"desajeitado dançador da lua

esta valsa é para ti"




no presente de um conto prometido quando as noites retomaram já o caminho do Inverno e nós pensamos sonhadoramente que ainda não





decorrente


Há um momento em que precisamos dilatar o tempo, atordoar as palavras acostumadas, coladas à nossa forma de escrever e empreendermos uma viagem que começará mais cedo e terminará quando tiver estrutura, matéria complexa, textura.

A humildade não é um valor deste mundo formatado, anexado à vaidade, em busca de uma perfeição corpórea que não incomode, antes envaideça, que navega à superfície onde é sempre mais fácil respirar. É como se buscando um modelo nas asas de um pássaro, desenhássemos uma lagarta das couves. Não interessa a poesia serôdia da vida das borboletas, a maioria das lagartas devora as couves e as couves deixam-se devorar. É confortável acreditar que tudo é belo, marítimo, desatinadamente compensador.

O melhor escritor é aquele que não escreveu nada, porque tem todos os livros em aberto. E se necessário for, enfeitamos os pinheiros de natal em fins de Junho, Julho ou até Janeiro, todos os meses são bons se começam primeiro.

A lua no céu é um vaguear obscuro de verão quente e falaremos de uma aldeia perdida entre cinco montes e um vale, as casas têm telhados de quatro águas, o sino é de bronze, três são os rios, dois são os seios de uma mulher.

E vem comigo quem quiser.



decorrente
diz-se da folha cujo pedúnculo desliza ao longo da haste em quase todo o seu comprimento

fotos de mb





prisma


Avança devagar, os pés descalços, os olhos semicerrados, a forte percepção da luz.
O nariz toca levemente a textura do tecido e pára, abre as mãos, estica os dedos, cola-os ao algodão, desenha círculos. O lençol molda-se à face, assenta-lhe, fixa-se. Percorrem-se mutuamente, o cabelo puxado para trás, as pestanas viradas ao contrário, caminho infinito até ao bordado da dobra que mal toca o chão, as molas da roupa saltam e o grito, o enrolamento, a queda, deslizando sobre si é como um ladrão escondido num tapete à procura de um livro antigo das histórias de assustar.
Ninguém está sozinho quando faz brincar o tempo e vem mais um e outro e na memória do cheiro bom da roupa estendida ao sol, seguramos o ralador do queijo na mão esquerda, duzentas gramas de sabão na mão direita e ralamos, laminamos, óleos de amendoim, de copra e de palma, NaOH para branquear, muita água nos tanques do quintal, porque a mulher desconfia das máquinas e gosta do vagar de vaguear barrelas.
Se roubarmos os carrinhos das linhas encarnadas e amarelas, poderemos ainda engolir água e sabão, soprando o ar revestido de espuma onde ficam cativos os pensamentos, até que um espinho, um ramo fininho os faça estourar.
Este é um instante de luz refractada, um desvio na direcção dos raios solares transitando de um para outro lado, mas se não sabes dobrar os lençóis não vales nada, só entenderás a sabedoria das coisas simples se fores deusa de uma tarde quente, embrulhada em lençaria fina.
São precisos dois justamente, a quatro mãos como um piano bem temperado. Primeiro ao meio, o indicador e o polegar juntam as pontas, depois em quatro, são simples as fracções de um pano-cru. É neste instante que sacudimos um invisível ser que habita o linho e largamos tudo, perdidos num riso louco que contagia o Verão.
Aqui o lençol pode ser tanto. Asa de pássaro gigante, vela de um barco perdido nas marés, tenda de índio solitário lua no deserto espírito de lobo, tecto, abrigo, esconderijo, batida compassada quando sopra o vento e o faz secar.
E se dermos dois nós à árvore mais frondosa do jardim, ponta com ponta alinhada é o berço de uma criança aninhada, suspensa dos ruídos e dos piados, seja qual for o canto de embalar, a língua é a sua herança, o seu legado.
Nas gavetas pousam corações repletos de alfazema e cada perfume é um regresso a casa.



estendal de mb





paralelo

No tempo em que eu media a distância entre os cais de chegada e os de partida, afectos partilhados em milhas submarinas num mar espesso e alto, sonhava acordado com a vida das tartarugas.
Sei que existem centenas de ilhas assim denominadas, das tartarugas, mas esta tinha para mim o maior dos sinais pois era aquela que eu habitava.
A casa construída em pesada madeira, de portas e janelas sempre abertas numa circulação nem sempre pacífica de vento, mosquitos e lacraus, não possuía energia eléctrica, tudo funcionava com um velho e cansado gerador que empestava o ar com um antipático cheiro a querosene. Calava-se ao anoitecer e nesse instante o silêncio e o escuro eram tão densos que podíamos segurar as estrelas que nos caíam na testa e nos olhos.
Quando nadávamos eram muitas as vezes que nos víamos face a face com estes seres pacíficos, amistosos e curiosos, capazes de nos seguirem até à beirinha das rochas ou da areia. Era aí que desovavam e quando chegava a hora de os filhotes nascerem, faziam-no aos berros, quase dentro e já fora da casca e o som atravessava a areia e a água.
Era de manhã muito cedo com uma caneca de café bem quente na mão, que me sentava cá fora no alpendre, um bloco e um punhado de lápis e desenhava-as, reinventando-as no seu vaguear, o corpo achatado, a carapaça verde-azeitona e preta, as possantes barbatanas e imaginava-me a entender-lhes a linguagem dos ruídos e as vocalizações, sete tipos diferentes, numa tradução inexacta e lírica do que poderiam falar.



Estava zangada.
O enjoo que ainda sente da sua longa e oscilante viagem ecoa nas paredes do tanque, pequeno, limitado, uma coisa de nada comparado com o oceano, a sua casa.
Os companheiros de cativeiro intimidam-na e os humanos que se aproximam falam-lhe mansamente mas insistem para que coma as couves e os brócolos que ela não deseja tragar. Quer as ervas marinhas, quer estender as grandes barbatanas dianteiras, quer ondear a sua enorme carapaça em forma de lágrima e nadar rumo a outro lugar.
Deram-lhe um nome que ela não entende e os seus olhos têm as perguntas do princípio do mundo.
Mas há sempre uma hora em que todos se vão embora e apesar das sombras da noite, é nesse instante que os seres mais sensíveis esticam a cabeça para fora do medo e escutam os sons da terra e do mar.
A mulher vestida de negro desliza pela varanda, inspira o odor dos vasos regados, do alecrim, da manjerona, todas as cidades se assemelham quando doce é o mês de Junho. Lança a voz num canto narrado de contos, fala dos barcos da chuva loucura estranha forma tem esta vida.
Do outro lado dos oceanos, o homem descobre o oitavo dos sons que eram apenas sete, não fosse a barreira da água e da areia porque em cativeiro ninguém sabe contar.
A lua projecta no tanque uma luz plasmada e ela aquieta-se à flor da água.    
É preciso fazer silêncio para escutar uma tartaruga.


este é um narrar efabulado numa encruzilhada de vidas como se reconta aqui




Mariza a tartaruga e Mariza a fadista, desenhos de mb



agradeço ao Paulo  a boa notícia que me fez desenhar este conto