vagueio





largou a terra
num saco pequeno a vontade de água a âncora o cordame

as balsas e o mar
do lado direito do peito gritaram as aves marinhas
e do esquerdo os lobos a uivar
no terceiro lado não sabe quem está ou não está
o medo de atravessar

doce é ouvir as vozes que lhe dizem a deuses te entregas
deixa-te ir à bolina barlavento é o vento que te seduz
os dedos crispados a garganta seca
sede têm as anémonas e os corais em dias de tempestade

enroscados são os cabelos das crianças antes de aprenderem

as vogais e as consoantes
trepam às árvores vagueiam pelas florestas descem às grutas crescem
curiosa a eternidade das infâncias ternas

ondear balança o tempo das saudades
e as proas dos navios são bicos de pássaro famintos de outro lugar






"vaguear" fotos de mb





era a serra




Já tive muitos senhores.
Sei a cor das ervas mais finas, a frescura dos verdes, os cantos e os recantos onde a água corre e a sede escorre saciada.
Os blocos de granito são o meu tecto, as paredes da minha casa, a chaminé da minha cozinha, contraforte, corta-vento, nave onde rezo todas as noites e outras tantas escuto as vozes que me sossegam, rumores da minha própria voz.
As pedras marcam os caminhos, orientam-me, situam-me. Só de olhar a sombra que projectam e os líquenes que as habitam, reconheço o mês em que estamos e a hora do dia.
Sou magro, ágil, trepo aos penedos com as minhas cabras, desejo a altitude como as minhas ovelhas. Nem umas nem outras me pertencem, chamo-as minhas porque entendo a sua linguagem e sou eu que as conduzo aos abrigos e as protejo dos abismos.
A frugalidade aprendi-a cá em cima, o pão, o queijo, as batatas, uma única panela e a fogueira para cozinhar. Ainda há lobos na serra e todos pensam que não, porque este é um tempo que se foi e eu entendo a distância das estrelas.
Aqui dorme-se de pé, a capa de lã esconde-me da noite e o travesseiro é o cajado ou uma pedra, porque quando sopra o vento forte e a chuva é um animal enlouquecido, deitado seria a morte, pouca a sorte.
Há dias em que já estou velho, a boina cinzenta enfiada até às orelhas a eterna camisa de flanela aos quadrados pretos e brancos, a camisola mais quente e os meus olhos de piscar lonjuras.
Outros, sou uma criança ainda, tenho seis anos e os calções rotos, os joelhos esfolados das pedrinhas pequenas, uma esperteza de raposa e identifico ao longe o balir de cada ovelha. Entre os dois, está esta minha vida, linda!
Já me disseram que serei o último, dos pastores.
Haverá muitas outras formas de viver, muitos silêncios entre o ruído das cidades, ovelhas cativas de tantos senhores. Casas altas como esta serra também.
Dizem que fantasio e que é inútil o meu saber. Matar para comer, não está na natureza das rochas.
De tudo o mais, nada sei, continuo a confiar nas nuvens e nas trovoadas e se um dia me vir sozinho no penhasco mais alto e a esperança me deixar, saberei que por fim a minha almofada será da lã mais pura das ovelhas brancas que eu tanto gostei de criar.





comprovada a existência das estrelas, poderá ser este
o último dos pastores
disso nada sei

mas sei dos guardadores de contos e dos que me ensinam a viajar





desenhos a pastel de mb



solar




se esticarmos um fio de luar os barcos tremem indecisos e os pescadores perdem o rumo das marés

ai sei lá se és

um brinco de princesa uma cidade adormecida o sonho de um homem solitário
salgados os cabelos
peixes de asas amarelas escamas de pássaro olhos de dragão
faróis iluminados rumo incerto é o mais certo
das gaivotas tanto grito guardo numa caixa o teu olhar e depois onde é que vou parar

no tempo da maresia os lápis desafiados são dourados
e os riscos desenham feridas na pele fina


fotos de f. pedrosa

face


Tinha a transparência de um fio de água na gelada madrugada e nascente é o sol que ainda não está.
Concentrado no olhar aquilo que sabia, era na interrogação dos lábios que a curiosidade se manifestava e o desejo de tocar o desconhecido enchia-lhe a cabeça de perguntas e ela girava como um moinho de vento, os panos soltos e o eterno chiar das cordas e as nuvens de farinha a cobrirem as formigas e os gafanhotos.
Morava no cimo de um monte, numa casa de madeira com duas portas, cinco janelas e um sótão com duas outras mais. A lareira era no meio da casa, a cama colocada ao seu lado direito, à esquerda a mesa da cozinha e o armário dos pratos estava onde quisesse estar.
O sótão era o lugar onde espreitava o mar tão ao longe, que poderia duvidar da sua existência, mas não o faria, porque o ouvia perfeitamente na calma das marés e no turbilhão das tempestades.
Se o vento uivava, o cão chamado Estrela uivava com ele e o rapaz ria-se do vento e do cão e saíam os dois a correr, os cabelos em pé, a cauda a abanar.
Era um cão bom, ligeiramente atarracado, o pelo rijo e forte da cor do mel com pinceladas pretas, as patas potentes e o olhar meigo de conquistar corações.
Ninguém se lembrava da chegada do rapaz e muitos brincavam, dizendo que seria de um outro planeta, mas este facto não tinha a menor importância porque também já ninguém se lembrava de como era a sua vida antes de ele ter chegado. Não lhe perguntavam nada e ele não respondia, porque calado era e gostava de o ser.
Jacinto e o cão iam à escola às segundas, quartas e sextas, porque sabiam ler e escrever e contavam às crianças as histórias de quando não tinham amigos e uma casa de madeira no cimo de um monte e o cão ainda não era cão, mas uma estrela no firmamento. Uma noite, caíra desajeitadamente em cima da orelha esquerda do rapaz que disse baixinho au! O cão Estrela respondeu au! au!
Ficaram amigos e era desse ouvido, que o rapaz conseguia ouvir as vozes dos habitantes secretos das árvores e dos quintais, o sussurro da canção das mães que embalam os filhos e o pensamento dos homens quando estão tristes.
Nessas alturas, guardava as terças, quintas e sábados para apanhar malmequeres e fazer pão e partilhava-os com os vizinhos.
Depois, ao crepúsculo, Jacinto gostava de ver a noite chegar e o cão Estrela matava as saudades do céu. No chão húmido do cimo do monte, deitavam-se em frente à casa de madeira e o rapaz pousava a cabeça no dorso do cão e o mel dourado dos cabelos de um, confundia-se com o castanho e preto do outro.
E eram os dois lados da mesma face.




este é um conto que se quis de um outro mundo fácil de gostar




desenhos de mb