siena


quando tudo se acastanha em sombreados dourados compostos de matéria indefinível sem ornamentos e lamentos
os seres alados encontram-se ao entardecer
sussurrando ladainhas ternas fechando as asas como quem se abraça devagar porque pressa não é coisa para gostar
gostamos nós das entretecidas folhas vestidas de rainhas da noite e as aves peixes homens ou borboletas procuram as tocas e os ninhos e assim enrolados em si
são como crisálidas de espanto à espera da lua cheia
os nossos pés descalços assemelham-se à terra que pisamos e não deixamos pegadas viajando incógnitos vagos delicados
somos e não somos bem amados
e se por um acaso acordarmos antes do seu tempo os morcegos adormecidos nas casas abandonadas e nos túmulos dos poetas ou os ouriços nas profundezas dos buracos
sentiremos um agitar das águas e um vento seco que levanta as penas dos pássaros faz bater as portas e apaga as luzes das cidades
a noite alonga-se suspendendo as suas pontas nas árvores mais altas
uma a uma para não entontecer e há sempre uma coruja sonolenta que nos empresta o adormecer
e silenciosamente tudo se acastanha até desvanecer




desenhos a pastel de mb

apontamento


na manhã acinzentada uma palavra pousada
liberta de interrogação é da chuva um sopro de água
está mais frio dizemos cheira a terra molhada
o olhar disperso no caderno de linhas o outro de viajar
estar neste país e já não estar
de olhos fechados suportamos mal a realidade cerrada
das idas e voltas do ruído da primeira folha cansada
o vento desenhou um buraco no telhado
soltou um suspiro um segredo ai que medo
se escorregar encho o céu da boca de estrelas
e se contemplar a noite o dia faz-se como quem veste a alegria
para quê guardar tesouros a leveza não me assusta
não precisamos de nada se a voz for doce e terna
ou eterna a cantilena compassada melodia
é assim que eu fico quando o tempo arrefecia




foto e desenho de mb

o último dia de praia


no último dia
há um serenar de areia uma dolência morna um vento de setembro em outubro antes de tempo
uma onda brava agitada
de bandeira amarela encarnada conchas búzios e outros adornos costurados em pescoço esguio de princesa dos mares sereia de tantos amores sem dores
eu quero um balde e uma pá se eu construir um castelo de algas será para sempre porque o que não dura perdura no coração
ainda oiço a voz de uma gaivota reconquistado o espaço de um direito seu e dos peixes que ela trinca num instante
aquele eterno terno e galopante que nos conduz ao fundo dos oceanos
e pedir ao rei das tartarugas que nos solte um chapéu de sol que navega como um barco de pescador sozinho
todos dirão que bonito vai o barquinho
sem entenderem dos equinócios nem das marés das luas dos astros e do eixo da terra
e do recomeço de cada estação
que considerámos certo mas não é
como o último dia de praia
desenhado a lápis preto sombra luz e escuridão


desenhos mareados de mb

voando

"flying" foto de Mikael Jigmo

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Quando o homem lhe falava baixinho e devagar, ela esticava a sua grande cabeça e ficava imóvel a ouvi-lo, o bico entreaberto, suspensa ao mais leve movimento da sua mão direita, enquanto a esquerda segurava o balde de zinco e os joelhos dobrados num equilíbrio perfeito tremiam um pouco.
Era como um jogo, em que cada um tirava o maior prazer da companhia do outro e à primeira mão-cheia de caranguejos e camarões lançados para a água ela escancarava a boca e engolia-os com enorme sofreguidão. Depois dava uma volta sobre si mesma e num agradecimento mudo afastava-se, as barbatanas dianteiras empurrando-a para a frente, as posteriores, como os remos seguros de um barco.
Não ia muito longe, porque o tanque era pequeno e a algazarra das crianças não a deixava sossegar, gritavam “mais!” e ela comia mais só para lhes agradar. Às vezes, distante, muito distante na sua memória de criatura das águas profundas e das correntes potentes, sentia o cheiro da maresia e não sabia que era assim o cheiro do mar e vinha-lhe uma saudade imensa de algas, moluscos, águas-vivas e camarões, cascos de navios, praias de areia quente e os recifes de coral que apenas ela saberia encontrar.
Um dia, depois de tantos dias, que se os soubesse contar não os contaria nunca arriscando-se a morrer cativa de tristeza e medo, caladas as vozes agudas dos meninos e vazio de comida o balde de zinco, o homem falou-lhe de uma outra forma que ela não entendia, de liberdade e profundidade, da crueldade que terminava e da coragem que ela teria de sentir para se soltar. Do peso que teria de ganhar, das corridas para exercitar os músculos e as barbatanas e o pescoço forte e o olfacto apurado para procurar o seu próprio alimento e a maior de todas as lições: não confiar nele nem em qualquer outro humano, esquecer-se para sempre de quem a cativou para que o seu próprio cativeiro terminasse.
Ela que ouvia tão bem as baixas frequências sentiu que perdia o que não desejava perder, mas imaginou o cheiro da maresia e esticou um pouco mais a sua enorme cabeça e o homem disse pela última vez “minha querida Cabeçuda..” e fez-lhe uma carícia mesmo por cima dos olhos.
Largou o tanque pequeno onde ecoavam as gargalhadas das crianças e o apito do comboio que a ajudava a dormir, perdeu o medo de águas um pouco mais fundas e aprendeu a identificar o seu alimento, a procurá-lo sem a ajuda do homem, a nadar, a mergulhar, fez-se forte, cresceu, ganhou peso e determinação.
Os homens, orgulhosos dela, soltaram-na então no mar alto, já ela sabia há muito que estava preparada para o fazer e eles ainda não, mas claro que ninguém reconhece que as tartarugas são muito mais rápidas do que os homens!
Mergulhou no oceano e na memória de um tempo guardado bem dentro do seu coração, em que os perigos espreitam e as barbatanas fortes e a carapaça de uma tartaruga não são nada, comparadas com a luta de todas as horas por uma sobrevivência ameaçada, pela doçura de uma areia quente onde irá desovar, multiplicando as formas hidrodinâmicas dos seres que não são peixes, nem algas, nem caretas, nem homens, nem aves, mas podem voar.
De longe em muito longe, há um homem que fala baixinho e devagar e sem saber porquê, sente uma leve carícia entre os dedos da mão.
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Esta podia ser a história de Calantha bela como rebentos em flor, "Caretta, caretta" a Tartaruga que saiu de um tanque e conquistou o mar.



desenho de mb
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e um, dois, três! agradeço ao paulo a história feliz do tempo das tartarugas