Sentimos um arrefecimento do lado de terra. O outro lado é de mar. Como um rio ou uma linha férrea que separa um mesmo lugar, este de, é uma preposição singular. Deveria ser uma contracção, um aperto.
Existe uma diferença acentuada no crescimento das plantas, deixaram de o fazer de dia, entardece, o sol põe-se, que é uma forma inexacta de pôr seja o que for e é na escuridão da noite que os caules se desenvolvem, branqueados de lua, numa carência de cor.
As mães explicam aos filhos o caminho da transformação do grão em farinha, a magia da levedura na estranheza que possui aquilo que azeda e que dá forma a uma outra matéria. Orgânica ou inorgânica, determinante na metamorfose.
Fermenta também a ideia que pode mudar tudo, que excita o espírito, que o faz subir cada degrau como se de um miradouro se tratasse e douro é o rio do vinho generoso, doce é a videira num patamar de folhas vermelhas e quem nunca viu estes socalcos pode crer que não viu nada.
E o sal. Sem ele o sabor é um tacteio vago, um rosto sem sorriso, um olhar sem sombreado, uma ausência de graça. As salinas são mais para o sul da casa que habitamos e os pássaros têm as pernas altas, alfaiates, flamingos, os guinchos, as gaivotas de asa escura.
Sal, pão e vinho. Não sabemos o exacto significado de um território possuidor desta linha recta imaginária que atravessa uma planta, uma rua, uma roda, uma figura geométrica. Deste eixo. Despojados dele não somos nada, como um homem a quem roubam a dignidade do trabalho e a alegria de celebrar o pão nosso de cada dia e de cada noite em que teimosamente um traço verde nos fermenta e desinquieta.
Não há gestos incertos ou inúteis e será preciso recordar como se descascam as laranjas com uma faca fininha e afiada, sempre a rodar sem quebrar e em cada cálice laranja colocar uma vela de sebo e espalhá-las a todas pela casa, pelos parapeitos das janelas, pelas varandas e à porta da cozinha. Perdido no tempo era este um sinal do advento e não era preciso mais nada.
Só quem nos reza sabe que a água é da chuva e o caule verde um desaperto, uma preposição de acreditar.
espigas desenho a lápis branco distraído de mb