improvável

Sei da árvore nua, o desejo lúcido de entrar no limite dos dias, espaço habitado pela invenção do inverno em que a água ferve, a erva gela e o chá é uma taça onde navega um barco de papel.
O açúcar forma uma ondulação permanente, o farrapo de leite deleita-se em velas enfunadas e se uma bolacha de manteiga se soltasse, naufragava o papel e o barco e o peixe-chá derreteria o conto de um fundo de mar doce, como o algodão da rama que não há mesmo se fosse.
Em cada ausência de folha escorrega um pingo de tinta, um salpico, serenico, um insecto falador atravessa uma janela aberta, toca no piano um dó maior, a árvore estremece.
E neva junto ao mar quando escurece.


pintura a óleo de mb

dos sons


redefinimos murmúrios intranquilos colamos o ouvido à terra pálida
um dia dizemos são e eles vão



reconstituída a matéria incerta dos sonhos
um arrefecimento em germinar dormente ainda não nevou mas cresce o vidro


inventados os mitos da água das nascentes crescente é o quarto da lua
o nosso tem cortinas de espanto e liberta almofadas de folhas


na primeira geada a da madrugada de novembro
canta um silencioso pássaro azul na noite fria


nuvem.pássaro - desenho de mb

as falas

Após as chuvas fortes e à medida que as noites se estendem ainda a tarde não caiu, o frio quebra-se num interregno doce e quente de frutos descascados, de geleia fervida em pau de canela, a calda, o ponto de estrada, de cabelo fino, de pérola como um colar, assoprado como bola de sabão, de rebuçado para enjoar e trincar, atirado às colheradas quentes na pedra mármore gelada.
“Não é rebuçado, se não tiver papel…”dizia o menino, “terá! de seda, encarnado, azul ou amarelo-torrado e as duas pontas enroladas, para se esconder, para ninguém saber que está ali um rebuçado, de açúcar queimado!” respondia a mulher, “é um mês enganador” continuava, “o décimo primeiro, dizem, mas é o nono de um calendário antigo e não te esqueças das falas que te ensinei, das rezas para amedrontar os animais maldosos, maliciosos que apenas te querem enfeitiçar, enovelar nos seus enredos! Diz comigo…” e ele dizia:
“se um novénio de tempo me trouxer medo e torpor
por um noveno eu troco uma novena de amor”
Sabiam outras, para espantar os sustos e as sombras da madrugada quando as corujas libertam o seu piar, as árvores espectrais desenham vultos inquietos e os morcegos rasam os anjos, desafiando-os a um voltear.
“Num barco de prata acordo o luar
num barco de seda espalho um segredo
num barco de vime vou ao fundo
num barco de ouro tenho um tesouro.”Ficavam pelos pomares das macieiras e combinavam as tartes de folhada massa e de como se cortava finamente o fruto com rapidez e perícia, para que não oxidasse e na mistura sábia do ácido e do doce as ligações soltassem todo o seu esplendor na simplicidade química dos elementos.
Depois caminhavam a distância dos montes e dos carreiros onde na Primavera as bagas vermelhas cresceriam, num zumbido de abelhas gulosas e à medida que o dia amornava, iam mais longe onde o coração chamava.
Na densidade de um bosque onde a luz penetra apenas na manhã terna, a mulher e a criança descansavam e o menino procurava folhas secas, pedras redondas e pauzinhos do tamanho de uma casca de noz.
Ele pedia-lhe: “conta-me o conto da árvore dos cisnes…” e ela contava, de um cisne negro apaixonado por um cisne branco vaidoso e altivo que o desprezava e ele chorava inconformado e só. O menino ouvia e espalhava na terra as pedrinhas redondas, as folhas e os paus do tamanho de uma casca de noz e fazia a casa do cisne, o lago dos peixes, a terra molhada.
Quando na torre o sino tocava as cinco e meia da tarde, o cinzento inundava os troncos despidos das árvores, as tocas dos coelhos, as curvas da estrada e as serpentes rastejavam e silvavam sob as folhas secas.
E enquanto os cisnes da árvore curiosos espreitavam, a mulher dava a mão ao menino e lentamente regressavam a casa, inventando e desenrolando as falas mansas como se fossem asas.

desenhos recortados, colados, falados, de mb

de novembro os dias


chegam ante pé
amaram-nos e bateram com força a porta da vida
aqui deste outro lado gelado
castanhas romãs maçãs bolos de noz pinhão canela e limão
de deus o pão santo somos nós
os outros
numa memória de flores
cheiros inundados da torrência das chuvas da invenção das palavras
vale a pena de um pássaro frágil
esfarrapamo-nos dos dias e alcançamos a graça das garças

-Chegam ante pé… -Como eu? – perguntou. -Amaram-nos e bateram com força a porta da vida. -Não há portas onde estou…aqui deste outro lado gelado, a água corre e os insectos zumbem. -Castanhas, romãs, maçãs, bolos de noz, pinhão, canela e limão. De Deus, o pão santo somos nós. -E os outros? -Numa memória de flores, cheiros inundados da torrência das chuvas, da invenção das palavras. -Vale a pena? -De um pássaro frágil. Esfarrapamo-nos dos dias e alcançamos a graça das garças.

Aborresces-me!- gritou o pássaro.
Pára de falar do que não sabes, ante pé chego eu e ainda aqui estou e todos os dias invento os dias sem palavras, à medida que vocês, poetas, despejam nas águas deste rio os vossos reinventados poemas de penas frágeis, inundados da torrência das chuvas, da fluência da morte, do silêncio das flores.
E se eu reconheço nas outras garças, a graça do meu próprio voo, não apagues da tua memória o pinhão, a noz, a canela e o limão e assusta as sombras com esse cheiro a bolo e a pão.



fotos de f. pedrosa