dias serenos



O sol era quente e o cão ladrava.
Ela dizia baixinho, conta, outra vez… enquanto os dedos magros abriam cuidadosamente as vagens e retiravam uma a uma as redondas sementes. Em cada cinco trincavam uma sem ninguém ver, era essa a regra. Quebrada, era o amuo, a zanga, o fim do faz-de-conta, a face cerrada.
E contava outra e sempre desta vez era uma vez uma menina perdida tanta vez perdida e chovia muito e ela pingava de água e de frio. Bateu à porta de um castelo.
As pedras guardam o calor durante muitas horas e colam desenhos geométricos à pele das coxas.
Quem saberá de uma princesa friorenta num tempo de trevas, se eu esconder debaixo de mim uma ervilha não dormirei durante duas noites e à terceira delas, o cansaço e o sono levar-me-ão para um outro reino onde existe um deus chamado Morfeu, que cativa as crianças que acreditam que as portas se abrem quando os galos cantam.
O dedo polegar e o indicador acastanham-se, oxidam-se no cansaço da tarde e o cão continua a ladrar.
O segredo está em deitar no tacho meia colher de chá de açúcar branco e a doçura amacia-se em verde esperança, com um ramo de cheiros e coentros picados com uma tesoura.
Os dias acrescentam-se num engano de horas e julgam-se maiores ou mais belos, mas somos nós que lhes acrescentamos o sal e meia colher de chá de riso quando engolimos sem mastigar a vigésima quinta ervilha, aquela que pelas leis de Mendel determinou a cor dos nossos olhos e a largura da oxidação de um polegar.
Depois o rei ordenou que lhe dessem banho e lhe vestissem um vestido de veludo verde-água e a ensinassem a cantar.
Reencontrado o tempo dos risos, quente era voz que contava os contos e os barcos eram verdes como ervilhas a navegar.




"ervilhas" desenhos a pastel de mb




boreal



Falaram do equinócio, do brilho do luar e na impossibilidade de escutarem a baixa frequência dos sons, aceitaram que a água estaria fria pela razão volúvel de uma qualquer corrente.
Mediram a exactidão do dia e registaram, a verde, a igual presença da noite, depois, julgando cumpridos os ritos deste tempo, desinteressaram-se da ciência das pétalas, da seiva, das abelhas e da vontade que os gaios têm em voar.

A baleia era branca.
Sossegou o ruído das placas, das estruturas fronteiriças e comprovou a relativa ausência de ondas sísmicas. Os sinais precursores eram apenas e somente os que indo à frente, tinham ficado para trás, como a água dos poços e a densidade de certas rochas.
E reluz a pele gordurosa que a protege do frio e a ajuda a flutuar.
Elevada no ar, toda a sua força concentrada num salto que parece infinito, o voltear das barbatanas caudais, propulsão e impulsão, as narinas no alto da cabeça expulsam o ar quente e húmido dos pulmões num jacto imenso e por fim o mergulho, onda de prazer, loucura desmedida.
A baleia era azul.
Pensam-na um animal feroz, mas o seu coração pesado é imenso e manso. Sabe onde cada elemento da sua espécie se encontra, sonar natural, ouvido perfeito, a conversa de viajar, as praias onde busca a morte são o mito que a faz mais forte, morre ali sem explicar nada, solidária.
Quase não há marinheiros, urgente, premente a vontade de em todos os portos deixar um pedaço de si, uma história secreta escrita com os olhos na estrela da manhã que desamanhece ao entardecer. Afogar a tristeza da terra, a ausência de horizontes, azul marinho, turquesa, esmeralda mar.
A baleia era cinzenta.
O seu país são os oceanos e a liberdade de se movimentar não tem pátria nem lugar.
Os homens invejam-lhe a carne e não precisam dela para nada, cobiçam-lhe a gordura, mas não será com ela que iluminarão as noites de lua nova, nem esconjurarão os medos da escuridão e os outros mais profundos, do início do mundo, dos arpões que inventaram para se magoarem, entristecerem, descoserem a pele e permanecerem a sangrar.
As vocalizações são o canto, ouvido absoluto. Frase musical, poema de um poema primeiro, porque não é das baleias que falo mas de uma primavera boreal, inundada de peixes, escamas prateadas no coração dos poetas, vagamundos, erráticos, no salto infinito que os faz poemar.





"baleias e peixes" óleos de mb








pálida




tremeu de febre a casa
desaprendeu o tecto o abrigo a telha e a almofada
inventamos tudo mas não sabemos nada

o menino e o balão branco brincam-se
a mãe chora
o medo tomou conta das aves mortas calado o canto o voo
o espanto como as flores da cerejeira
se o vento soprar para o outro lado de lá onde a gente está e não está
quem sabe se soprará

nuclear é a família quando todos se vão embora
e a rosa é pálida esquálida
nos templos os deuses estão de costas na incerteza dos lamentos
e da dor
ácida a chuva amaldiçoado o chá o leite o vinho e o pão
concreta a condição das águas errática a natureza dos homens

reaprendido o fogo
escreveremos um poema pincelado cerimónia solene do nascente sol
e não me falem da primavera nem do verão



fotos de mb





immutabillis



O homem amava as aves. Sabia das asas abertas ao vento forte, do ruído ensurdecedor das tempestades, da inconstância das marés e da força das correntes oceânicas.
Morava numa ilha de coral em forma de anel à roda de uma lagoa e a sua casa tinha a precariedade das coisas impossíveis de alcançar. As pessoas achavam-no estranho porque ele preferia o grito das gaivotas, ao tagarelar dos habitantes das cidades e a observação dos hábitos dos albatrozes, às redes sociais.
Quando a viu pela primeira vez, ela era muito jovem e a sua gulodice foi o elo de ligação que a fez confiar nele e render-se aos pedaços de lula e aos pequenos peixes que ele pacientemente lhe atirava fazendo-os rodopiar. Ela apanhava-os esticando o bico, os olhos certeiros na direcção correcta, confiante na destreza do seu pescoço. Engolia-os, num trago.
O homem falava-lhe e ela ouvia-o, uma interrogação circunspecta no olhar, o branco e o negro da sua plumagem brilhante e saudável, as asas fortes de percorrerem os céus, as patas bem implantadas e a membrana que une os dedos, flexível e viscosa.

Era uma bela ave. Quando partiu ele sentiu saudades, mas continuou as suas pesquisas, os seus escritos, as interrogações dos reinos do mar e da terra.
No ano seguinte ela regressou e reconheceram-se, o homem e a ave. Ela nidificou e ele chamou-lhe sábia e ensinou-lhe o que tinha descoberto acerca dos da sua espécie, que são fiéis ao mesmo companheiro durante toda a sua vida e que apenas põem um ovo em cada trezentos e sessenta e cinco dias.
Contou-lhe dos perigos dos lixos que flutuam nos mares, milhões de plásticos que os homens na sua assombrada animalidade atiram às águas, enganando as aves que com eles alimentam os seus filhotes conduzindo-os a uma prematura morte.
Ela agitou duas vezes as asas num sinal afirmativo e ele decidiu colocar-lhe uma anilha que a fizesse distinta das outras aves e no seu próprio dedo indicador colocou um anel que o fizesse distinto dos outros homens.
Durante quarenta e cinco anos o homem e a ave reconheceram-se e aprenderam um com o outro e outros nove passaram e os quilómetros percorridos pela ave eram tantos que dariam sete vezes a volta aos oceanos e mais sete vezes a distância entre o que acreditamos e aquilo que nos é dado conhecer.
E ao quinquagésimo quinto ano, mais uma vez ela nidificou no atol onde um homem que amava as aves tinha construído a história de um albatroz.fêmea, amante de pedacinhos de lula e que possuía uma interrogação circunspecta no olhar.
Aquilo que acreditamos ultrapassa o que nos é dado conhecer.




esta é a história real da Phoebastria immutabillis
a verdadeira está aqui



"wisdom" desenhos de mb