desarrumamos as gavetas e os armários
soltamos os cortinados e os vidros das janelas, lançamos ao vento os livros que desejaríamos ter escrito e não escrevemos, suspensos em fios de tinta tímida

damos um nó nas pontas do cabelo, bordamos meu amor no lenço do pescoço, tecemos palavras de conforto e esperança, rimo-nos do brilho das estrelas mas baptizamos este tempo de bonança

juntamo-nos em tribos reconhecendo o irmão em cada irmão, o amigo em cada amigo, partilhamos segredos de futuro na incerteza mais certa do destino

e no princípio daquele primeiro dia podemos sempre dizer meu deus que fazes tu aí e eu aqui e numa ligação perfeita de três perfeitas notas, entendemo-nos no silêncio de todos os nossos dias

feliz ano de 2011!


fotos de mb

de marear


Quando o céu escureceu, naquela confusão que deixa os dias aflitos numa ausência de sol e não é noite ainda, pegou num saco e nele meteu uma muda de roupa, uma camisola grossa de lã, o cachecol novo, castanho dourado cor de mel, uma faca de marinheiro, uma caneta azul e preta e um caderno de viajar.
O mapa do tesouro sabia-o de cor, mas dobrou-o, quatro vezes como sempre fazia e continuaria a fazer e guardou-o no bolso das calças juntamente com a oração ao anjo. Tinha-a na cabeça como o mapa, mas gostava de sentir o cartão ligeiramente amachucado e visualizar o menino à beira do precipício e o anjo, alto, belo, com aquelas asas enormes e a mão estendida, prestes a segurar a criança.

Às vezes pensava “um dia o menino cai…ou cansa-se o anjo de assim estar…” mas estava certo, de que nada aconteceria nem a um, nem ao outro, enquanto o santinho colorido permanecesse junto dele.
O barco, apanhou-o no lago do jardim e zarparam os dois sem ninguém dar por isso.
No mar calmo ondearam peixes e ouviam-se nitidamente as vozes escondidas nos oceanos e o canto dos pássaros lilás, que o saudaram loucos de desnorte e o incitaram a navegar. As velas enfunadas estalavam e sempre que o vento amainava sentava-se no convés e escrevia com a caneta azul, mas preta e contava-se os contos que sabia e desenhava os que nunca contaria.
E se as baleias ousassem roçagar na proa do navio, ele sabia que o mar ia alto e certa era a carta de marear e na passagem de uma margem para outra margem, estava ele e o anjo para o sossegar.

desenhos de mb

O seu nome



Dispôs os símbolos por ordem decrescente, enlaçou as fitas desfez os nós. Roubou uma migalha do bolo de chocolate, ajeitou as colheres da sopa.
Desfocou um pouco as imagens porque a imperfeição das coisas está na sua natureza e no silêncio da gruta estalactite de água e sal, desejou novamente um cavalo de madeira, brilhante como o sol, capaz de soltar as estrelas e galopar pelos campos de girassóis.
Se aqui estivessem todos os que eu amo, pensou, os lugares não chegariam nesta mesa e teve saudades dos amigos que consigo se entrelaçam nas palavras e de todos os outros, abraçados a um destino maior.
Lá fora, as brasas da lareira acinzentaram-se de espanto em pegadas que apenas os pássaros vêem e os deuses permitem.
Ela disse O seu nome, os carneiros baliram no telhado e a noite chegou.

BOAS FESTAS!

fotos de mb

seria



Ao primeiro sinal pára, expectante, o coração já não lhe cabe no peito e para o sossegar coloca a mão esquerda sobre ele e sente o seu galopar. Puxa as calças do pijama que escorregam, a cabeça ligeiramente de lado para escutar melhor.
Elas riem e ele cora. “Não o assustem…” balbucia. Não assustavam, acreditam mais do que ele acredita, presas a cada um dos seus gestos, dos seus medos, das suas hesitações.
Gravada na cinza da lareira, a marca de uns pés pequeninos, perfeitos, dir-se-iam de uma boneca, mas não são, ele está certo disso. Abre muito os olhos e pensa: “passou por aqui…é só seguir o seu caminho”, não é fácil esse caminho, sabê-lo-á num outro tempo, este, é para se deslumbrar. Mais adiante, um botão dourado e um pedacinho de renda branca.
São três as construtoras de sonhos, meninas grandes, tornam credível a noite fria de um deus-menino para outro menino que elas adoram como se fosse deus.
E diz a primeira, é a renda do bibe de uma criança, ai isso é e ela sabe de linhas e de agulhas, botões dourados são o seu ofício e dos chapéus das senhoras ricas e vaidosas caem as penas, de pássaros e das outras, das asas dos anjos ou dos deuses, que na escuridão das chaminés carregam embrulhos de papel branco às risquinhas cinzentas e laços encarnados.
Espanta-se a segunda, que lindo é! e é ela que tece as camisolas de lã e os gorros, porque gelado está o ar e há sempre um génio mau que nos pode roubar os cabelos quando de manhã cedo vamos ao laranjal e espreitam os melros curiosos.
Vá lá, procura-o… diz com meiguice a terceira, porque doce é a sua voz, tão doce como os bolos que faz e as filhós e os coscorões e o bolo de natal onde canta um passarinho num ramo de chocolate, não comas o azevinho, faz-te mal e deixa-o lamber a tigela da massa, antes de a deitar nas formas de lata barradas de manteiga.
“Estragam de mimo esse rapaz!” dizem.
E ele parado, a olhar para a girafa dos seus sonhos, imagina-a solta nas terras de África porque é o mais longe que ele sabe existir no globo redondo e o avô aponta, é aqui!
Mas não tem coragem de pisar a cinza, apagar os pés do menino-deus. Guarda no bolso o botão dourado, a renda do bibe e a pena branca das asas, que um anjo empresta ao menino para ele descer pelas chaminés.
Então, com muito cuidado, pegam na cinza com uma pá e levam-na lá para fora e ali fica sentado no chão e apenas quando o vento sopra mais forte levando para longe o desenho divino, ele se levanta, abraça com força a sua girafa e inicia a viagem de regresso a casa.
Num céu de estrelas há sempre uma estrela maior e a neve é uma pena leve nos telhados de um sonho.

Desejo-Vos um Santo e Feliz Natal!



"telhados com neve" óleos de mb