sexta feira à noite

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luz doce tranquila e palpitante
na perspectiva difusa de um recanto
casulo de madrugada adormecida
buscando em pássaro o seu próprio canto
. liberta-me disse o pássaro não sei respondeu
se é condição desassombrada de um instante
desenrolando as asas sobre o infinito
ardendo em lume brando brando o espanto
.aprisiona-me apenas o sentido do vento
desobriga-me de mim e deste encanto
reconhecida imprecisão de uma linha
desenhada a ferro fogo e água fria
.transgride-me este feixe que alumia
na visibilidade de um ser ave e já não ser
cativa-me para que cativado voe
na entrega solitária de um querer
.liberta-me! disse o pássaro
não sei - respondeu
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pássaros tristes
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apenas fugimos do ruído dos dias
se libertarmos um pássaro
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Manuela Baptista
16 de Abril, sexta feira à noite
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(fotos pessoais dos pássaros de fogo)

VELOZ

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Era tão ligeira, tão rápida, que as pessoas coçavam o nariz quando ela passava e diziam "hoje o ar está cheio de mosquitos..." às vezes deixava para trás um rasto de pó, mas este sinal era atribuído ao movimento do vento ou às partículas de pólen, abundantes em primaveras quentes e tardias. Gostava de longas rectas e de curvas apertadas, aí guinchava um pouco e assustava-se com medo de deixar cair qualquer coisa, mas a emoção da pressa logo a empurrava para a frente, fosse a frente um qualquer lado desligado do espaço e perdido no tempo, ou um outro lado reencontrado a tempo.
Nas incontáveis viagens que fizera deixara sempre um pedaço de si, uma cor, um pingo, um traço, mas aquilo que trazia na memória, fazia dela a heroína de todas as histórias, aquelas que se contam às estrelas ou a um único e solitário amigo, o que é exactamente a mesma coisa.
Já tinha sido roubada e sabia quantos segundos tinha passado longe de casa, cheia de saudades de um muro coberto de musgo, de um campo de silvas carregadas de amoras, de uma mão que lhe sossegasse o bater acelerado no seu peito, de uma voz que lhe cantasse canções de caminhar.
Não gostava de crianças, frágeis, levezinhas, sempre a cair, a magoá-la, a darem-lhe pontapés, a gritarem aos seus ouvidos. As crianças gostavam dela.
Não gostava de camiões, pesados, compridos, altos, malcheirosos, barulhentos, sempre a buzinar. Os camiões gostavam dela! E da sua ligeireza e das notas alegres da sua campainha.
Às vezes sentia um arrepio quando vinha a chuva forte, a humidade das manhãs de nevoeiro, pensava na ferrugem que a poderia atacar sem piedade e a condenaria a uma penosa imobilidade, porque quem conheceu um dia a vertigem e a emoção de ser veloz não se contentará jamais com a lentidão de uma pegajosa lesma! Temia o abandono e a morte prematura, atirada desmembrada para uma cave sem janelas e sem ar. Mas bastava um assobiar alegre ou um pingo de óleo no seu coração, para lhe restituir a confiança no seu companheiro de todas as horas e assim lançada na ousadia de cada descoberta, sonhava que voava e que uma flor se abria em cada aro das suas rodas.
E não existia mais nada à superfície da terra. Apenas aquela terna canção de caminhar.
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quando alguém nos recorda a bicicleta partida que ficou longe no tempo
companheira das nossas mais aventurosas viagens
sentimos as saudades imensas das peças que vamos deixando para trás
mas que acreditamos ter reunidas bem à tona de água
no mais profundo mar dentro de nós

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(fotos pessoais dos todo-o-terreno cá de casa)
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Manuela Baptista
Estoril, 12 de Abril 2010

estranho singular

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as casas estranhas são as estranhas casas
desenhadas com o pensamento
as varandas trocadas os telhados de águas tantas
perdidos nas chaminés
janelas de quatro pés que parecem ganhar asas
se por elas passa o vento
tão soprado tão dormente de segredos escondidos
nos quartos e nas gavetas
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nas cúpulas e nas mansardas nas portadas abertas
há sempre um pano de pó
que faz agitar o tempo e uma menina escondida
na varanda mais comprida
veste um vestido de seda macia como uma flor
um amor um tambor que acorda a noite escura
chamamento de alguém triste
com medo da solidão
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ignorando o espaço marcado entre a areia e o torreão
solta-se um grito aflito
na maré baixa o mar cada vez mais perto
os navios que carregam as cargas que ninguém quer
teimosos como gaivotas esfomeadas
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estonteadas de sal de pérolas perdidas de coral
de correntes que as soltam longe e perto
e brilham como as estrelas candentes incandescentes
e as casas estranhas em carícias bem amadas
abrem a boca de espanto
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demi lune
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singular é uma porta que range dentro do coração
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(os desenhos são meus, as casas não)
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Manuela Baptista
Estoril, 8 de Abril 2010

sereno é um pássaro

Quando o branco inunda todas as coisas e o amarelo dos limões se desfaz em gelo e açúcar mascavado, vejo que os grãos de pó desenham um caminho entre a janela e o chão e que a quietude da casa navega parada com vontade de se agitar.
Amanheço em sonhos achocolatados, amendoados, arrumada a Páscoa no fundo do peito e ainda o sol não acariciou a chaminé mais baixa, dou um salto na cama, a cabeça tão acordada como um relógio de cuco, tão louco e tão maluco com vontade de cantar!
O cheiro a café acabado de fazer lança a confusão na caneca mais alta, preto, amargo, a fumegar e na varanda, de onde apenas e tão somente se avista o verde, é o verde que visto assim só de o avistar.
Pássaros serenos fizeram o ninho no candeeiro da entrada e agora ando em bicos de pés, falo baixo, finjo ser estátua para não os perturbar, na emoção sentida de os saber ali, frágeis, pequenos, leves nas inexistentes penas, nas promessas de voos, no desejo do calor do Verão ou das papoilas em campo de azedas amarelas como os amarelos limões. E devagar, abro as gavetas dos guardanapos e lanço-os pelas janelas, pois basta apenas uma brisa suave para que partam, descobrindo que são mais leves do que o ar. Limpo o pó aos livros e guardo no bolso os personagens de que eu gosto mais e troco-lhes as frases para que nunca apanhem a doença do tédio e saibam de cor as canções de amor eterno, o cântico dos cânticos, as constantes perguntas de um perguntador, as dúvidas de um sonhador, os sonhos de um poeta. Lavo as paredes com flor de laranjeira e nelas posso desenhar caminhos e pontes, árvores e mares e ondas, marés e barcos. E os desenhos adormecidos em capas de cartão, pinto-os de novo de olhos fechados e penduro-os no quintal para que não sequem nunca e cheirem a relva acabada de cortar.
Deito no lixo a tristeza de uma flor por abrir, a cobiça de um vestido novo, a inveja de um olhar, a ausência de uma razão qualquer e assim tão descuidada, tão desavisada, encontro a tranquilidade de um dia. Porque sereno é um pássaro.

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esta é uma página que acordou cedo demais
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Manuela Baptista
Estoril, 4 de Abril 2010