rêverie

quando por fim solto as coisas do dia
largo-as em qualquer canto para que se arrumem acomodem ou simplesmente se esqueçam de mim
sacudo o pó dos dedos e dos olhos
das janelas não sei pois se abertas permanecem e tanto entra o sol como a lua
mas são as sombras essas sim que desvanecem o silêncio que se forma nas esquinas
na hora dos morcegos e dos homens sós que assustam as árvores da floresta sobem aos telhados e às chaminés numa desmesurada altura
do falar das poços de água pouco se sabe mas habitam neles as sereias desconhecidas as primeiras
aquelas que o mar não quer corpo de ave busto de mulher
não é enganador o canto nem tão pouco o espanto que me desdobra a pele quantas sou eu só e tantas outras
memória eco de um tempo alado abismado penumbroso e lento desatento de um princípio assim
limites esbatidos aguarelada mista de estar e já não ser aqui
e se na origem e na extremidade destas horas o brilho da madrugada aluada reconquista os lugares do coração
regresso eu a um degrau da escada que pode ser no tecto ou apenas no chão
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esta é uma página que vai e volta e a noite nem dá por isso
-rêverie

(fotos de mb)
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Manuela Baptista
2010/07/16

de quem ama a noite fria e a luz no mar

quem ouve as vozes das sereias
não sabe dos faróis perdidos entre ondas altaneiras murmúrios e tantos sentidos
possantes profundos delirantes que nos enlouquecem a memória
como se ali tivéssemos sempre vivido nos rochedos pontiagudos e nos outros dissimulados escusos escondidos
que nos rasgam a pele de uma vida
era eu tão pequena ainda e nauseava-me a terra firme
a minha mãe embalava-me num barco e cantava-me canções de marear
assobiava-me sopros de vento e dizia baixinho que as gaivotas não têm medo do mar mas os navios sim são distraídos
saudosos de ser madeira tosca ou aço ou fibra ou pano forte querem uma luz para os guiar
pudesse eu saber quem os ergueu a esses os primeiros
quem carregou as pedras e os vidros quem roubou aos oceanos os promontórios estendidos
desenhou as camas em armários secretos para que o uivar dos monstros não perturbe
o que não é revelado nem no escuro porque escolheu o inseguro para morar
e se eu um dia perder o brilho do olhar é aqui que eu quero ficar
venha apenas um anjo iluminar o vento norte
e açoitar a tempestade em meu lugar

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esta é uma página que gostava de ser faroleiro e até é

(desenhos enfarolados de mb)
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Manuela Baptista
2010/07/12

roberto

quando o sol escalda e a areia é uma brasa na planta dos meus pés, à sombra dos toldos azuis e brancos as riscas faiscam num convencimento horizontal desafiando a verticalidade da luz
dizer que as pálpebras têm o peso de uma toalha molhada não é nada e a cada dez minutos impõe-se um mergulho na água, mas como o poderia dar?
às costas, o biombo de madeira pintado com tantos bonecos quantos os meninos desta praia, o braço direito suporta o peso do velho saco de cabedal que já foi do meu pai e antes dele do meu avô e antes dele não sei de quem seria, na mão direita o chapéu de sol lilás que atrai todos os mosquitos, mas não quero saber gosto da cor e não me ralo com os mosquitos
os bonecos protestam com o calor e eu sinto-os inquietos, cheiram a maresia e agitam-se, ouvem os risos e os gritos de alegria e querem sair antes de tempo
ainda não está na hora… - sussurro, tentando aquietá-los
procurar uma sombra é apenas um sonho vago e largo tudo aqui mesmo, no meio da praia e logo à minha volta as pernas cruzam-se num colorido de calções e fatos de banho, barquinhos à vela bordados nos peitilhos, estrelas do mar nas mangas de balão e às vezes um peixinho encarnado no chapéu
num bater de palmas prematuro, público entusiasta e exigente nunca aceitando a mudança do guião, sabendo de cor cada deixa que não deixo assim entregue ao deus-dará e deus tem-me dado tanto como este mar sem fim que eu amo de tão imenso e um enredo que parece sempre o mesmo e até é
a princesa prisioneira da bruxa má, o rapaz valente, a menina tímida, o homem do cacete e o seu touro Eh touro lindo! porque é que será? os meninos gritam de contentes e os meus robertos soltos do saco de cabedal que já foi do meu pai e antes dele do meu avô, coram de alegria e até os cabelos louros da princesa ficam mais brilhantes do que o brilhante e negro touro lindo que eu quero solto porque livre é o meu soltar
já construí outros de madeira de pasta de papel de trapinhos cosidos e agulhas de lã, o crocodilo verde que assusta os mais pequenos e quer apenas um coração de gente, a bailarina tão distraída que perde sempre as sapatilhas cor de rosa, a avó que voa numa bicicleta de lata, o poeta que recita versos que ninguém quer ouvir, o violinista triste apaixonado pela lua, sei as suas vozes e tão distantes dessas outras de corneta que o meu pai me ensinou, como a ele o seu próprio pai
o sol deu a volta à terra e ela acredita ingenuamente que sim, as riscas dos toldos descansam na areia e o som dos búzios é o da maré-cheia eu sou as vozes dos meus bonecos e os meus bonecos são as vozes de mim, sobrevivemos na memória de um tempo, dentro de um velho saco de cabedal que já foi do meu pai e antes dele do meu avô e antes dele não sei de quem seria mas tenho a certeza que era para mim

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esta é uma página que deu a volta à terra e ela acredita ingenuamente que sim
-I've got no strings

(
a foto de uma ilustração de Lisbeth Zwerger e o desenho são meus)
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Manuela Baptista
2010/07/07

baixa-mar

(foto de f.pedrosa)
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primeiro coloca o pé direito, avaliando o equilíbrio instável de cada rocha, das verdes cobertas de limo não fugia pois gostava de sentir a água que escorria entre o pé descalço e o macio da alga, aveludada, fresca, escorregadia
depois de uma assentada, ganha coragem e o esquerdo junta-se ao direito e assim a par descansam o tempo de um suspiro ou de um caranguejo pequenino avançar cheio de pressa e atravessar-lhe a ponta dos dedos fazendo cócegas e um arrepio
na mão o balde cor do sol, na cabeça o chapéu de pano, bordado com barcos à vela, nuvens brancas e leves de algodão, dos calções grandes demais para as suas pernas pesam os bolsos cheios de conchas
gostava sim de encontrar o peixe palhaço e perguntar-lhe como são as palhaçadas sem respirar, como quando mergulha e fica assim quieto a pensar que o ar do mar é tão secreto que os homens não lhe podem tocar, só os peixes e as anémonas belas mas enganadoras, paralisam as presas com o seu veneno, como o avô fez um dia aos ratos do campo que comiam as cenouras tenras e eles comeram e ele chorou a agonia dos ratos do campo e não quis nunca mais o campo
se encontrar mexilhões tem de ser forte mas não é, há quem goste deles de cebolada e depois ouve-se um chupão e as pessoas sujam guardanapos de papel e as camisolas novas com três botões e uma gola, as lapas e os ouriços vivem na poças menos fundas e não gostam da maré baixa com medo de se afogarem na areia
às vezes cai e diz au! os calções ficam molhados e vergonhosamente marcados de verde como se tivesse levado um açoite ou escorregado em puré de espinafres
depois sonha que se perde na superfície lunar e não na praia e de cada bolso solta-se uma concha e uma pedra cinzenta é das cinzentas que ele gosta, redondas para fazer dançar à tona de água, três vezes ou quatro ou mais e quando for maior vai ganhar ao miúdo feio que lhe bate quando ninguém olha, que lhe chama palito como as batatas fritas lá de casa, não as da senhora Maria que gosta dele e até lhe oferece um papel para ele limpar o nariz
na maré-baixa há sempre o cheiro forte a maresia e uma neblina no desenho ténue entre o céu e o mar
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esta é uma página que deixa a descoberto aquilo que mal se vê
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(desenho de mb)
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Manuela Baptista
2010/07/02