bailete


acrescentando um segundo a cada anoitecer ficamos sem saber
se anoitecemos nós serenos nas árvores que habitam as margens dos rios
num engano feliz crescem nos quintais e nas esquinas dos muros
sustentando arquitecturas desfocadas de contos de fadas desfasadas
de videntes mentirosas mal amadas de invejosas sortes e más mortes
-

dependurados ramos flexíveis ondulantes bailadores de ventos mornos e já distantes
quando ninguém vê deslizam pelas chaminés recados
que apenas o tempo lê em cada pedra solta desgarrados
-
abismados na noite de lua cheia e tão parada
dos estrídulos grilos que nos adormeceram as noites de verão sabemos nada
e perguntamos onde estão
assim tão frio que um cantar distante se perdeu
e num engano vão
silenciaram os figos lampos e as latadas

-

na quietude terna que se instalou depois
sentimos na ausência de cada asa o impulso imenso de um regresso a casa
enrolados em macios de algodão


"noites" de mb

de um tempo de água


Às vezes é um som, um cheiro, uma percepção colorida entre o açafrão e a pimenta. E tenho saudades.
Era doce a língua e acordava sempre ao som de uma gargalhada, uma corrida ágil nas lajes do corredor, o fogo que sentia a crepitar na cozinha enorme e escura, o ranger da corda no poço. Ficava mais um pouco a marinar ruídos, os olhos fechados porque não tinha pressa, jamais tive pressa, nem do chá preto fervido com leite ou do coco acabado de colher.
Pelas janelas de carepas, encimadas por caudas de pavão, as pequenas placas de ostras colocadas em escama deixavam entrar a ténue luz da manhã acinzentada, pálida, da monção. Engenhosos os arquitectos, que superando a ausência de vidro construíram estas janelas de luz e ar a circular, porque a humidade é tanta que entontece.
Alguém dizia “mais uma vez os macacos deslocaram as telhas, ouvi-os de noite…” e eu também…era como fazer parte de um conto antigo, os macacos não são macacos, são príncipes ardilosos, roubam as telhas para construir um palácio e com um sopro leve transformam-nas em ouro e imensos são os roubos que perpetuam que há aldeias inteiras sem tectos e a chuva entra como se fosse a rua.
Os muros cobertos de jasmim escondem as cobras venenosas e as iguanas e se damos um salto de medo é o medo que elas têm nos olhos que nos desfaz o salto, por isso aquietamo-nos mudos de espanto.
A meio da manhã a chuva pára de repente num tempo de bicicletas velhas a ranger e os mercados parecem uma festa de pulseiras de vidro e são tanto mais quantas mais temos valor, o verdadeiro, o do amor. No fundo dos ribeiros há um tapete destas pulseiras partidas e pensamos em tesouros, em pedras preciosas perdidas a que ninguém dá valor. Os colares são de flores, para que o odor permaneça o tempo certo de uma festa, de uma alegria fugaz.
Os meninos têm uns olhos imensos, são magrinhos, fininhos e dolentes, brincam de roda numa lenga-lenga eterna porque as mães lhes entoaram as canções de embalar com o coração e esse é igual em qualquer canto da terra, um desígnio de uma certeza, de uma beleza estranha como o que de estranho há em mim.
Os cortadores de relva alugados à hora, são os búfalos ainda jovens, placidamente rendidos à frescura do verde enquanto os seus igualmente jovens donos cabeceiam sonolentos, encostados às paredes, ruminam folhas de bétel encarniçando os lábios e os dentes.
Eu só queria ser pintor e desenhar numa tela imensa toda esta cor e quando a chuva da monção avança numa cortina cerrada, levando à sua frente tudo o que não se deixa prender e faz saltar os peixes das suas rotas e lança-os a nadar perdidos nas estradas, acendemos as fracas luzes nos pátios e nas varandas cobertas onde se agitam os espanta-espíritos de lata e vindo dos confins da casa há sempre um violino a soletrar um inexplicável canto triste que sabemos de cor e tão sentido e a tinta que criámos esborrata.
E se a língua é o lugar onde eu nasci é por isso que eu desejo estar aqui, porque é de água ao mesmo tempo de asa.
-
Este é o caderno de um viajar perdido
em Goa
onde ainda se fala a minha língua




"janelas de carepas" desenhos de mb

siena


quando tudo se acastanha em sombreados dourados compostos de matéria indefinível sem ornamentos e lamentos
os seres alados encontram-se ao entardecer
sussurrando ladainhas ternas fechando as asas como quem se abraça devagar porque pressa não é coisa para gostar
gostamos nós das entretecidas folhas vestidas de rainhas da noite e as aves peixes homens ou borboletas procuram as tocas e os ninhos e assim enrolados em si
são como crisálidas de espanto à espera da lua cheia
os nossos pés descalços assemelham-se à terra que pisamos e não deixamos pegadas viajando incógnitos vagos delicados
somos e não somos bem amados
e se por um acaso acordarmos antes do seu tempo os morcegos adormecidos nas casas abandonadas e nos túmulos dos poetas ou os ouriços nas profundezas dos buracos
sentiremos um agitar das águas e um vento seco que levanta as penas dos pássaros faz bater as portas e apaga as luzes das cidades
a noite alonga-se suspendendo as suas pontas nas árvores mais altas
uma a uma para não entontecer e há sempre uma coruja sonolenta que nos empresta o adormecer
e silenciosamente tudo se acastanha até desvanecer




desenhos a pastel de mb

apontamento


na manhã acinzentada uma palavra pousada
liberta de interrogação é da chuva um sopro de água
está mais frio dizemos cheira a terra molhada
o olhar disperso no caderno de linhas o outro de viajar
estar neste país e já não estar
de olhos fechados suportamos mal a realidade cerrada
das idas e voltas do ruído da primeira folha cansada
o vento desenhou um buraco no telhado
soltou um suspiro um segredo ai que medo
se escorregar encho o céu da boca de estrelas
e se contemplar a noite o dia faz-se como quem veste a alegria
para quê guardar tesouros a leveza não me assusta
não precisamos de nada se a voz for doce e terna
ou eterna a cantilena compassada melodia
é assim que eu fico quando o tempo arrefecia




foto e desenho de mb