adagietto

" conte-me o entardecer que quando se atarda anoitece"
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foto e texto de intemporal a quem dedico esta página
(desenho de... quem há-de ser?)
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Manuela Baptista
2010/06/30

da praia-mar


entre o ficar quieta e mexer um nó de vento
vai a medida certa entre o verão e um pensamento
abrir entreabrir descerrar esta janela
assim como quem estende uma toalha amarela
enamorada de um grão de areia em pé descalço
o nariz ao sol intenso desejoso de bebidas encarnadas
de camarões algas e pedras redondas embaladas
em ondas de espuma no marulhar das águas frias arrepiadas
dessas gosto eu e dos rochedos tristes a inventar segredos
e eu tão levezinha fútil e descuidada
como uma salada em vinagreta doce e erva-fina
coração cigano suspirado e de sons embriagado
desenhando na palma da mão a minha sina
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toalhas amarelas e bloody mary em pastel a óleo
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Manuela Baptista
2010/06/25

oração de uma gaivota branca

senhor dos mares e dos peixes
das algas e das anémonas dos cavalos marinhos tão pequenos das tartarugas e das baleias
senhor das correntes e das tempestades
que moldaste o meu inquieto coração como quem molda um coral frágil
quebrado a qualquer instante pelo agitar de uma simples onda
na inquietude que me deste
como descubro eu a tua face no reflexo perdido das cidades subaquáticas aquelas que apenas existem na minha imaginação
porque me fizeste branca na cinzentez pálida das minhas irmãs contentes com o vento sul e o peixe miúdo
eu que tenho a ousadia de amar um barco solitário e daria a minha vida para ser a proa de um navio
fantasma ele fosse porque eu sei do outro lado do dia
aquele de noite vestido enquanto todos dormem não durmo eu
os olhos colados a um horizonte maior pois é aí que nascem todas as estrelas
aquelas que os pescadores conhecem e as outras
o cruzeiro do sul a estrela da manhã quem sabe da tarde
sei eu se amasse dois barcos solitários o que faria
senhor das rochas e dos golfinhos das ostras e das pérolas
que enfeitaste o meu pescoço branco com um colar de orvalho da manhã
branco como eu
senhor das gaivotas cinzentas
dá-me a imperfeição de um tempo numa praia de areia dourada
onde eu seja o mar o barco e a proa
e a certeza de uma humanidade celebrada







os desenhos a carvão são meus
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Manuela Baptista
2010/06/20

quem sabe o que se esconde em erva fina

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quem sabe o que se esconde em erva fina
trepadeira fiandeira em pensamento
tanto vai como vem neste momento
instante de construção ruída
desmoronada pirâmide de tempo
sem ter sequer o som de um instrumento
para agitar uma doce despedida
.
pois se me sento
é tão só para ficar assim estendida
com os olhos enroscados numa brisa
e os dedos colados às estrelas
que se agitam numa escolha definida
entre astros e planetas não sei onde procurar
aquele de lilás vestido
enfeitado de brilhos de água pura
em pétalas de abelhas e zumbidos
.
tenho um canto um encanto em contracampo
um desejo de borboletas escondidas
o que se solta do medo qual segredo
esboços de seda e alfazema pura
campos de memória desenhada
narração ingénua e colorida
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a foto e o desenho são meus
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Manuela Baptista
2010/0616