amigos os dois, o rapaz e ele. À tardinha o rapaz batia-lhe à porta com o aquário debaixo do braço, o gato branco e preto sempre atrás deles alucinado com o peixe, o peixe a fazer glu. Depois sentavam-se na beirinha do telhado, o rapaz com as pernas para fora, o aquário em equilíbrio e o gato agora distraído com o voo das andorinhas a fazerem raseiras na cabeça dos anjos. Tirava duas cenouras do bolso das calças, dava uma ao coelho e dizia, lê-me os poemas. E o coelho lia. O rapaz sorria e a seguir ria e dobrava o riso, mordaz e perdido. Às vezes ficavam com soluços os dois e as pessoas vinham à janela ao entardecer e o riso contagiava as varandas e os olhos dos velhos.
O coelho prendia uma papoila ao peito e dizia, um dia vamos viajar.



a rapariga sonha com o coelho e o gato vai atrás
 pastel continua negro de algodão






I - paragem


Estava sozinha na paragem do autocarro. À sua frente, uma folha de papel de jornal abandonada ao vento da manhã ainda noite. Subia, girava, dobrava-se, revolteava, as letras pretas pareciam escorregar mas agarravam-se ao fio das notícias, à paginação definida e ela a olhar. Uma rajada mais forte fê-la subir até aos ramos mais baixos dos plátanos, os pássaros nos ninhos não sabiam ler e a folha fez um som seco de madeira de barco quando o sol lhe bate, mas chuviscava ali. Folha com folha, a de jornal e a de plátano e a rapariga sentada. Sobre os joelhos um saco de lona, a saia curta, os ténis, o desalinho da idade. Junto ao pescoço a blusa antiquada, os botões a fechar casas, uma timidez de outro século. Era uma rapariga em duas, mas isso não significava nada ali na paragem de autocarro. Os minutos passavam, a chuva engrossou, a folha de jornal deixara de dançar e quando o autocarro se aproximou a rapariga levantou-se devagar, estendeu o braço, dobrou ligeiramente o pé direito e a saia rodou.
O destino poderá ser a praça da alegria, os prazeres, os mártires, a estrela, a graça, o coração de jesus, as necessidades, a rua do ouro, o alto dos moinhos. De antemão não se sabe. Ela fechou os olhos e o motorista gritou - Em direção à lapa! Era o destino certo nesse dia, a lapa onde gostava de se esconder, invisível, transparente, à procura das gotas de água, dos cogumelos venenosos, das rãs.
Então? disse o homem – despacha-te, não temos o dia todo - e arrancou ruidosamente.
Na segunda paragem entrou um coelho preto e branco com uma papoila ao peito, na terceira, um gato branco e preto sem papoila. A rapariga viajava junto à janela e ia contando os candeeiros de rua que tinham as lâmpadas fundidas àquela hora da manhã. Contou dezasseis e na vigésima paragem entrou um homem com uma cartola preta e veio sentar-se a seu lado. Vestia umas calças de ganga e uma camisola de algodão, tinha um sorriso largo, o nariz perfeito e a cartola destoava. Não parecia dele. A rapariga olhou-o desconfiada e o homem disse-lhe, dormem pássaros no meu chapéu. Ela riu-se e acreditou.
Na última paragem antes de chegarem ao destino a rapariga puxou-lhe a manga da camisola e disse-lhe baixinho, eu não durmo.


conto da rapariga que cantava para adormecer
pastel sobre negro de algodão





da noite










Tenho uma marca azul no lóbulo da orelha esquerda. Não nasceu comigo mas existe desde o instante em que comecei a recordar. Não me lembro de ter três anos de idade ou do número de degraus que conduzia a casa da minha avó. O meu avô fumava cachimbo e fazia licores de folha de figueira, de hortelã-pimenta e de café. Eu não gosto de licores mas sei que um dia disse, quero um piano. E é esse o primeiro objeto de desejo que me lembro desejar. Não se concretizou.
Depois há outras ilhas. Dizem-nas oceânicas, superfícies emersas das montanhas que habitam o fundo do mar. Imaginemos uma ausência de água salgada e o que seria a privação de ilhas, mas esta é apenas uma enganosa teoria, uma efabulação perversa de quem gosta de ser marcado.
A primeira das ilhas é um peixe apaixonado que perdeu a cabeça por uma maré alta e possui dois faróis, um em cada uma das pontas. A oeste, faz-nos acreditar na eternidade da vida. A oriente, reconhece-nos o direito à brevidade das coisas. A sua luz é igualmente brilhante, insinuante, verdadeira. O peixe ilha agita as barbatanas dorsais e empurra a escuridão para um lugar desabitado onde não queremos entrar.













A segunda é um golfinho de quatro caudas que produz um som inaudível para os peixes, mas percetível para a maioria dos homens-lua. Estes aprendem a linguagem das notas musicais, das pausas, dos acordes, das tonalidades dominantes, o preto e o branco das teclas. As cordas horizontalizam-se ou não. Lado a lado uma ilhota mais pequena, habitada pelos espíritos da música que pacificam as dúvidas, as interrogações e aquilo que não podemos dominar.
A ilha baleia é sólida e simultâneamente ágil, navega à velocidade do vento, mergulha nos recifes de coral, regressa à superfície envolta em algas e estrelas, rodopia no ar, espaneja água e energia para logo se aquietar naquele canto que se diz de baleia, ritmado e quase humano. Viaja com ela o peixe-espada que a defende e protege e a faz rir quando ela tem medo da noite e do peixe-martelo.
As palavras são como as pessoas, têm faces. Umas para significarem aquilo que queremos dizer, outras porque têm significado para nós. Uma noite encontram-se.
E são muitas vozes e um piano e um silêncio de ilhas.






II - do que perdemos e encontramos

Da torre incompleta avistam-se três ilhas que correspondem a outros tantos reinos. A mais longínqua tem cem metros quadrados e é habitada por malévolos macacos verdes de dentes amarelos. Alimentam-se das folhas verdes de um arbusto e de lagartas viscosas e igualmente amarelas, mas os ratos são o seu alimento preferido, gostando deles grelhados e tostados. Pegam-lhes pela cauda, mastigam-lhes a carne e cospem os ossos frágeis. O seu rei é o macaco Máximo conhecido pela sua ferocidade, implacável para com os da sua espécie, vingativo para com as outras. Os marinheiros temem aportar àquele reino e só os mais corajosos e curiosos o fazem.
A segunda ilha tem metade da superfície da primeira e é o reino do rapaz Azul. Os seus habitantes são crianças de olhos e cabelos azuis e ninguém sabe como foram lá parar. É a mais bela das ilhas, frondosas as árvores, nascentes de água doce que brotam das rochas e uma praia imensa de areia fina e águas transparentes. Os meninos azuis constroem casas de madeira e brincam o dia inteiro. Às vezes cansam-se e ficam com as saudades de crescer a sombrear os olhos. Então o rapaz Azul deixa-os partir num barco à vela e navegadas duas milhas os olhos regressam à sua cor original e os cabelos pintam-se de castanho, louro ou preto. Quando chegam a terra os braços e as pernas são já grandes, mas guardam para sempre uma marca azul no lóbulo da orelha esquerda.
A terceira ilha é a mais pequena com apenas quinze metros quadrados e talvez nem seja uma ilha mas um enorme rochedo. Possui dois faróis, um em cada uma das pontas e um faroleiro. A sua rainha é a gaivota Guincho, mais pequena que as outras espécies mas muito mais inteligente e todas as gaivotas guincham ao entardecer. O faroleiro acende os dois fachos de luz branca porque a norte são traiçoeiros os baixios e a sul sopra o canto das sereias.

Para o homem que contava e para o rato que ouvia, eram tão visíveis e palpáveis estas ilhas, como as pedras, os livros ou os armários da cozinha. Por isso também não se espantaram quando o rato falou. O homem, porque acreditava em prodígios, o rato porque os aceitava como naturais.  Foi nessa altura que lhe deu o nome de Rato, ao rato.
A chuva tinha regressado, temporã, forte e fria. Estragava os rebentos de cerejeira, aguava os morangos, comprometia os pêssegos. Da terra alagada chegava um cheiro bom e as folhas das oliveiras conquistavam o tom verde seco das suas origens.
Os dias alargavam-se em maio e uma hora após o pôr-do-sol o homem sentava-se nos degraus do pátio a ganhar fôlego para continuar o seu trabalho. O rato, invisível, deambulava por ali. E repentinamente, vinda do alto, deslizou sobre as suas cabeças uma enorme e silenciosa massa branca. O rato gritou, Máximo! Não é possível, pensou o homem, o macaco é verde, mas de facto não viu nada. E foi o nada que lhe respondeu. Mas por muito pequeno e diferente que seja aquele que nos faz companhia e reconhece o som da nossa voz, não nos daremos tréguas na sua busca até o encontrarmos e entendermos porque de nós foi roubado.
E procurou-o na cisterna abobadada, nos túneis, nos quartos, nas salas, nos canos da água, nos buracos dos rodapés. A senhora da consolação seguiu-o e soltou o cão e disse, busca! e deu-lhe a cheirar um pelo do bigode do rato Rato. Mas o cão habituado apenas a mimos e rezas perdeu-se pelos corredores a cheirar os espíritos da casa. Por fim o homem lembrou-se da torre incompleta de onde se avistavam as ilhas e iniciou a subida pela longa escada em caracol. Eram duzentos os degraus e descansou a cada cinquenta e chegado ao cimo respirou. A penumbra fez com que piscasse os olhos e apurasse os ouvidos e avançou com todo o cuidado pela plataforma. E viu-a, pousada numa das traves. Grande, a face branca dir-se-ia um coração, os olhos fixos, o corpo mesclado de castanho alaranjado e ele calado o coração aos pulos. Ela roda a cabeça num impensável grau e abre as asas enormes de uma brancura imaculada e sai pelas janelas, um voo silencioso, noturno, solitário. O homem sente-se estontear perante aquela coruja, nem ave nem anjo. E à sua direita numa abertura das pedras descobre um ninho com cinco pequenos pássaros e o rato no meio deles, vivo e esperto a contar e as pequenas corujas a ouvir,  

A segunda ilha tem metade da superfície da primeira e é o reino do rapaz Azul.

Depois o tempo parou apenas um segundo, indeciso o voo na continuidade da vida.










O homem, o rato, a senhora da consolação e o cão, encontraram uma linha suspensa que não está ainda escrita. É como as sombras escondidas da lua irremediavelmente cheia, é como aquilo que perdemos e não sabemos aceitar. É o perigeu de todos os seres diferentes que tomam a nossa voz.
E ficaram horas a contemplar o voo da coruja. Por fim a senhora da consolação deu uma tigela de leite ao rato, guardou-o no bolso da saia e o homem disse olhando a ave,

Chamo-lhe Ângela, o nome da minha mãe.