Quando desenhou o primeiro pássaro ainda não era quinta-feira e os cantos da folha eram apenas três.
A chuva permanecia líquida e as trovoadas nocturnas sucediam-se a um ritmo considerado perfeito para fazer crescer a alfazema e o alecrim. Com a primeira, enchem-se pequeninos sacos de talagarça bordados a ponto cruz. Com o segundo, tempera-se o cordeiro e as batatas novas.
Nunca tinha visto um pássaro assim, nem mesmo os que pintara nos azulejos mate da cozinha e que aos primeiros sinais da Primavera, levantaram voo em busca das andorinhas dos beirais numa profusão de cantos e de gritos.
Este não aceitava a cor nem o movimento das linhas, estilizava-se provocatoriamente e resmungou “Quero ser um pássaro branco numa folha preta!”. O homem achou perfeitamente natural ouvir a voz do pássaro e quando a sexta-feira chegou, tinha desenhado dois pássaros brancos presos numa folha preta.
Na manhã de sábado, multiplicados os pássaros, os cantos da folha eram quatro e o homem percebeu que o ar se respirava de uma outra forma, que o seu peso tinha mudado como se já não precisasse de braços nem de pernas.
No forno, os folares doces pincelados com a gema amarela dos ovos inundavam a casa de um cheiro a fermento ázimo e o silêncio pousava ainda sobre as coisas.
Abriu as gavetas, limpou o pó às cadeiras, passou a ferro as toalhas e os guardanapos, enfeitou as jarras com as rosas-chá e escondeu os ovos de chocolate nos canteiros e nos vasos das túlipas.
Na folha preta os pássaros bicavam, batiam as asas e nas cabeças tinham-lhes crescido as cristas e as poupas.
Então o homem rasgou os quatro cantos da folha, soltou o pássaro branco e junto com os outros pássaros iniciaram o seu voo de passagem, dando-se margem, leito e foz.
"um pássaro branco preso em folha preta" de mb
inspirado nos desenhos de Johann Knop que acreditava ser capaz de entender a linguagem dos pássaros