da vida das borboletas

"Dead Moth" de Sean Mahan
-

Naqueles últimos dias que antecedem o fim de Agosto há sempre um salto no estômago e no coração. Vamos distraídos, o nariz queimado pelo sol, uma sarda, um sinal em cada mão, um tom moreno de cigano bonito, um movimento suave na descida de um trilho onde saciamos a fome de amoras silvestres, de melancias grávidas e doces em tanto sumo encarnado, carnudo, afogado.
Depois alguém diz: “Como cresceu este rapaz! Não vai caber nos ténis…a mochila serve-lhe de chapéu” e sem saber como, estamos na montanha russa e sentimo-nos deslizar, uma náusea de medo, as mãos fechadas no varão que escorrega no nosso próprio suor e tememos ser lançados no espaço como um vaivém e numa viagem sem regresso ficarmos ali no infinito desconhecido e ter um encontro imediato com o nada, porque o ET é do nosso irmão mais velho e o dedo já não brilha, está estragado.
Se fossemos frágeis, fazíamos como as borboletas e na nossa ânsia migratória percorreríamos 1500 Km no sentido Sul-Norte, atravessaríamos vales montanhosos e grandes superfícies de água, embalados por uma qualquer estação sem nos perguntarmos “como é que já terminou o Verão?”
E se por um acaso o vento soprasse forte e a tempestade nos molhasse as asas, mascarávamo-nos de folha verde, terra, vaso, peixe ou simplesmente flor e ninguém sabia que estava ali uma borboleta viva, desconhecida, incógnita, cidadã de um reino leve, com muitas caras e outras tantas casas, cantadas pelos poetas que na sua presunçosa sabedoria das rimas, desconhecem que são terríveis as lagartas, senhoras de uma voracidade atroz, comedoras de colheitas e de plantas.
Carregamos tanto peso, tanta régua, tanto compasso de espera porque três gramas é o peso máximo de uma borboleta, mas a sua ausência define o ponto de viragem de uma espécie e quando temos medo, podemos apenas afirmar em voz bem alta “Estou inquieto, por isso solto em mim estas asas e perco peso, até aos zero vírgula três gramas de vida e já é tanto!”
E quando assim gritados, nos olham de volta no banco do comboio ou na paragem de autocarro, não vêem em nós aquele menino tisnado com a boca tingida de amoras, mas um ser alado que não sabe nada da vida das borboletas, contando e recontando na multidão que sobra, obra de tantos homens ainda por acabar, o eterno conto de um eterno retornar.

"mariposas vivas" desenho de mb

os habitantes secretos


dormem na casa da árvore aquela que tem tantas janelas como olhos
fecham as pálpebras pesadas em sonos tranquilos e sonham com estrelas e estradas
na escada de madeira poisam então as criaturas da noite as borboletas os pirilampos os mochos e as lesmas de quem não se gosta nunca porque arrastam a viscosidade de si e das criaturas verdes que trituram

coabitam com as invisíveis feiticeiras armadas de fórmulas e de cantilenas
aliviam as queimaduras das mãos e do coração sabendo dos sustos dos pátios vazios das folhas caídas que a brisa suave tumultuada chaminé sai ainda o fumo branco que aqueceu o lume e a panela e a sopa era tão boa a abóbora tão fina o feijão estalou e navegou como barco à vela
nas telhas partidas vive um ratinho manso é Rolando rolando e escorregando e tem uma espada desembainhada no tempo de um segundo
enfrenta os tubarões que aportaram no beiral e salva as asas das andorinhas
as bonecas sem cabeça que amamos os lenços encarnados e as fitas
às vezes levantam-se querendo sem saber e na presença da lua transfiguram-se em anjos
soltam a roupa branca no varal fazem café e um pão-de-ló arranham o violoncelo triste num concerto a muita voz e rezam a um único e bondoso deus

os habitantes secretos de um quintal são aqueles que partindo
permanecem em nós
-

se pensam que esta história é infantil, é mesmo!
.
Para a M.minha amiga pequenina
habitante secreta do meu quintal, que com o J. e a mãe são a minha família.
Iniciam agora, de um mar para outro mar
uma viagem diferente nesta vida


...e que seja bela!

aguarela de mb

quando os corações enfraquecem


o dia era verde


o ar não tinha a condição do cheiro a chuva pois condicionado está aquele que respira mas não deixa respirar



há sempre uma mudança de maré um equinócio desfasado no tempo ainda é verão e já não é



e a tristeza é uma pétala num coração cansado uma gota de água que perdeu o caminho de casa



um pássaro sem asas e mais nada

-

corajoso é aquele que se cala e não agita nem o mar

-
fotos de mb

de quem não sei a luz do olhar

" girl in hands" de Sean Mahan

-
não sei a cor dos teus olhos não entendo a língua que tu falas tanta Pérsia estudei e não esqueci dos desertos de que me falaram


as tuas mãos que eu nunca vi têm dez dedos que acariciaram os cabelos sedosos dos teus filhos o colo que ao colo os embalavas na saudade de os saberes distantes no medo de perder-te de saber-te só e injustiçada

na tortura dos que te arrancaram confissões que não disseste são essas as palavras torturadas

é tão fácil perseguir os que são mansos os que não pedem os que não desejam nada
apenas que o sal das lágrimas se espalhe nos lagos já salgados e são muitos e à beira do maior eu posso sentar-me


e pedir-te que me contes da voz da tua mãe dos olhos do teu pai das canções que a tua avó cantava dos homens que amaste e que por seres mulher te condenaram

nos três rios que te atravessam o ventre navega o perigo de uma chibatada mas no teu coração desaquietado mora o medo das pedras com que se constroem as casas as pontes as fontes e os segredos de um mundo tão vazio de sentido

e quando eu penso nos seixos que me cortam nas mágoas leves e nas penas que choro
rio-me de mim na falsidade de um valor menor


maior é gritar que tenho frio só de soletrar o teu nome e sentir-me tão pequena na coragem que tu tens e eu não tenho
porque tudo o mais me sobra e não é nada

-


respondendo ao desafio de
Bernard-Henri Lèvy para que, a partir de 2ªfeira dia 23 de Agosto, os grandes escritores e artistas enviem uma carta a Sakineh e à sua família
-

carta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, Iraniana condenada à morte por lapidação
...de uma muito pequena escritora

Manuela Baptista


foto de mb