do pinheiro



Agarra cuidadosamente a ponta do fio e enrola-o três vezes à volta do dedo indicador da mão esquerda, depois, com a mão direita continua num movimento alternado, até se formar uma pequena bola. Concentra-se, a cabeça de lado, escuta-lhe a voz, solta os dedos presos e o novelo pode agora crescer.
Olha a meada bem presa em cada mão, os braços fazendo um ângulo recto, a meiguice do gesto, o oscilar que a faz bocejar, ela ri-se, tens sono, ainda falta muito, pergunta. Não falta.
É cor de sangue a lã e cheira a carneiro, a bicho feliz no meio dos pastos, a balidos que acordam os pássaros adormecidos, é pura a lã.
Quando era muito pequenina, apenas segurava a meada e aguentava até os braços lhe doerem, até os picos da dormência tornarem insuportável aquela posição, sem um queixume. Agora enovela-se, na intriga dos fios em tantas as pontas da lã, como as agulhas, compridas, brilhantes, encarnadas, azuis, douradas, prateadas as mais antigas.
E as de fazer meias e sapatinhos de bebé, são cinco como os dedos da mão e vão rodando como as estrelas no céu e parecem sempre as mesmas, mas não são. São mágicas e nas noites de lua cheia quem começar a tricotar uma meia não conseguirá parar, crescerá imensa e se por um acaso o universo tivesse frio nos pés, roubaria a meia e a tecedeira e guardava-as no fundo do mar.
Ela abre os olhos deslumbrada com os contos dos fios, de meia, de liga, com a voz da mãe sempre a trabalhar, um dia faço-te uma camisola da cor do céu para passear.
Se fosse gato desfazia tudo, se fosse sapo escondia-se nos bolsos, três malhas e um torcido, volta-se atrás para as apanhar.
Quando estiver cansada, recorta os bonecos de papel, a língua de fora, no esforço de manejar a tesoura, veste-lhes camisolinhas de lã e dá-lhes a fala dos meninos tristes.
Lá fora as agulhas do pinheiro estremecem.

novelos aluados de mb



código



Aprisionou-o irreflectidamente logo após o primeiro gorjeio do anoitecer e lançou para o ar frio e húmido a linguagem dissuasora de ramos e telhas. Os outros assustaram-se, confundidos pela razão das penas, sem vontade de brigas e gritos.
O homem não soube o que dizer, deixou-se ficar, as pernas pendentes, um ligeiro arrepio, que estupidez, disse, porque é que não vesti a camisola de gola alta, agora não adianta, altitude é coisa que não me falta e sentiu-se marear.
O pássaro ouviu-o e aproximou-se saltitando, telha sim, telha não, numa equidistância espontânea lança-lhe uma baga encarnada, redonda, brilhante, e mais outra ainda, desafia-o ao reconhecimento do jogo, não teme, conduz. O homem deixa-se conduzir, não sabe o que fazer, nunca foi prisioneiro de um pássaro.
A negritude das penas confunde-se com o escuro da noite, o bico laranja abre-se provocador e ensina ao ser sem asas, o grito agudo do medo da rapina das aves, o miar do gato gordo e mimado, o assobio desvairado do ciúme, o agressivo da guerra.
Criadores de códigos, partilham as árvores e os telhados, o calor do sol, a água da chuva, a lama, os ninhos e as penas. O pássaro é fiel, o homem nem sempre.
Os olhos do pássaro fixaram os olhos do homem e ele sentiu-se bem ali, longe do ruído dos dias, da solidão do micro ondas, dos talheres de plástico dos centros comerciais, do som das chávenas quando chocam com as tostas de queijo.
A noite cheira a uma promessa de frésias em Janeiro a um desfiar de sonhos, a um colar de bagas encarnadas para enfeitar um pescoço delgado.
E o homem entende a diferença do pássaro e não ousa perguntar porque me prendeste mas ele responde, para te libertar.



turdus merula de mb



canto de janeiro



A casa era tão grande e tinha tantas vozes, que ele até se assustava.
No sótão moravam as de Inverno, aquelas que gostavam do riso da chuva e do sopro do vento. Na cave, as frescas de Verão, com o cheiro da lenha a secar, das cadeiras com três pernas e dos baús que escondiam os fatos e os chapéus a cheirar a naftalina. Não se poderia imaginar cheiro mais horrível eternamente associado a representação, a operáticas e dramáticas cenas, gritos, traições, árias de divas enciumadas e de deuses de cabeleiras postiças.
Lá fora, o poço era o lugar secreto dos leões-marinhos e das tartarugas e nas noites de lua cheia ele não dormia, colava o nariz ao vidro da janela e dele saía um lobo grande e cinzento e quando ao alvorecer regressava, não era lobo cinzento, era uma menina.
O rapaz cantava e as senhoras que usavam brincos e pó de arroz, abriam as bocas redondas pinceladas de carmim, num êxtase divino e diziam, um anjo não canta assim e tremiam.
O piano tocava na sala e o aquário dos peixes encarnados ensurdecia.
Ele dividia-se em poemas, nos ângulos salientes concentrava-se, do pão, amava as fatias com uma só superfície de miolo e sabia o perigo das esquinas.
Todas as manhãs enrolava ao pescoço um lenço de turquesa e estava certo de que quando o nó não fosse mais enrolado, ele já não seria um menino com voz de anjo, mas um rapaz grande à conquista de versos e de rimas.





esta é uma página de canto, que ofereço à música das palavras

e a todos os que ainda acreditam na magia das esquinas


"o rapaz turquesa" de mb

nervura



Manifesta-se, não sabemos porquê. Mas numa epifania íntima e inesperada, sustentamos a essência das coisas.
Porque fico para trás tantas vezes, desatentamente concentrada e outros diriam que tolice, a cor de uma folha será sempre a mesma e os anos seguem-se em fios enleados e estão todos presentes como se fossem um só.
Quando coloco uma carta no marco do correio, não me esqueço de balbuciar o destino da mesma, sendo azul ou não a sua cor e a garantia de chegar tão cedo à localidade que eu escolhi.
E se ao segundo dia, de todos os meses de Janeiro, venho para a rua num desejo de ver um boi com quantos cornos tem o ano de dias e fico assim tão aterrada, porque já não há bois na terra onde moro e pergunto como é que eu acreditava em tanto conto, que agora reconto e sei tão bem que no fim do arco-íris há um tesouro feito de asas de besouro e o difícil, está em encontrar o lugar onde qualquer arco termina.
Pano de abóbada, pedra, toque, o que separa o veludo da seda, a seiva, o veio que se faz fibra. Ramifica-se no insecto, tubo alado que o ajuda a voar.
Em mim a veia na escuridão de um traço, papel sentado à espera de uma trama, substância verde, dispersão, concentração. Nervura.





esta é a página primeira do quarto dos dias




foto.folha de mb