A inclinação dos raios solares e o facto de atravessarmos um tempo imperfeito, obriga a que a um dos nossos dias seja acrescentada mais uma hora.
Como a um traço se acrescenta uma linha ou uma bainha de rendas e bordados ou qualquer coisa mais simples ainda, como o cheiro das primeiras castanhas assadas a dar uma volta completa nas esquinas.
E se de entre os muitos lápis escolhermos apenas um, suave, macio, delicado e ignorando as rasteiras da memória nos abalançarmos numa viagem imaginária entre as árvores no outono, veremos que o resultado não é nosso mas de um eleito que nos encheu a cabeça de representações escolhidas.
Numa superfície plana sobrepomos as tintas, seleccionamos tons na deriva criativa das camadas, nos jogos de sombras e luz, nas ilusões de óptica. Ganhamos perspectiva. Como na escrita. Que se deseja despojada e serena para que a camada superior seja eu, a intermédia seja eu e os que me escreveram sem saberem de mim e finalmente a inferior, eu e aqueles que escrevo sabendo de mim.
Desconstruído o meu próprio paradigma dominante título-pintura-conto, o céu alaranja-se e anoitece.
E para finalizar o quadro entre as árvores um pássaro canta na hora acrescentada.



peço desculpa Rembrandt mas encheste-me a cabeça de traços
desenho a pastel fino de mb

ou "Cottage Among Trees" revisitado





magoados


Não sou um corredor de fundo. Sou rápido, muito rápido, de aqui, até ali. De meia centena de árvores a uma outra árvore. Ignoro quantas árvores existem na terra e desta, sei o cheiro ao anoitecer. A hora em que as fêmeas caçam.
Se a organização resultar e os pequenos leões não as perturbarem com choros e birras, eu não precisarei de mexer um pêlo da minha juba e a carne será fresca e farta. Quanto mais escura a juba, mais dominador eu sou.
A minha felinagem obriga-me a defender o território, a protegê-lo dos intrusos e no instante em que me sinto a mais, abandono o bando e formo outro e outro e ainda outro.
Quando as fêmeas são em minoria e a carne escasseia, caçamos em grupo, agimos com disciplina e as estratégias de surpresa e de ataque são repartidas. O lado perverso é que a quantidade de caça tem de crescer relativamente ao número de indivíduos. Isolado, caço para mim. Em grupo, protejo e sou protegido mas devo contentar-me com menos.
Não cuido das minhas crias no sentido humano da palavra, isso é tarefa das mães, por isso as histórias que inventam sobre mim são farsas para adormecer os filhos dos homens.
Eu sou o mais alto dos felinos e o meu peso é uma desvantagem, canso-me, a energia abandona-me. Tenho a altivez dos antigos reis, mas se a luta é desigual, não nos matamos uns aos outros, um de nós afasta-se para sempre.

- E esta ferida aberta no peito? – perguntou o homem – vais-me dizer que não foi uma luta? E já agora acrescenta que és um falador nato, ainda não te calaste.
O leão deu uma gargalhada e mudando de posição esticou as patas traseiras e mergulhou-as na água. O homem imitou-o e tirando os sapatos e as meias meteu por suas vez os pés no mar. Uma estreita língua de lua brilhava na escuridão da noite, as rochas eram tartarugas sonâmbulas e quietas.
- Balsâmica – disse o leão – esta fase da lua.

Eu sou um corredor de fundo. Percorro longas distâncias de uma árvore a muitas árvores na solidão dos dias. Não sou rápido, sou paciente, aquieto-me para me compreender, espero, insisto. Tenho a timidez do tempo que me desenha o rosto e a resistência de uma muralha de pedra. Marco o meu território e é a custo que entendo que o grupo que me protege é aquele onde me sinto protegido.
Quanto mais egoísta mais dominante sou. Escasseia o alimento e a água potável e eis-me fera a atacar os do meu bando. Faço emboscadas, caço, firo, torturo, mato. Descontento-me, preocupo-me, deprimo-me, exijo, tremo, peço perdão, castigo-me, choro-me, aceito-me.
Cuido dos meus filhos no sentido animal da palavra, morro para lhes dar a vida e as histórias que contam sobre mim são fábulas para acordar os lobos.
Amo o cheiro da terra molhada e as minhas lágrimas são de sal.

- Inquieto? - perguntou o leão.
- Não tenho dormido, a pensar – sussurrou o homem
- Eu durmo, muito. Não penso, ajo – disse o leão e gemeu um pouco, a pata dianteira a tocar a ferida.
O coração do homem disparou, pegou nos sapatos e nas meias e pousando a mão na cabeça do leão indicou-lhe o caminho para casa. Lavou-lhe e coseu-lhe a ferida do peito, penteou-lhe a juba, acertou-lhe os pêlos do nariz. Os olhos do leão brilharam, o coração do homem batia mais devagar.
Na lua balsâmica que é aquela que não se vê no céu, lugar infinito entre o quarto minguante e a lua nova, adormeceram os dois. O homem e o leão.


em tempo de lobos coração de leão



panthera leo desenho a pastel de mb





infinitamente grande


Pode ser redonda, quadrada, oval, rectangular, hexagonal, octogonal, triangular, ter bancos de pedra, árvores, pássaros, um lago, uma estátua. Não interessa a dimensão mas o seu centro. E a inclinação da luz às oito horas de uma manhã. Por isso se diz, às oito em ponto da manhã. O momento, o lugar exacto em que convergem o branco da cidade, o sol, o desalinhado dos cabelos ruivos, o calcário e o basalto.
A flauta é Hohner, soprano e o estojo verde balança na mão direita. O compasso binário, as notas serão apenas duas, e, o canto mais simples das aves.
Complicado é o tempo em que se discute o leite achocolatado e as latas de salsichas são consideradas um luxo. Cachorro é um cão pequenino, podemos ter um? os olhos a brilhar de alta fidelidade, os latidos de festa quando chegamos a casa, a cauda a abanar como um espanador que é aquilo que afasta a dor.
Familiar é o que sabemos semelhante e nasceu connosco e colocamos o pé direito à frente do esquerdo como o ouvido do mesmo lado, virado o som das gaivotas e do rio, azul é o céu desta cidade branca e o saco da mãe cosido de pedacinhos de cor. A pasta às costas é anterior à invenção das rodas e do desejo estranho de fingir que se viaja para chegar à escola, exactamente no mesmo quarteirão.
São muitos os andares desabitados na certeza da existência das mansardas, dos telhados, dos sinos das igrejas, mas enfrentamos a incerteza dos outros que enfeitamos, transformamos, pintamos, contrariando o vazio que nos habita os velhos, os mendigos nas escadas, as mulheres que falam sozinhas nas esquinas, o senhor da mercearia que sabe escolher as laranjas de sumo adocicadas.
A camisola da mãe é preta, a do rapaz, da cor dos melros. E se a mão esquerda se fecha na mão direita é apenas para segurar o dia, obrigá-lo a construir segredos, a fazê-lo crer que o sol é feito de calções e de agasalhos de algodão, a dar os passos que damos, nas praças, nos largos, nas calçadas, em busca do centro de todas as linhas.
E não se perguntam para que serve um momento feliz. A mãe e o rapaz.




eu quero uma cidade de basalto e de calcário desalinhado o dia



óleo s/tela de mb 

pintura à vista  daqui






reconhecimento



Procurou-o debaixo das pedras, nos poços profundos, no redondo dos buracos de luz. Na estação quente e seca, a da sede das plantas e da terra, dos animais vertebrados, dos rastejantes, cantantes, dos outros sempre calados.
Perguntou por ele nas paragens de autocarro, riram-se os guarda freios, os bilheteiros e as mulheres desapiedadas.
Atravessou sete vezes o Tejo, os olhos bem abertos na direcção do estuário, soltaram-se em grito as gaivotas, asas abertas a cortar o ar, lutaram por um pedaço de pão duro e os cacilheiros apitaram para avisar qualquer coisa, uma alegria contida num frasco, a rolha, uma demanda, um mapa quase desfeito já sem norte e o vento amainou as tainhas que brilhavam ao sol.
Depois atravessou uma última vez, porque se é impar, como é que voltaria, para sempre perdido do lado de lá, desconhecido em areias e praias, estranhos são os moinhos de maré.
Foi enchendo os bolsos de grilos para não se esquecer do canto das ervas altas em agosto, nos canaviais a água dos rios corria e os remoinhos eram armadilhas de meninos teimosos, a pesca à linha, o charco das rãs.
Não se intimidava quando o interpelavam, o que buscas, mais valia não buscasses e continuava sempre mais longe, o regresso mais difícil.
Imaginou-o na época das chuvas quando a monção arrasta os seres mais frágeis, deslocando-os, despojando-os de pertences, arranhando pele e ossos, fertilizando a terra e o arroz crescia e era grão. E os animais invertebrados, os pássaros exóticos, os grandes mamíferos, mas no seu seio não o encontrou.
Começou então a sentir-se triste, a pensar que as luzes nas calçadas e nos elevadores antigos, que espreitam as cidades no que têm de ensimesmado e oculto era ténue demais e que não valeria a pena continuar assim.
Revirou os bolsos do avesso, escondeu os grilos nas folhas douradas e disse-lhes água vai e ele foi. Quando estava quase a perder esta esperança que nos faz subir às árvores mais altas e desejar as ilhas onde a bruma e a névoa permanecem, o cheiro da chuva é a própria chuva e a noite cai.
A dois metros do solo, nos ramos de uma árvore, cinco centímetros de beleza pura, oitenta e sete anos de invisibilidade. Os membros compridos e finos, a pele enrugada pintada das cores do arco-íris, a luz que atravessa as gotas de água.
Os olhos do homem encheram-se de reconhecimento e espanto, os olhos do sapo reflectiram-se, aguados ambos, humidificados pela natureza das coisas e pela própria natureza.
Ao todo descobriu três espécimes, um macho, uma fêmea e um jovem sapo. Fotografou-os, observou-os, registou-os. Ficou com eles o tempo necessário para entender as cores de um arco e a ligação secreta entre o divino, o animal e o humano. Este tempo, nunca é medido em dias, horas ou em anos e difere de ser para ser, alcançado apenas no limite entre a esperança e a alegria.
E secreto guardou o local exacto da sua descoberta.




ansonia latidisca o sapo arco íris do bornéu


a casa do sapo óleo sobre cartolina de mb