do lugar onde estou

a fé tem muitas manifestações e no silêncio que encontramos entre o ruído da multidão, há tanta voz que fala manso e permite a entrada da paz no seu coração!
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do lugar onde estou já me fui emboramas deixo-vos aquelas que nestes dias me tocaram:
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esta é uma página que desejo silenciosa,
por isso retirei e apenas hoje, os comentários
e
...o desenho é meu...
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Manuela Baptista
2010/05/11

vaguear

Na manhã de um dia espreguiçou-se. Primeiro o braço direito, a mão bem esticada em direcção ao céu. Apanhou um pássaro azul de asas brancas, quieto e espantado pousado no dedo indicador. Depois o braço esquerdo tocou ao de leve, tão leve, na agulha de um pinheiro manso. Azul é o pássaro que indica o mar, manso é o barulho das ondas.
Tantas saudades do fundo, onde o ar escasseia, o zumbido nos ouvidos assobia, a pressão no peito aperta como a paixão sem tino, desatinadamente solta em cada respirar. Sufoco que se desprende mal ouve um tilintar, pode ser peixe, sereia ou um marinheiro perdido desencontrado de um barco à vela ou de papel, marinheiro pequenino como um menino, com o medo de um lado e a coragem do outro, enfrentando as rochas negras, pontiagudas, que rasgam como facas o casco das embarcações, sempre à espera de um defeito, de uma falha na junção das tábuas, de um suspiro por onde passam as correntes.
Às vezes, os marinheiros tapam os ouvidos com as mãos, tão cansados estão dos chamamentos da terra " vem!! nasceu mais um filho do teu ventre e a festa está aqui à tua espreita, os padrinhos perguntam tanto pela rota do teu barco e querem oferecer uma colherinha de prata, um fio de ouro fino para o teu filho prender e não escapar para as lutas deste mundo e ele é tão pequenino e a tua mulher a chorar com saudades de ti e das tuas canções de marear...traz um mapa desenhado a lápis grosso para eu te encontrar!"
Na tarde desse dia descalçou-se, deixados os sapatos sei lá onde, escondeu-se na torre mais alta e fria e desejou ser pedra de um castelo fazer parte de uma construção precisa, milimetricamente calculada, onde tudo encaixa e justifica a visão perfeita de tanto mar. Apenas os castelos conhecem os segredos da história, o trotar dos cavalos de um rei, os suspiros das princesas-rãs porque os sapos são tão feios de beijar.
"Mãe dás-me pão com manteiga e mel? eu sento-me aqui ao pé do lume a imaginar os dançarinos das chamas, vestidos de fogo, sem sapatos como eu, e depois lambo os dedos para não sujar este vestido de linho que me vestiram de manhã a cheirar a arca de pinho, a rendas e bordados e a sabonete de alfazema. Lá fora gritam os meus irmãos, excitados em brincadeiras de espadas, não imaginam a dor de um corte fundo que trespasse o coração. Guerrear porquê?"
E ela ouvia "a guerra não muda, é sempre a mesma guerra, de espada, de pólvora, de aço, de qualquer coisa que envenena o ar, que nos transforma em pedaços, repartidos, doloridos, ou nos deixa inteiros, intactos mas vazios de ar." Insistia "e a paz?" "a paz é o teu vestido branco e esse fogo no olhar!"
No entardecer desse dia sentou-se, à entrada de uma tenda branca e chegaram por um caminho de incontáveis estrelas tantos os luzeiros que há no céu e não foram precisos archotes nem velas de cera porque derretidos já estavam os corações e falaram tantas línguas porque estranhos até eram, mas quando ouviam sabiam exactamente o que diziam porque a torre do castelo não era de babel.
Na noite desse mesmo dia enrolou-se, como fazem as ondas em tempestades de vento e vagueou cheia de vagar.

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esta é uma página de castelos e de ar
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(desenhos a pastel e devagar)
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Manuela Baptista
2010/05/08

cadernos de viajar

não tem de ser fundo para que as mãos possam lá chegar leve é a qualidade que lhe assenta
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primeiro a camisola de contemplar estrelas talvez do mar
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a rede de soltar borboletas a caixa para guardar o som das cigarras não sei se as há tão longe quero estar
o caderno das argolas pretas onde imprimo os sentidos do vento lápis para quê
na terra existem todas as cores e os desenhos tenho-os só de me lembrar
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por fim para não se amarrotar
o meu vestido feito de papoilas que há tanto é meu e já não sei se é de papoilas se é apenas ar
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estas viagens são minhas
enganadoramente sem sair do lugar
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(as papoilas fotografadas são de f.pedrosa
as desenhadas a pastel são minhas)
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Manuela Baptista
2010/05/04

vozes últimas

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entre risos abriam-se as janelas e as cortinas fugiam espantadas.
das portas ninguém sabia as chaves que fechavam
lá fora a relva crescia desencontrada das flores e a terra e o baloiço baloiçavam
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cheirava a lavanda e a chá de tília
as torradas inundadas de manteiga e os quadrados de marmelada escondiam-se medrosos em bolsos de ladrões de quase nada
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na chaminé cabia sempre um sonho ou no sótão onde o vento assobiava
assustando papões
homens feios
lobos
aves negras
dragões da sorte
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porque o medo ama a madrugada
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nem sei porque cresci
se deus quiser amanhã vamos ao zoológico e se deus não quiser porque não vamos?
não se desafia deus
e até fomos
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éramos tantos e a casa cantava
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para a minha mãe
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(o desenho aguarelado é meu)
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Manuela Baptista
2010/05/01