pesponto

de magnólia doce e fresca em memória perfumada
se chover compro-te um gelado de limão

o frio que aquece queima o coração
não te esqueças de me bordar no peito
a ponto cruz pesponto pé de flor a cheio
tão vazio a deitar por fora chá preto
ou branco tanto faz
eu apenas queria ser capaz
de cantar com um raminho de rosas
e ser um boneco pequenino
e cuspir nas nuvens como um deusmenino
desatinar amores e outras dores
fazer-te rir ou até sorrir
apanhar pirilampos nas esquinas
dos campos amarelos
tanto verde já cansa não é mesmo
e se eu espalhar papelinhos pelo ar
tu vais ver como se transformam em rifas de feira
tão sem eira nem beira
como a loucura de uma dança primeira
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esta página tem o sentido que lhe queiram dar
mas as fotos são minhas
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Manuela Baptista
2010/05/29

paisagem sem peixes

a hora do lobo é aquela que tememos
tremida a lua em cortinados de telhas
fantasmagóricas sombras desenhamos
nas árvores que de sombrias sabemos
.
tão de cor como de cor nós somos feitos
aguarelas que de água são brancura
em sentimentos de ternura liquefeitos
na escuridão de um poço de lonjura
.
esconjuramos o medo que nos aperta o peito
murcham espectros nas rosas perfumadas
e descerrando devagar as pálpebras cansadas
.
escrevemos contos nas estrelas já tingidas
em brilhos de tesouros bem guardadas
pois pétalas e folhas são as jóias preferidas

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esta é uma página aluada
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( fotos de mb)
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Manuela Baptista
2010/05/26

eu vou

"eu vou, onde as minhas histórias me levam"
(Milos Forman)
e
quando lá chego
espanto-me!
(eu)
hoje estou aqui

Obrigada Paulo!
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Manuela Baptista
2010/05/25

sem pressa




era uma vez uma terra
construída devagar tinha dez casas pequenas de telhados inclinados
para que o vento a soprar não as viesse quebrar nelas deslizava o sal vindo do lado do mar


era uma menina quieta deitada na relva fresca tão calada encimesmada
sonhada por um escultor que a escreveu em pedra tosca sem um menino de prata para a fazer rir ou dançar


e quando os barcos parados ali mesmo ao pé da areia
sentiam que nas correntes das conchas e dos corais apenas uma baleia sussurrava essas canções
em histórias de marinheiros perdidos sem luz nem norte


porque sopra o vento forte
se as gaivotas de graciosas amaram tanto navio sem nunca perder o pio
que a coragem não se alcança na altura de um só grito em concerto desfasado de notas desencontradas
como um pescador aflito tão saudoso de ter tecto feito de estrelas cadentes candentes incandescentes


nossa senhora do mar dá-me a graça de pescar um cardume de brilhantes
peixes e caranguejos cavalos marinhos também
para eu galopar sem fim nas ondas tão altaneiras que por mim vêm morrer devagarinho na praia


e tão fresca está a noite
que a menina já esqueceu a tristeza de uma quadra segredada bem cantada
e só queria uma rosa e uma dança quieta como ela


e o rapaz de prata
com uma caixa de lata que tem lá dentro um tesouro feito de búzios pequenos
para pôr no seu pescoço em noite de lua cheia







esta é uma página sem pressa quase terra quase mar



(os meus desenhos de cadernos de viajar)

Manuela Baptista
2010/05/22