Após as chuvas fortes e à medida que as noites se estendem ainda a tarde não caiu, o frio quebra-se num interregno doce e quente de frutos descascados, de geleia fervida em pau de canela, a calda, o ponto de estrada, de cabelo fino, de pérola como um colar, assoprado como bola de sabão, de rebuçado para enjoar e trincar, atirado às colheradas quentes na pedra mármore gelada.
“Não é rebuçado, se não tiver papel…”dizia o menino, “terá! de seda, encarnado, azul ou amarelo-torrado e as duas pontas enroladas, para se esconder, para ninguém saber que está ali um rebuçado, de açúcar queimado!” respondia a mulher, “é um mês enganador” continuava, “o décimo primeiro, dizem, mas é o nono de um calendário antigo e não te esqueças das falas que te ensinei, das rezas para amedrontar os animais maldosos, maliciosos que apenas te querem enfeitiçar, enovelar nos seus enredos! Diz comigo…” e ele dizia:
“se um novénio de tempo me trouxer medo e torpor
por um noveno eu troco uma novena de amor”Sabiam outras, para espantar os sustos e as sombras da madrugada quando as corujas libertam o seu piar, as árvores espectrais desenham vultos inquietos e os morcegos rasam os anjos, desafiando-os a um voltear.
“Num barco de prata acordo o luar
num barco de seda espalho um segredo
num barco de vime vou ao fundo
num barco de ouro tenho um tesouro.”Ficavam pelos pomares das macieiras e combinavam as tartes de folhada massa e de como se cortava finamente o fruto com rapidez e perícia, para que não oxidasse e na mistura sábia do ácido e do doce as ligações soltassem todo o seu esplendor na simplicidade química dos elementos.
Depois caminhavam a distância dos montes e dos carreiros onde na Primavera as bagas vermelhas cresceriam, num zumbido de abelhas gulosas e à medida que o dia amornava, iam mais longe onde o coração chamava.
Na densidade de um bosque onde a luz penetra apenas na manhã terna, a mulher e a criança descansavam e o menino procurava folhas secas, pedras redondas e pauzinhos do tamanho de uma casca de noz.
Ele pedia-lhe: “conta-me o conto da árvore dos cisnes…” e ela contava, de um cisne negro apaixonado por um cisne branco vaidoso e altivo que o desprezava e ele chorava inconformado e só. O menino ouvia e espalhava na terra as pedrinhas redondas, as folhas e os paus do tamanho de uma casca de noz e fazia a casa do cisne, o lago dos peixes, a terra molhada.
Quando na torre o sino tocava as cinco e meia da tarde, o cinzento inundava os troncos despidos das árvores, as tocas dos coelhos, as curvas da estrada e as serpentes rastejavam e silvavam sob as folhas secas.
E enquanto os cisnes da árvore curiosos espreitavam, a mulher dava a mão ao menino e lentamente regressavam a casa, inventando e desenrolando as falas mansas como se fossem asas.
desenhos recortados, colados, falados, de mb