o primeiro dia

amanhece e os lençóis cheiram a lavado os pés cresceram nas sandálias cor-de-rosa
os calções
que chegavam aos joelhos feridos esfolados de gravilha e pedra fina tropeços na bicicleta velha
enfeitam agora as coxas torneadas em saudades de ondas e de espuma
claras em castelo farófias doces de canela e casca de limão
onde vão
já foram
que hoje é o primeiro de tantos dias de um verão sem fim e as coisas guardadas têm os seus lados e é preciso virá-las para que se anunciem
a varanda colada à nespereira centenária que tem cem anos e outros cem também teria e os caroços cospem-se contra o vento

para chegar mais longe e ser o campeão da porcaria
os pássaros deixam-se roubar
mas ninguém quebra o segredo dos ninhos
porque ser mau não leva a lado nenhum
mas se teimares há uma cadeira no sótão ardente em tecto baixo
a cabeça nem lá cabe solta-se um galo que cantará na madrugada
se confundir a luz da lua com a de uma estrela alada
quando vem a tarde quente as pálpebras não têm mão nos sonhos que se escapam escondendo-se nos romances de amor preferidos das páginas coladas pelo tempo

são sempre os mesmos contados de maneira diferente
não jantamos sequer porque o canto das cigarras até dói

e ainda não contámos o que vivemos entre o último e o primeiro dia
aquele em que os lençóis lavados nos falaram da certeza de sermos belos e eternos

e de fazermos tudo o que nenhum de nós fazia
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esta é apenas uma página de um verão eterno
foto e aguarela de mb

transversal

visto-me de rocha
silencio os murmúrios tristes suspirados dos solitários rios
destituídos da nascente à foz
roubados nas correntes transbordantes de troncos e raízes
cabeças de bonecas mortas tanta folha velha
velho é o caminho percorrido de olhos fechados a setenta chaves
pois sete não encerra nem um grito que nos magoa a pele arrepiado
um frio cortante nas esquinas dos cantos dos quartos escuros
o homem do saco tem um saco ou é o saco que esconde o homem assustado
com o cheiro do café acabado de fazer que o transporta sem querer
para o princípio do mundo
quando era quente a mão amada que lhe sussurrava pão com manteiga e o queimava
bem dentro do coração
as pedras eram só as da calçada do lamento não se ouviam nem os ais
perdidamente confundido com o soprar do vento
esculpindo cada ruga de uma face desenhada segredo não guardado
e pouco mais


(fotos de mb "Penélope", escultura de Francisco Simões)

sem páginas de uma arte

Esta é a centésima página de uma lição!
Começou no blogue "A Música das Palavras" com as "SEM PÁGINAS DE UMA ARTE" em que eu balbuciava textos e os articulava com os filmes da minha vida, descrevendo o meu amor pela sétima de todas elas, a que cresceu comigo, porque os meus pais já me levavam ao cinema mesmo antes de eu nascer, pela qual eu mentia inocentemente quando na bilheteira perguntavam "esta menina já tem 12 anos?" a menina não tinha 12 anos mas tinha centímetros de sobra e respondia "sim!"
E cumpridas das sem estas cem, é a arte maior da escrita que partilho convosco, porque os da minha tribo já me desfiavam contos ainda antes de eu nascer.
Se as histórias valem a pena porque nos perpetuam é por isso que eu hoje estou aqui com um ser imaginário e imaginado, o Ranfiococo, numa homenagem ao seu criador e aos que mantêm viva a sua memória.
Querem lá entrar comigo?
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se não for cada um de nós a dar asas a uma mão criadora, quem o fará?
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"how many roads you've traveled
how many dreams you've chased
across sand and sky and gravel
looking for one safe place"
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o malmequer foi fotografado por mim,
Manuela

rêverie

quando por fim solto as coisas do dia
largo-as em qualquer canto para que se arrumem acomodem ou simplesmente se esqueçam de mim
sacudo o pó dos dedos e dos olhos
das janelas não sei pois se abertas permanecem e tanto entra o sol como a lua
mas são as sombras essas sim que desvanecem o silêncio que se forma nas esquinas
na hora dos morcegos e dos homens sós que assustam as árvores da floresta sobem aos telhados e às chaminés numa desmesurada altura
do falar das poços de água pouco se sabe mas habitam neles as sereias desconhecidas as primeiras
aquelas que o mar não quer corpo de ave busto de mulher
não é enganador o canto nem tão pouco o espanto que me desdobra a pele quantas sou eu só e tantas outras
memória eco de um tempo alado abismado penumbroso e lento desatento de um princípio assim
limites esbatidos aguarelada mista de estar e já não ser aqui
e se na origem e na extremidade destas horas o brilho da madrugada aluada reconquista os lugares do coração
regresso eu a um degrau da escada que pode ser no tecto ou apenas no chão
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esta é uma página que vai e volta e a noite nem dá por isso
-rêverie

(fotos de mb)
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Manuela Baptista
2010/07/16