os calções
que chegavam aos joelhos feridos esfolados de gravilha e pedra fina tropeços na bicicleta velha
enfeitam agora as coxas torneadas em saudades de ondas e de espuma
claras em castelo farófias doces de canela e casca de limão
onde vão
já foram
que hoje é o primeiro de tantos dias de um verão sem fim e as coisas guardadas têm os seus lados e é preciso virá-las para que se anunciem
a varanda colada à nespereira centenária que tem cem anos e outros cem também teria e os caroços cospem-se contra o vento
para chegar mais longe e ser o campeão da porcaria
os pássaros deixam-se roubar mas ninguém quebra o segredo dos ninhos
porque ser mau não leva a lado nenhum
mas se teimares há uma cadeira no sótão ardente em tecto baixo
a cabeça nem lá cabe solta-se um galo que cantará na madrugada se confundir a luz da lua com a de uma estrela alada
quando vem a tarde quente as pálpebras não têm mão nos sonhos que se escapam escondendo-se nos romances de amor preferidos das páginas coladas pelo tempo
são sempre os mesmos contados de maneira diferente
não jantamos sequer porque o canto das cigarras até dói
e ainda não contámos o que vivemos entre o último e o primeiro dia
aquele em que os lençóis lavados nos falaram da certeza de sermos belos e eternos
e de fazermos tudo o que nenhum de nós fazia
-
esta é apenas uma página de um verão eterno
foto e aguarela de mb