magoados


Não sou um corredor de fundo. Sou rápido, muito rápido, de aqui, até ali. De meia centena de árvores a uma outra árvore. Ignoro quantas árvores existem na terra e desta, sei o cheiro ao anoitecer. A hora em que as fêmeas caçam.
Se a organização resultar e os pequenos leões não as perturbarem com choros e birras, eu não precisarei de mexer um pêlo da minha juba e a carne será fresca e farta. Quanto mais escura a juba, mais dominador eu sou.
A minha felinagem obriga-me a defender o território, a protegê-lo dos intrusos e no instante em que me sinto a mais, abandono o bando e formo outro e outro e ainda outro.
Quando as fêmeas são em minoria e a carne escasseia, caçamos em grupo, agimos com disciplina e as estratégias de surpresa e de ataque são repartidas. O lado perverso é que a quantidade de caça tem de crescer relativamente ao número de indivíduos. Isolado, caço para mim. Em grupo, protejo e sou protegido mas devo contentar-me com menos.
Não cuido das minhas crias no sentido humano da palavra, isso é tarefa das mães, por isso as histórias que inventam sobre mim são farsas para adormecer os filhos dos homens.
Eu sou o mais alto dos felinos e o meu peso é uma desvantagem, canso-me, a energia abandona-me. Tenho a altivez dos antigos reis, mas se a luta é desigual, não nos matamos uns aos outros, um de nós afasta-se para sempre.

- E esta ferida aberta no peito? – perguntou o homem – vais-me dizer que não foi uma luta? E já agora acrescenta que és um falador nato, ainda não te calaste.
O leão deu uma gargalhada e mudando de posição esticou as patas traseiras e mergulhou-as na água. O homem imitou-o e tirando os sapatos e as meias meteu por suas vez os pés no mar. Uma estreita língua de lua brilhava na escuridão da noite, as rochas eram tartarugas sonâmbulas e quietas.
- Balsâmica – disse o leão – esta fase da lua.

Eu sou um corredor de fundo. Percorro longas distâncias de uma árvore a muitas árvores na solidão dos dias. Não sou rápido, sou paciente, aquieto-me para me compreender, espero, insisto. Tenho a timidez do tempo que me desenha o rosto e a resistência de uma muralha de pedra. Marco o meu território e é a custo que entendo que o grupo que me protege é aquele onde me sinto protegido.
Quanto mais egoísta mais dominante sou. Escasseia o alimento e a água potável e eis-me fera a atacar os do meu bando. Faço emboscadas, caço, firo, torturo, mato. Descontento-me, preocupo-me, deprimo-me, exijo, tremo, peço perdão, castigo-me, choro-me, aceito-me.
Cuido dos meus filhos no sentido animal da palavra, morro para lhes dar a vida e as histórias que contam sobre mim são fábulas para acordar os lobos.
Amo o cheiro da terra molhada e as minhas lágrimas são de sal.

- Inquieto? - perguntou o leão.
- Não tenho dormido, a pensar – sussurrou o homem
- Eu durmo, muito. Não penso, ajo – disse o leão e gemeu um pouco, a pata dianteira a tocar a ferida.
O coração do homem disparou, pegou nos sapatos e nas meias e pousando a mão na cabeça do leão indicou-lhe o caminho para casa. Lavou-lhe e coseu-lhe a ferida do peito, penteou-lhe a juba, acertou-lhe os pêlos do nariz. Os olhos do leão brilharam, o coração do homem batia mais devagar.
Na lua balsâmica que é aquela que não se vê no céu, lugar infinito entre o quarto minguante e a lua nova, adormeceram os dois. O homem e o leão.


em tempo de lobos coração de leão



panthera leo desenho a pastel de mb





infinitamente grande


Pode ser redonda, quadrada, oval, rectangular, hexagonal, octogonal, triangular, ter bancos de pedra, árvores, pássaros, um lago, uma estátua. Não interessa a dimensão mas o seu centro. E a inclinação da luz às oito horas de uma manhã. Por isso se diz, às oito em ponto da manhã. O momento, o lugar exacto em que convergem o branco da cidade, o sol, o desalinhado dos cabelos ruivos, o calcário e o basalto.
A flauta é Hohner, soprano e o estojo verde balança na mão direita. O compasso binário, as notas serão apenas duas, e, o canto mais simples das aves.
Complicado é o tempo em que se discute o leite achocolatado e as latas de salsichas são consideradas um luxo. Cachorro é um cão pequenino, podemos ter um? os olhos a brilhar de alta fidelidade, os latidos de festa quando chegamos a casa, a cauda a abanar como um espanador que é aquilo que afasta a dor.
Familiar é o que sabemos semelhante e nasceu connosco e colocamos o pé direito à frente do esquerdo como o ouvido do mesmo lado, virado o som das gaivotas e do rio, azul é o céu desta cidade branca e o saco da mãe cosido de pedacinhos de cor. A pasta às costas é anterior à invenção das rodas e do desejo estranho de fingir que se viaja para chegar à escola, exactamente no mesmo quarteirão.
São muitos os andares desabitados na certeza da existência das mansardas, dos telhados, dos sinos das igrejas, mas enfrentamos a incerteza dos outros que enfeitamos, transformamos, pintamos, contrariando o vazio que nos habita os velhos, os mendigos nas escadas, as mulheres que falam sozinhas nas esquinas, o senhor da mercearia que sabe escolher as laranjas de sumo adocicadas.
A camisola da mãe é preta, a do rapaz, da cor dos melros. E se a mão esquerda se fecha na mão direita é apenas para segurar o dia, obrigá-lo a construir segredos, a fazê-lo crer que o sol é feito de calções e de agasalhos de algodão, a dar os passos que damos, nas praças, nos largos, nas calçadas, em busca do centro de todas as linhas.
E não se perguntam para que serve um momento feliz. A mãe e o rapaz.




eu quero uma cidade de basalto e de calcário desalinhado o dia



óleo s/tela de mb 

pintura à vista  daqui






reconhecimento



Procurou-o debaixo das pedras, nos poços profundos, no redondo dos buracos de luz. Na estação quente e seca, a da sede das plantas e da terra, dos animais vertebrados, dos rastejantes, cantantes, dos outros sempre calados.
Perguntou por ele nas paragens de autocarro, riram-se os guarda freios, os bilheteiros e as mulheres desapiedadas.
Atravessou sete vezes o Tejo, os olhos bem abertos na direcção do estuário, soltaram-se em grito as gaivotas, asas abertas a cortar o ar, lutaram por um pedaço de pão duro e os cacilheiros apitaram para avisar qualquer coisa, uma alegria contida num frasco, a rolha, uma demanda, um mapa quase desfeito já sem norte e o vento amainou as tainhas que brilhavam ao sol.
Depois atravessou uma última vez, porque se é impar, como é que voltaria, para sempre perdido do lado de lá, desconhecido em areias e praias, estranhos são os moinhos de maré.
Foi enchendo os bolsos de grilos para não se esquecer do canto das ervas altas em agosto, nos canaviais a água dos rios corria e os remoinhos eram armadilhas de meninos teimosos, a pesca à linha, o charco das rãs.
Não se intimidava quando o interpelavam, o que buscas, mais valia não buscasses e continuava sempre mais longe, o regresso mais difícil.
Imaginou-o na época das chuvas quando a monção arrasta os seres mais frágeis, deslocando-os, despojando-os de pertences, arranhando pele e ossos, fertilizando a terra e o arroz crescia e era grão. E os animais invertebrados, os pássaros exóticos, os grandes mamíferos, mas no seu seio não o encontrou.
Começou então a sentir-se triste, a pensar que as luzes nas calçadas e nos elevadores antigos, que espreitam as cidades no que têm de ensimesmado e oculto era ténue demais e que não valeria a pena continuar assim.
Revirou os bolsos do avesso, escondeu os grilos nas folhas douradas e disse-lhes água vai e ele foi. Quando estava quase a perder esta esperança que nos faz subir às árvores mais altas e desejar as ilhas onde a bruma e a névoa permanecem, o cheiro da chuva é a própria chuva e a noite cai.
A dois metros do solo, nos ramos de uma árvore, cinco centímetros de beleza pura, oitenta e sete anos de invisibilidade. Os membros compridos e finos, a pele enrugada pintada das cores do arco-íris, a luz que atravessa as gotas de água.
Os olhos do homem encheram-se de reconhecimento e espanto, os olhos do sapo reflectiram-se, aguados ambos, humidificados pela natureza das coisas e pela própria natureza.
Ao todo descobriu três espécimes, um macho, uma fêmea e um jovem sapo. Fotografou-os, observou-os, registou-os. Ficou com eles o tempo necessário para entender as cores de um arco e a ligação secreta entre o divino, o animal e o humano. Este tempo, nunca é medido em dias, horas ou em anos e difere de ser para ser, alcançado apenas no limite entre a esperança e a alegria.
E secreto guardou o local exacto da sua descoberta.




ansonia latidisca o sapo arco íris do bornéu


a casa do sapo óleo sobre cartolina de mb






inevitavelmente falaremos


Inevitavelmente falaremos do alongar das noites, daquele espaço entre uma e a outra árvore do jardim onde, dizem, jaz uma rainha. Foi o que nos contaram e nós acreditámos, pois se raramente a verdade se comprova, há uma outra forma de entender as coisas e fazer a leitura dos sinais.
Ali naquele território atapetado, o sol apenas toca num reflexo breve sempre à mesma hora em cada dia, todos os dias do ano. A razão diz-nos que isto é impossível e desenvolvemos a ciência da inclinação dos raios solares, das marés intimamente ligadas às fases da lua, da improbabilidade da felicidade terreal, da impossibilidade da perfeição.
Éramos quatro à roda da mesa, os adultos andavam longe e ficava Ana, os cadernos diários, a borracha que se perdia, o pão com marmelada, o alguidar de cobre e o feijão de quebrar. Sabia o segredo dos bolinhos de coco, das tartes de maçã, das laranjas maduras e doce era a voz que nos sustentava a infância e as contas de somar. Ela dizia, os meus rapazes e nós sabíamo-la nossa sem perguntar onde estava antes de nós e para onde iria quando tivéssemos partido. Vestia-se de branco, o avental imaculado, os bolsos largos de onde no momento certo saía tudo o que fosse preciso. Um lenço, um lápis, a pomada para as queimaduras, um rebuçado Heller, redondo, enorme que quando se colava ao céu-da-boca, era um susto de morrer sem ar.
Parecia pouco mais velha do que nós, os olhos imensos espantados no canto dos pássaros, o riso que soltava a cada instante, as mãos fininhas que nos desembaraçavam os nós do cabelo. Era ela que nos acordava nas madrugadas geladas e nos incitava a ir à escola, a não mandriarmos pelos caminhos, a batermos as palmas em vez de chorarmos as frieiras nas pontas dos dedos. Dava um golpe certeiro nas castanhas e não se cortava, coisa que ninguém mais fazia.
Muitas vezes ouvíamos o segredar da casa “ela é estranha não lhe podemos exigir muito…” As palavras suspensas, o que não se diz é mais pesado do que o ar. E ela a nossa tia mais nova, tão mais nova que parecia um de nós, não fora o vestido, branco e nós as botas e os calções.
Quando as traves do sótão rangiam e os móveis estalavam e um invento de passos nos fazia rir e chorar, saíamos para o jardim descalços, enrolados numa manta e perto das árvores de muitos tons dos quais não iremos falar, Ana contava

num reino antigo que já foi aqui nestas terras mas não é mais, um jovem pastor trouxe de presente à sua rainha um cão de olhos meigos, dos que nascem no alto das serras e se fazem grandes e peludos e guardam bens e senhorias melhor do que qualquer homem é capaz e ela reconhecida pediu, toca a tua flauta para que eu entenda o ar rarefeito das alturas e a fidelidade de um ser

e ele tocou

então, num desgosto mal amado o rei louco de ciúmes, mandou matar o pastor, a rainha emudeceu de pranto e o cão postou-se à sua frente, de dentes arreganhados ao senhor e enfrentou-o como fera e lambeu as lágrimas da rainha porque bondosa ela era
vaguearam os dois pelas altas serras e nem a morte os separou

jazem ali entre as duas árvores, a rainha e o seu cão, da serra
e o pastor ficou disperso em canto pelos canaviais

Quando ela terminava, podíamos jurar que entre as duas árvores o cão ladrara, os olhos meigos pousados no chão, a água a afogar os juncos.
Ali naquele território atapetado na improbabilidade da felicidade terreal, nunca fomos tão felizes, nós os quatro. E Ana.


há outonos em que não queremos falar de folhas
a realidade é sempre maior do que a ficção


outubro de mb