Depois sentavam-se, um de cada lado do poço, ela metia a mão no bolso devagarinho, para que o instante não fosse apenas um segundo, tivesse a consistência de uma casca, de uma semente, de uma pele castanha avermelhada, de uma eternidade reencontrada.
Ele entrava no jogo, porque era de um jogo que se tratava, de sedução, de encantamento, porque ambos sabiam como terminava, mas que importância tem o fim se existe tanto pelo meio? Ela sussurrava "Chiquinho..." e num golpe certeiro atirava-lhe um amendoim e nesse mesmo instante ele apanhava-o, sem mudar de posição, a mão aberta, a linha invísivel que une o objecto ao seu apanhador, caçador de frutos quentes, trepador de ramos e de muros.
Chiquinho tinha um dono viajante, ladrão de animais raros, exibia-os como um troféu mas abandonava-os por aí ao sabor de casas de férias e outras, enjoado da vida, ansiando a próxima partida, desligado de quem capturava sem piedade. O macaquinho era pequenino como a menina dos bolsos e tinha saudades de ser pequenino e gritar livre atrás da mãe, morder os irmãos numa algazarra doida, ser aquilo que nunca mais lhe permitiram que fosse. Tinha frio no Inverno, e não reconhecia aquele cheiro de terra rural longe do mar e a menina sentia saudades da praia e não queria saber de uvas e de vindimas, nem de carroças chiadeiras, nem do sufoco de um dia de Verão!
Por isso eram tão amigos e os olhos tristes de Chiquinho apenas se incendiavam com a sua presença e a sua voz fininha de menina, com tantos bolsos e em cada um qualquer coisa de espantar. E ela inventava-lhe uma história de fugas em que sonhava enviá-lo de volta aos lugares onde ele retomaria a sua vida interrompida de trepador de ramos e de sonhos, de chuvas intensas e de eterno e húmido calor.
Às vezes nas tardes paradas, gritavam os dois assustando os pássaros ou os morcegos ao pôr do sol e a menina inventava só para si, uma outra história de países distantes.
Nunca se tocaram. Entre os dois existia um poço, fundo, onde o eco brincava e brincando assustava.
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encontrei-o muitos anos depois num país de monção e tenho a certeza que me reconheceu
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Manuela Baptista
2010/06/12
