breve


folha galho a suspensa indiferença a ausência a imperfeição
recontar contamos sempre não damos por isso damos outra coisa qualquer ou não damos nada
exacerbado é um pensamento leve
pesado é o sapato que estala e entala o castanho do dia
as atapetadas ruas e praças onde o cheiro do vento deposita um luzeiro de pássaros



folhas imperfeitas de mb
-


breve é o instante de lápis fugidio um desajeito de ave desenhado
folha.pássaro feito riso
-
folha reencontrada em pássaro da f@

entre um princípio


Corredor é um espaço que fica entre um princípio e o outro exactamente igual a si.
Nas casas antigas desnorteadas onde tudo está mas já se foi embora, as salas são quartos de vestir onde aqueles que partiram não estão, mas despem-se todas as noites de um pedaço de nós.
Se tiverem saudades acendem a luz do início dos tempos e riem-se quando tropeçamos nos tapetes, porque eles sabem de cor aquilo que nós ainda não aprendemos ou não saberemos nunca. Dos armários e das cristaleiras soltam-se os sons das músicas impensáveis em copos da loja da esquina do shopping, que tem loja e esquina e até tem praças e árvores a fingir e bancos de jardim sem jardim e velhos especados esquecidos da torrada que arrefece e do chá fraco que aquece.
E depois as portas. Podem-se fechar e abrir, encostar, escancarar, bater com força ou devagar. Serão inteligentes como as luzes e quando como elas, reconhecerem a nossa voz, há sempre a possibilidade de nos entalarem se por um acaso estivermos roucos e a garganta nos doer.
Também nos colamos ao automatismo das coisas e o caminho de casa que é sempre o mesmo, passa pelo mar ou pela viagem desejada, pelo diálogo com a pessoa amada e os nossos pés não se enganam na travessia das ruas, param e avançam nos sinais de trânsito e nos outros que nos alertam para a perigosidade de uma poça de água ou para o rapaz indesejado que gosta de nos roubar a carteira.
É tão real estarmos acordados como dissentidos de sentidos, numa harmonia factual comprovadamente nossa, íntima, ínfima, parte de um universo interno, secreto, despojado.

E nesse corredor canta um pássaro sendo noite e é tão certa a imperfeição humana como humana a voz de Deus.



fotos de mb

filamento


quantas vezes são as vezes de um olhar de uma trovoada seca em noite escura de um entendimento de ser mas já não estar
daquela náusea que sobe e nada desce de um enjoo de vida a marear
mareados somos se agitamos a espuma qualquer uma a dos dias e a outra que nos empurra sem cessar
essa semente não nos faz calar coladas estão as palavras fazedoras dos objectos e dos sentimentos
e se digo água crio o fio líquido digo pássaro faço-o voar repito flor
pinto-a vibrante despudoradamente simples
porque simples é o meu olhar e o fio dos dias onde enleado está cada momento


"flores ainda no outono líquido" de mb

ainda há estrelas?


Um dia o meu coração também será de xisto e isso não me assusta. Em cada lâmina folheada escreverei um pedaço da minha vida, esta que vive comigo desde que é minha e que eu prezo e amo tanto, como a este meu cão.
Chamar-me-iam louco se me ouvissem, mas aqui na brancura imensa destes altos apenas as ovelhas e as cabras me escutam, os grifos talvez ou as águias-gritadeiras se por um acaso se deixassem avistar.
E o meu cão, fiel. Companheiro dos dias curtos e dos longos, dos frios gelados e do calor do Verão. Capaz de me salvar dos lobos e das outras feras, que as há, embora por aqui há muito tempo as não sinto, conhece em mim cada suspiro, cada anseio como aquele que me desfaz o peito quando penso nas imensas searas de trigo que não vi, mas sei que ondulam ao vento.
É branco o pão que delas sai e o meu é escuro, a manteiga desliza quando quente e o meu tem o cheiro das azeitonas pretas e da terra acabada de cavar.
O vento, esse é igual. Forte, uiva-me aos ouvidos, desloca as rochas e faz-me chorar, não de desgosto, mas traz consigo as areias longínquas do mar e eu até sinto os pedaços de conchas partidas e as espinhas dos peixes e as lágrimas soltam-se sem que eu as possa parar. Fraco, entontece-me os sentidos e é quando cai em mim a saudade das aldeias habitadas, das festas dos baptizados e dos casamentos, onde há sempre vinho a bailar nos copos e os homens cantam até o sol raiar e as mulheres enfeitam-se de ouro e de panos bordados como as deusas antigas e soltam nas mesas as toalhas de linho e os dedos finos das raparigas desenham a canela corações e a palavra amor nas travessas de arroz doce.
Tenho frio então, mas ateio fogueiras e aqueço a noite, as ovelhas dormem na palha seca cobertas pelas lousas que brilham ao luar, o meu cão aproxima-se e pousa o focinho nos meu joelhos e eu partilho o chouriço e o pão e a água gelada da ribeira que dizem de Pena e pena seria se não existisse. Como de mim há tão poucos já, sem ovelhas, sem cabras, sem pastos, sem palha, sem fogo, sem canela, sem pão, sem tecto, sem cão.
As cidades crescem e os homens afirmam-se na inutilidade das coisas, não sabem a cor das águias-gritadeiras que são castanhas como as folhas do Outono e pensam que os grifos são contos de assustar, desconhecem o coaxar das rãs e quantas vezes, à noite, já não sabem rezar.
E a minha mão desliza sobre o pêlo macio do meu cão e ficamos os dois lado a lado toda a noite a tresnoitar, num silêncio cúmplice, arrasador de dúvidas, apaziguador de tristezas e eu guardo comigo a certeza de que ainda sei respirar.


desenhos de mb
-
o título deste texto foi inspirado no filme “Ainda há Pastores?” de Jorge Pelicano