Seria uma loucura o que estava a fazer, mas quantas não tinha já cometido no fio de uma linha que o sustentava, de um lado o rio do outro o mar, escolher escolhemos sempre e o risco é aquilo que desenhamos no chão.
Parou o carro no sopé do monte e começou a subir em passadas largas. Sem lua, o céu cerrava-se quebrado o canto das cigarras e um restolhar de bicho. Foi um pulo, de lobo seria se não fosse homem.
Empurrou a porta com toda a força acreditando que àquela hora não estaria aberta, na atitude pueril de um desejo intenso e neste caso, ruidoso.
E esvoaçaram morcegos assustados, mochos não se viam.
Pelos vitrais a luz derramava-se fraca, cor de tijolo, gémea da escuridão nocturna, cheirava a cera, a que acariciava os bancos corridos de madeira, dando-lhes corpo, brilho, alma e perfume, da outra não, das velas das promessas, das mãos pequeninas, pés, cabeças, coração. Deu sete passos e ficou ali parado na nave central. À direita trespassado de setas, o mártir S. Sebastião de quem tinha tanto medo quando os seus pés ainda não chegavam ao chão e ele sentado incapaz de desviar os olhos daquele sofrimento, a mão da mãe na sua mão e ela dizia “filho?” e ele acordava para o sinal da cruz e para os risos escondidos dos irmãos que troçavam das senhoras que vestiam os vestidos de passear domingos e o apertavam contra o peito, sufocando-o de beijos e alfazema.
À esquerda, uma imagem de Nossa Senhora. Das Graças, das Dores, da Consolação, da Conceição, de Fátima, da Boa Nova, da Boa Hora, dos Aflitos, dos Navegadores, do Bom Sucesso. A mãe dizia “filho” e era dela que ele gostava.
E sentou-se, como se sentava, a simultaneidade do tempo, a complementaridade. Disse “mãe…”, colocou os cotovelos nos joelhos e escondeu o rosto com as mãos. Ficou assim e dobrado desdobrou-se.
Do bolso das calças caíram-lhe as chaves, do carro, da casa, da arrecadação, do correio, do amigo a quem prometia regar as plantas e não regava e da casa de cá, para lá do monte e do rio.
Foi então que se lembrou do sino. Era de bronze e possuía o timbre magnífico das ondas sinusoidais puras. Deu um salto, correu para a porta das escadas em caracol que conduziam à torre, talvez até já não existisse destruído pela incúria ou pelo abandono, rodou a maçaneta, nada! Estava fechada. “Ridículo! As portadas da igreja estão abertas e esta portinhola, trancada…”. Lembrou-se das chaves no bolso, alguma serviria, da casa, do amigo, nem que fosse do cão. Serviu. Galgou os degraus, dois a dois, bateu com a cabeça numa trave e o sino ali estava, intacto e perfeito.
Puxou a corda, fê-lo balançar e lançou-se com ele. Vibrou, percutiu, ecoou na noite o sino, espanta pássaros nocturnos, espanta corvos e agoiros. O tempo parou, continuando a voar.
Foi este o desígnio que encontrou para dar a entender que já tinha chegado.
Depois, sem a mínima pressa iniciou a descida.
O brilho dos pirilampos era um manto aveludado de luz.
esta é a página segunda em que se experimenta o tempo como um simples e complexo ressoar