VOZES II - a minha

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se em mim cantasse apenas uma rosa
folheada desenhada em cada pétala
desencantaria em outro lado do espectro
.todas as cores de uma infinita paleta
nitidez de luz em solitário prisma
íris frágil e espantada de um poeta

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em dia de festa, esta é uma página em fundo rosa
com dois presentes lindos que agradeço e aqui quero partilhar!!
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(fotos pessoais)
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Manuela Baptista
2010/04/30

VOZES I - verde em fundo seco

Às vezes perco-me e gosto de me perder. De manhã bem cedo ainda a casa dorme e os sonhos repousam quietos no tapete, a gola da camisola aconchega-me a garganta arranhada, emaranhada na loucura dos dias, a garrafa de água baloiça contente dentro do saco, sequiosa de outras sedes que não as minhas, saio lançado na frescura nova da quase madrugada, os olhos felizes de um outro olhar. Não espero nada e aquilo que possa encontrar cabe inteiro nas minhas mãos, nos meus bolsos e nos meus ouvidos. Uma pedra redonda da praia, uma folha seca de plátano, o chilreio de um bando de andorinhas.
Como uma criança sequiosa de aventura, aperto com força o guiador da minha velha bicicleta, as minha botas de montanha pedalam sozinhas com o ritmo e a cadência certas, cheguemos nós onde chegar, porque o que eu mais desejo é que esse chegar, tarde sempre e ainda! Os caminhos, não os escolho, estão por aí espalhados e quietos e na claridade que se começa a formar, vislumbro já enormes tufos de malmequeres amarelos e sei que as papoilas não andam por aqui tão perto do mar.
Latente é o meu desejo de a reencontrar, no meio de outros caminhos, desvios e curvas, conjunto de pontos que me darão a sua imagem, revelação fotográfica de uma floresta de carvalhos reconstituída até à exaustão na minha memória. Não foi um acaso, perdi-me e gostei de me perder. A humidade invadia todas as coisas e na quietude imensa de uma imensa sombra, o encantamento daquele lugar tomou conta de mim e senti o respeito centenário de cada ramo, sagração de uma Primavera perfeita. A mais bela das árvores tinha mais de quinze metros de altura e o diâmetro do seu tronco era enorme assim como o da sua copa onde rebentavam centenas de flores. Não respirei, porque não conseguia respirar, sufocado em espanto e admiração pousei no chão a bicicleta, libertei-me de sacos e presilhas, encostei-me ao seu tronco e deslizei até ficar sentado no chão.
Na minha cabeça latejante, latejava a seiva que a percorria e ouvi-a em histórias e contos, percorri as cidades medievais que ela edificou, os barcos que construiu, as camas que adormeceram os sonos das princesas, as mesas torneadas onde se negociaram as mortes e as vidas.
Sei que me disse "eu sou como tu! gosto de baixas altitudes, de oceânicas paisagens, não tolero frios intensos e para mim a água é o que me mantém à tona" e eu só pensava "como é que eu, assim tão pequeno e frágil, oiço o coração do mais belo dos carvalhos desta floresta?".
Depois não sei. Escureceu, tive frio e sede e o caminho de volta não o identifiquei nunca mais. Procuro-o com uma leveza no peito, pois ainda não sei tudo o que quero saber.
São tantas as vezes que me perco e gosto de me perder.

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e se tivéssemos a beleza de um verde em fundo seco?
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(fotos de fernando pedrosa)
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Manuela Baptista
Estoril, 27 de Abril 2010

em seda solta

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ainda a noite era escura
a lua distante e fria
o tambor calado estava
na madrugada acanhada
o medo não compra a sorte
de sermos nós a escolher
a querer o que fazer
a dizer estamos aqui
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a mim não me deram nada
nem um pedaço de pão
as papoilas encarnadas
nasceram na minha mão
como os cravos desgarrados
em espingardas cor de rosa
já cansado o pensamento
de ser livre como o vento
.
se eu fosse um barco sozinho
num mar de tanta gente
afundava o coração
em alecrim e jasmim
depois escrevia um grito
a cortar a escuridão
.
a suster no peito inchado
o bater do coração
a alegria de lançar
um papagaio de seda
e cantar sempre baixinho
a letra desta canção
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pela memória da História feita das nossas histórias
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pintura de Susana
óleo sobre tela
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Manuela Baptista
nesta noite de Abril
depois de tanta noite em Abril

segundo andamento três tempos

O rapaz da concertina entra sempre na mesma estação, sorriso rasgado, os olhos brilhantes, as calças coçadas, os ténis ligeiramente descosidos junto ao dedo grande do pé direito. Diz " bom dia! e que belo seja este dia minhas senhoras e meus senhores, se estiver ao meu alcance, alegria venho dar e para ser bem feliz comigo venham dançar!"
As pessoas encolhem-se nos seus assentos, resmungam palavras soltas, colam os olhos às letras do jornal e mais tarde no emprego alguém dirá "engraçado! tens um A colado ao olho esquerdo..." ou então fixam um ponto longínquo no horizonte, assim do tamanho de uma mosca, mas tão interessadas se mostram que ninguém diria que o horizonte é aquela noção vaga de querer fugir, não ouvir, partir...e pensam "grande chato, este puto! e ainda faltam trinta minutos para sair daqui..."
O rapaz, indiferente aos pensamentos que provoca, até porque os pensamentos não se vêem mas sentem-se, pega na sua concertina e ataca Cielito Lindo, O Sole Mio e termina invariavelmente com Granada tierra soñada por mi.
O comboio tem três andamentos e muitos outros tempos. Ao primeiro andamento as crianças entram ensonadas, meio adormecidas, encostam a cabeça no ombro dos pais e continuam a sonhar os sonhos interrompidos por despertadores violentos, por leites ricos em cálcio, por cereais integrais com sabor a chocolate; as senhoras ainda caladas pintam os lábios em tons de carmim, esborratam o risco das pálpebras ao mínimo balancear, mas imaginam-se bonitas e elegantes e sorriem para os cavalheiros de gravata e fato completo. Os adolescentes escorregam pelos assentos, deixam cair as mochilas pelos corredores e enviam, calados, os mais importantes sms do dia. As raparigas tristes, olham tristes o mar azul e suspiram tristes as tristes histórias de amor.
Ao segundo andamento, o sol entra a rodos por todas as janelas, o comboio suspira de calma e tranquilidade e as pessoas sentem o cheiro do mar colado ao rio e olham a outra margem que ninguém sabe explicar porque é que fica do lado de lá, pois se esta é a nossa margem a que fica do lado de cá!
Ao terceiro andamento o rapaz entra e com ele o crescendo de sons, agitam-se as partículas de ar quente, os átomos de oxigénio, de nitrogénio e de dióxido de carbono fazem estalar imperceptivelmente a napa dos assentos e os dedos ágeis do rapaz da concertina, esvoaçam pelas teclas como pássaros excitados com migalhas de pão!
E em cada tempo, as pessoas do comboio estão certas da sua presença e se ele se atrasa na estação terceira, ficam apreensivas e dizem, fingidas "que sorte, hoje temos paz!" mas lá bem no fundo pensam "que pena! afinal o rapaz até toca tão bem..."e arrastam-se num andamento incerto.
Às vezes, o rapaz da concertina toca uma valsa alegre e nesse instante todos se esquecem que para cada chegada há sempre uma partida, uma despedida, um lugar a menos, uma cadeira a mais e trauteiam um, dois, três! um, dois, três! e soltam as vogais coladas aos olhos e desenham nos vidros com os batons carmim e cantam nos sonhos dos meninos adormecidos ao colo dos pais e as raparigas tristes dançam nos corredores onde as mochilas escorregam de tanto sorrir.
E que belo dia, seja este dia.
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esta é uma página fingida de valsa, ao som de uma concertina
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(fotos pessoais e desconcertadas)
Manuela Baptista
Estoril, 20 de Abril, terça feira à noite