seria a flor da laranjeira que cobria a noite daquele odor adocicado o desejo ingénuo de bater com força uma porta qualquer da vida
um vaso quebrado na janela do primeiro andar o tejo ao fundo é este rio manso as gaivotas não sei onde dormem talvez na areia das praias dos pescadores
sargaço

Não sei porque escrevo assim, disse. E abriu as portadas da varanda. Na gaiola vazia a memória do canário que não cantava de tristeza e um dia voou e agora dá-lhe uma paz sabê-lo esvoaçar de pássaro.
O senhor do segundo direito tosse, espalha folhas de jornal sobre as telhas para que os gatos vadios saibam que aquele território é o seu. Dele, homem. Mais tarde irão com o vento que se levanta nos telhados de Lisboa, as letras das palavras escritas misturadas com as más notícias e cai o tê maiúsculo num banco da avenida, o zê escorrega pelo focinho de um cão. Os jornais são companheiros dos velhos e bronquites crónicas como o medo.
Os cacilheiros cheiravam a alcatrão e a outra banda era do outro lado, esse é um sentimento de segurança que não sentirão mais graças a deus.
As margens fixas fazem estalar as têmporas, é apenas um conceito, nem tem que ser demonstrado, basta acreditar nele e os olhos mudam.

espalham-se pelas ruas latas de cerveja urina e vomitado o grito escuro quem disse que é preciso ir longe para agarrar duas mãos
desdobra-se um nó na garganta antes do sol nascer cegos os anjos da guarda
minha companhia

Não sei porque é branca e azul a luz da minha cidade, disse. E viu no rio os golfinhos do tejo outra vez, enquanto um barco se afastava do cais. 
No vaso quebrado cresceram bem-me-queres de olhos de sol e bicos de lacre e agora dá-lhe uma paz saber-se escrever assim.



 





conto segundo da minha cidade antes da páscoa





contos da cidade quando as aves se fazem ao mar







Nesse dia posou uma ave no mastro mais alto da embarcação, aquele que suportava a vela branca, a do meio, entre a vela cor de salmão e a da cor da areia fina.
Trazia no bico um ramo tenro impercetíveis os rebentos e as folhas delicadas.
E ficou ali calada enquanto as marés obedeceram às luas e os peixes trouxeram espadas, escamas brilhantes, lisas, prateadas e as gaivotas guincharam a ousadia da outra, frágil, leve, habitante da terra desconhecedora de correntes quentes ou frias.
O homem que amava o barco como se fosse a sua casa, a cama, a janela e a mesa da cozinha, olhou a ave, a nuca colada aos ombros, a mão direita sobre os olhos porque o sol ardia e estendeu o braço esquerdo e disse-lhe, se tens sede desce até aqui, se é fome o que sentes, reparto contigo os grãos que guardo no porão, centeio, milho, trigo-sarraceno. Ele dizia sempre, trigo- sarraceno, gostava da palavra, da ideia da palavra. Sabia que não era um grão mas a semente de um fruto, triangular, como o sinal da cruz.
E continuou, os olhos postos na ave, os olhos da ave postos no homem,

eu às vezes também fico assim suspenso como tu, com um objetivo preciso e sem que os outros entendam qual é ou imaginem sequer o que possa ser. Há muita forma de estar calado tendo tanto para dizer e eu tenho mais anos do que este meu barco e no instante em que percebi que a velhice é um sobejo da vida e reservada está apenas uma cadeira, sempre a mesma, para quem é velho e triste, fiz-me ao largo e jamais me arrependi.

Porque encantatória é a voz de um homem bom, a ave cedeu. Deixou o mastro, completou três voltas à roda do barco e o homem rodou com ela e disse, princesa! Ela cerrou as patas e as unhas e equilibrou-se no seu ombro, o ramo bem preso no bico anilado.
Ele lançou uma rede e pescou alguns peixes, dividiu-os entre si e as gaivotas enciumadas. Varreu e lavou o convés, estudou os mapas e as rotas e por fim descansou. No horizonte, vénus a estrela da manhã que é também a estrela da tarde e a ave ao ombro.
Então ela largou o ramo tenro impercetíveis os rebentos e as folhas delicadas. Ele colocou-o num copo com água fresca e ambas beberam, a ave e a planta e esta cobriu-se de pequenas flores brancas.
O homem sentiu saudades do cheiro dos pátios de uma cidade e disse,  

amanhã procuro-te terra firme nesse lugar do sul onde dormem as princesas, mouras, sarracenas, presos os cabelos com ramos tenros e flores de ameixoeira.  

Junto da quilha seguiam agora dois golfinhos e um cardume de peixes lua e anilado o bico da ave e esta piou.









ramo quebrado com ausência de pássaro óleo de mb







Era uma vez um homem que tinha as mãos enormes e desajeitadas. Quando levantava o dedo indicador da mão direita, caía um ninho de pardais dos telhados e se acenava a alguém em sinal de alegria ou de boas vindas, o vento levantava-se de repente e provocava uma tempestade no alto das serranias.
Se esticasse o pescoço e depois os braços, conseguia afastar as nuvens negras que pairavam sobre a sua aldeia e se por um acaso batesse as palmas, os alarmes dos carros, das lojas e dos bancos desatavam a apitar.
Nas festas pediam-lhe que prendesse balões nos pontos mais altos, que tocasse o sino da igreja, mas estava proibido de limpar a loiça e de afagar o cão.
O seu nome era João grande. E às vezes entristecia-se de ser assim.
Tinha noites em que os sonhos maus invadiam-lhe o quarto, nas paredes coladas de osgas e lacraus e a lua era uma ausência negra como os lobos negros que se escondiam debaixo da sua cama. Não entendia a estranheza daquele medo que lhe roubava o ar dentro do peito e nas sombras projetadas apenas via as suas mãos gigantes e agigantando-se deixavam-no e ganhavam vida. Ele permanecia, gelado, paralisado, os braços a esvaírem-se em sangue à espera da madrugada e dos primeiros sinais de luz.
A manhã rompia e restituía-lhe as mãos, mas era João cansado com um traço escuro desenhado nas maçãs do rosto e aquele desejo forte de querer ser diferente.
Foi então que ela chegou. Alugou uma casa branca na segunda rua paralela ao mar. Abriu as janelas e pôs a música a tocar, espalhou os cabelos cor de fogo pelas esquinas, calçou as sapatilhas pretas, enrolou as fitas de seda no tornozelo e disse João, tu que és grande, ajuda-me a colocar estes cartazes! e podia ler-se

Ensina-se a dançar.

Ele ajudou. E ela pediu para ele escrever em letras pequeninas, local: casa branca na segunda rua paralela ao mar. O pagamento aceita-se em víveres, flores, tempo e só em caso de força maior, em dinheiro.
João tremeu e as letras pequeninas esborrataram-se em tinta de água e ela disse, não faz mal, as tuas mãos são maiores do que tu, mas podes mudar a tua forma de as olhar.
João imaginou cada um dos seus dedos com uma sapatilha preta e num palco de marionetas as pessoas a aclamar e riu-se e o traço escuro sob os seus olhos aclarou e ele disse, inscreva-me na sua aula, não sei como lhe vou pagar mas quero aprender a dançar.
Na sala retangular as crianças dos seis aos doze anos deram as mãos e fizeram uma roda e o número tinha de ser par e par fez João grande com a rapariga das sapatilhas pretas e ela dizia, as vossas mãos são asas de pássaros, pétalas de flor, velas de barcos enfunadas pelos ventos. Eles deixavam-se levar, gravidade zero, o éter a sua natureza. E na aceitação da diferença João grande mudava, desapercebidamente ajeitado e feliz. Os sonhos bons invadiam-lhe o quarto nas paredes coladas de danças e compassos e debaixo da cama crescia a hortelã.
E quando pela primeira vez fez uma festa a um cão sem ele ganir, João soube que era chegada a hora. Com as suas mãos enormes e sensíveis começou a construir um barco, leve, etéreo, velas enfunadas pelos ventos.
Nessa noite João grande pegou na tinta de água e em letras pequeninas escreveu em todos os cartazes,

O pagamento aceita-se em víveres, flores, tempo e em caso de felicidade maior, em barcos.










Dei-lhe uma capa cor da noite e aprisionei-o no princípio do mundo. Ele não protestou, aluado e feliz. Chamei-lhe dançarino da lua, ele não sabia como me chamar.
Às vezes pensava,

que asas pequenas as minhas para este corpo gordo, que improbabilidade de equilíbrio estável.

Era aí que ouvia ao longe os outros patos ou gansos ou cisnes e inspirava o odor dos pinheiros e das plantas aquáticas e mais a norte, o gelo eterno dos fiordes.
Suspendia então a quilha e o vácuo e sentia uma dor na sétima fileira de penas mais escuras sob o peito.

Que forma tem o meu coração? – grasnava a ave.

Não tinha. Vazio o sangue, as artérias, as cartilagens, os músculos, imperfeita a anatomia.
E eu com um pincel de cerdas finas apaguei a lua, desenhei-lhe um voo descendente, depois um voo ascendente, estabilizei-lhe a cauda e disse, vai! e ele foi, o pato selvagem das histórias.

Na circularidade do tempo virá um outro ser em seu lugar.

dançarino da lua óleo de mb