cadência


tinha um guarda-joias
joias não tinha e guardava nada porque de tudo prescindia

pintava os lábios de vermelho vivo cor de sangue, olhava-se num espelho desfocado que lhe restituía a seda dos cabelos, o brilho dos olhos cor de avelã, a pele de veludo rosa e a felicidade aprisionada em um outro país

distante

era o último dos dias talvez aquele que nem existir existia, caso a vida fosse outra que não esta
das calendas dos idos ou das nonas, de que serve um calendário se a passagem é tão imaginada
num momento somos tudo no seguinte quase nada  

dançava noite dentro e as pessoas diziam tão louca que pena de corvo a tocou

ternário o compasso e o redondo desenhado na imprecisão sonora das horas
a festa faz-se porque sim

sejam as estrelas luzeiros e os sons das sombras asas de noctívagos pássaros

guarda joias
é o lugar cativo dentro do nosso peito refeito e ainda batente o coração

pena de corvo de mb


Feliz Ano Novo!





Vestiu o casaco, calçou as botas e com um assobio chamou o cão. Era sempre assim na noite mais longa do ano, por tradição, vontade ou chamamento. O sol no ponto mais afastado do equador e uma paragem solsticial no tempo,  a composição prévia de uma festa.
Apanhou um pedaço de madeira do chão, atirou-o para longe, o cão lança-se numa corrida louca, a ladrar, irresistível o jogo da apanhada, sendo o cão o caçador, o pau a presa caçada. Ele o lançador, atirando à esquerda fingindo preferir a direita. Uma e outra vez, até dizer: chega Faísca! o cão obedece, permanece à sua frente a farejar tocas de coelhos, a assustar bichos pequenos escondidos nas trevas.
Aprendeu a fazer este caminho com o pai e lembra-se de resmungar imenso, de sair contrariado desejando que o deixassem em paz, no quente da casa a jogar com os irmãos ou deitados no tapete em frente da lareira a pintar cadernos com os lápis de cor. Quantos anos foram e ele a dizer não, deixa-me, quero lá saber que amanhã a noite seja já um segundo mais curta, que importância tem isso e o cheiro da humidade, das camadas de folhas mortas no pântano, da decomposição da matéria orgânica.
Mas era o mais novo e ia, como os outros já tinham ido. O caminho entre a casa e o monte das corças onde nem uma corça alguém vira, mas chamava-se assim e sussurravam-se histórias de magias e encantamentos. O mal existe, filho, mas o bem vem sempre à tona. Sim, pai.
Agora mais entusiasmado tagarelava à roda do pai, a lua cheia, branqueadas as árvores, o som da água e do rio e as casas. Em cada uma delas o pai parava e os vizinhos saíam e fumavam um cigarro e ele e os outros rapazes batiam os pés no chão para aquecer e esfregavam o nariz para sentir que ainda o tinham. Provocavam-se mutuamente pela calada, rasteiras, pontapés e os homens a rir: parecem potros rebeldes, façam alguma coisa de jeito. E eles faziam.
Às vezes acendiam uma fogueira e as mulheres traziam malgas de canja de galinha quente e bola de carne acabada de cozer e nesse instante ele esquecia a lareira, os irmãos, o jogo e o caderno e sentia-se grande no meio dos homens a partilhar a noite maior, a ouvir falar das sementes e das árvores de fruto, dos animais das fragas e do queijo de cabra. Alguém dedilhava uma concertina e o inverno era um canto nascido na madrugada.
Um ano houve em que regressavam devagar, a mão do pai a guiá-lo entre o sono e o cansaço e numa voz grave, baixa, com medo de partir o silêncio, o pai disse: olha, um veado! Magnífico, forte, as hastes brilhantes ao luar, a olhá-los um segundo, um segundo apenas e depois um salto, ágil, escuro adentro. Ficaram os dois parados, a mão dele a apertar a do pai, uma felicidade imensa a pairar.
Na manhã seguinte deixaram-no dormir mais um pouco e ele escondido no meio das mantas, sem vontade de falar, porque de facto não havia nada para contar, só aquele instante quase irreal em que se é olhado e se olha e tudo se suspende como um fio de luar.
Nunca disse ao pai o quanto gostava daquelas noites e depois cresceram todos, ele e os irmãos e cada um para seu lado a fazer pela vida umas vezes linda, outras mais triste e não se acreditaria se alguém dissesse que os momentos bons regressam quando menos os esperamos e não desesperar, é dar uma oportunidade a cada espera.
O cão lambe-lhe a mão, mordisca-a a desafiá-lo, tem frio, quer regressar a casa. Ele também. Faltam três dias para a noite de Natal.

segunda parte . aqui .

fotografias de Fernando Pedrosa



FESTAS FELIZES!




depois

chegou um anjo estranho no desequilíbrio das asas
com uma promessa que nem ele entendia, não fora ela tão humilde no seu vestido de linho e a noite um imenso céu estrelado

falou-lhe de uma terra para lá da sua em que os homens são bem aventurados, doces os frutos todos permitidos no que a negação das coisas tem sempre de errado

que deus é esse, perguntou num fio de voz límpido como as gotas de orvalho na manhã fria

Gabriel disse, não sei, se acaso fora eu soubesse, não estaria aqui junto de ti na dúvida de quem serei eu e tu também, na promessa de um outro ser que nos deslumbra

seja o que for, respondeu ela e na incerteza das perguntas que fazemos, falar de amor é simplesmente inútil como saber do vento porque sopra ou das baleias no seu canto de morte na areia das praias

e como se tardassem a neve e os dias, ela disse, vamos e eles foram

pelo caminho acenderam luzes nas esquinas e compraram um aviãozinho de lata para que não se sentisse só, o menino


fotos de mb 





vinte e cinco gramas


Quando nos habituamos às pessoas ou às coisas ficamos um pouco cegos às suas mudanças. Por exemplo estas árvores. Têm vindo a perder as folhas lentamente, a arrastar a modorra das quedas, uma aqui, outra ali, mais despidas, o ar a ocupar o vazio castanho encarniçado e de repente num dia sem nada de especial, verificamos que caíram dez folhas no mesmo instante. E logo mais dez e outras dez ou talvez vinte. O mais espantoso é que as ouvimos cair, um arranhar de unha no papel, um som que é e deixa imediatamente de o ser.
O mesmo acontece quando olho para ti, pareces-me tão pequeno e até as jardineiras são as mesmas que vestias ontem, mas há qualquer coisa no teu olhar que reflecte de uma outra forma a luz desta vela que acendemos e parece-me que os teus bolsos não são capazes de conter tudo o que queres guardar neles.
O rapaz ouvia distraidamente a mãe enquanto recortava estrelas de papel metalizado com uma tesoura de bicos e trincava pedacinhos de noz que ela ia quebrando para uma tigela. De vez em quando metia uma no bolso das jardineiras e pensava que já tinha nele tudo o que gostaria de ter.
Depois num daqueles momentos raros em que o tempo parece desfragmentar-se e tal como um disco rígido reagrupasse a informação que até ali permanecia separada, o rapaz levantou-se, largou a tesoura, as estrelas e a tigela das nozes e saiu levando o rato dentro do bolso.
Lá fora, Lulu deu um ronco de alegria. Cá dentro permaneceu a mãe e a imagem que ela tinha do rapaz.

Rolando era o mais esperto dos ratos do campo. Cor de terra, bigodes cinzentos, olhos vivaços, focinho alongado, pêlo desalinhado. Dizem que os ratos do campo vivem apenas um ano, mas como o tempo da infância é inversamente proporcional ao de todas as outras criaturas, a eternidade era para o rapaz e o rato o infinito absoluto.
Aquela sempre fora a sua casa. Perto dos homens e da água, farta em sementes e frutos. O rato gostava do rapaz e compreendia a linguagem humana e sobretudo adorava viajar no bolso das jardineiras, os olhos e o focinho a espreitarem, na emoção do caminho para a escola ou nas idas ao cinema em que as pipocas eram o prato principal. Quando se fartava desta forma de estar, desaparecia por muitos dias, feliz no meio das ervas e das árvores, escondido nas passagens secretas do poço entre os seus iguais a aprender as defesas e os ataques. As suas unhas eram farpas no corpo dos inimigos.
Quando Lulu chegara, Rolando tinha ficado assustado, ela era barulhenta, deitava água por todos os lados, roncava, pisava-lhe a cauda e quando lhe fazia uma festa com a pata dianteira não conseguia controlar tamanho e força e lançava-o a dois metros de distância. Mas ele era ágil na corrida, a saltar, a trepar às árvores e a nadar entendiam-se, igualavam-se na loucura dos mergulhos, ela nadadora de fundo, ele a driblar corridas à superfície. Rolando gostava do crepúsculo e da noite escura. Lulu gostava de tudo. Os olhos de um possuíam o brilho dos olhos do outro. O rapaz gostava dos dois.

No entanto e à medida que os dias ficavam mais curtos e os ramos das árvores mais longos, Lulu sentia saudades da imensidão do oceano, dos gritos das outras focas, dos cardumes de peixes a cortar as águas, do azul do Atlântico norte. A ferida sarara e o chamamento que ouvia era superior a todos os outros ruídos e aos sons que a tinham acompanhado nesses dias.
O rapaz dizia, um dia, um dia deixo-te ir. Mas a voz tremia-lhe e sentia um pico na palma da mão.
Finalmente chegou. Um cheiro a frio e a terra gelada, a neve nos montes, a pinhas queimadas nas lareiras, os pinhões a estalar. O rapaz segredou qualquer coisa ao ouvido do rato e pousou-o no chão, deu um longo abraço à foca até o pescoço lhe ficar a doer, acenou-lhe um adeus. Lulu bateu as palmas três vezes.
Rolando e a foca entraram no poço, o rato à frente na ligeireza da descida, Lulu aos tropeções. Junto das passagens secretas, aquelas que ignoramos o destino ou origem, Rolando escolheu decididamente a que tinha um enorme glaciar esculpido na pedra do arco e nadaram, o rato de focinho de fora, Lulu com uma pressa que a fazia leve e veloz.
E quando o nível das águas já não o permitiu mais sob pena de o afogar, Rolando parou, Lulu virou a cabeça e os seus olhos enormes lançaram-lhe despedidas.
Rolando deu meia volta e iniciou o caminho de regresso à sua casa, perto dos homens, vinte e cinco gramas de peso e um coração a faiscar.
rolando antes de o natal chegar desenho de mb

Rolando, dez gramas de peso