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Esta é uma página vadia, presa à terra pelo fio de uma telha.
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Vissi d'arte, vissi d'amore - I lived for my art, I lived for my love
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Manuela Baptista
Estoril, 16 de Março 2010
-Estás gordo!- gemeu baixinho-não te importas de te chegar um bocadinho para lá?
Gaspar deu um salto, despertado de repente de um sono profundo ainda perdido entre trincas e pâtés, já que de carapaus não percebia nada, a cauda eriçada, os pêlos do nariz esticados, atitude de combate e de bravura felina!
Ela riu-se e estalou ao sol.
-Não é lá muito educado ofenderes-me! Já reparaste como o meu pêlo é brilhante e os meus dentes fortes e aguçados? Eu sei que tenho uns quilos a mais, mas confinado como estou a quatro assoalhadas...proibido de entrar em duas delas porque afio as unhas nos sofás...-disse o gato.
-Se fosses esperto davas uma fugida, ias até ao porto de madrugada, roubavas um peixe ou dois, passavas pelo parque, afiavas as unhas e trepavas a uma árvore, miavas ao luar...sentias-te logo outro gato!
Ela riu-se novamente e Gaspar sentiu um toque de cristal dentro de si. Afastou-se ligeiramente e olhou-a, um pouco desalinhada, metade vermelha, uma parte de ocre, outra da cor usada pelo tempo para marcar os que lhe são fiéis, umas pinceladas de musgo, outra de líquenes, tosca, mas bela.
-Como é que tu sabes tanta coisa aqui parada há tanto tempo?-perguntou.
-Parada? Quieta às vezes, sim! Mas não sentes como a terra gira, como a estrutura do telhado range e como posso olhar ao longe e observar o que os outros não vêem?
Gaspar fez um focinho de quem não sentia nada daquilo e então ela contou-lhe das vozes que o vento lhe trazia, das pequenas sementes que aterravam por umas horas perto de si, das lagartixas que lhe faziam despudoradamente cócegas, dos ratinhos que escondiam migalhas de pão nos forros da casa e da chuva suave que a lavava, do granizo que a espancava, da suavidade da neve que a fazia adormecer. E de um menino magrinho, que todas as noites se esgueirava pela janela de um sótão e com uma lanterna pendurada ao pescoço gostava de contemplar as estrelas e de adormecer com os braços cruzados atrás da cabeça.
O gato pasmava com as coisas que ouvia e ela disse:
-E isto, não é metade daquilo que eu sei!
Uma noite, Gaspar ganhou coragem e com a ajuda do menino magrinho com olhos de estrelas, saltou de telhado em telhado e com o coração aos pulos correu pelas ruas desertas, foi até ao porto de pesca, esperou a chegada dos barcos, sentiu o cheiro a peixe fresco e a mar, enfrentou duas gaivotas brigonas, mas foi bem sucedido no roubo do seu primeiro carapau! De regresso a casa não se esqueceu de trepar a duas ou três árvores, de soltar as suas garras de fera e tão louco estava com esta aventura que deixou caída a sua coleira encarnada com falsos gatinhos e espinhas de peixe. De manhã, quando o dono abriu a porta ao leiteiro, ouviu-o dizer:
-Ia jurar que tinha deixado o gato dentro de casa...
A aventura de Gaspar repetiu-se outras noites e quando se encontravam nas tardes de sol em cima do telhado e ela estalava contente de o ver, ele sentia-se o gato mais feliz do mundo e trocavam histórias de vadiagem e sabiam os dois quantas andorinhas já tinham chegado, quantos melros a tinham bicado e acreditavam que a Primavera era a eternidade de todas as estações.
Mais tarde na noite, se existisse alguém suficientemente sensível para ansiar pela solidão dos telhados e conhecer o caminho das estrelas, poderia ver um menino adormecido com os braços cruzados atrás da cabeça e um gato enroscado numa telha, ligeiramente desalinhada, pincelada de musgo e de líquenes. Tosca, bela.
-Gaspar deu um salto, despertado de repente de um sono profundo ainda perdido entre trincas e pâtés, já que de carapaus não percebia nada, a cauda eriçada, os pêlos do nariz esticados, atitude de combate e de bravura felina!
Ela riu-se e estalou ao sol.
-Não é lá muito educado ofenderes-me! Já reparaste como o meu pêlo é brilhante e os meus dentes fortes e aguçados? Eu sei que tenho uns quilos a mais, mas confinado como estou a quatro assoalhadas...proibido de entrar em duas delas porque afio as unhas nos sofás...-disse o gato.
-Se fosses esperto davas uma fugida, ias até ao porto de madrugada, roubavas um peixe ou dois, passavas pelo parque, afiavas as unhas e trepavas a uma árvore, miavas ao luar...sentias-te logo outro gato!
Ela riu-se novamente e Gaspar sentiu um toque de cristal dentro de si. Afastou-se ligeiramente e olhou-a, um pouco desalinhada, metade vermelha, uma parte de ocre, outra da cor usada pelo tempo para marcar os que lhe são fiéis, umas pinceladas de musgo, outra de líquenes, tosca, mas bela.
-Como é que tu sabes tanta coisa aqui parada há tanto tempo?-perguntou.
-Parada? Quieta às vezes, sim! Mas não sentes como a terra gira, como a estrutura do telhado range e como posso olhar ao longe e observar o que os outros não vêem?
Gaspar fez um focinho de quem não sentia nada daquilo e então ela contou-lhe das vozes que o vento lhe trazia, das pequenas sementes que aterravam por umas horas perto de si, das lagartixas que lhe faziam despudoradamente cócegas, dos ratinhos que escondiam migalhas de pão nos forros da casa e da chuva suave que a lavava, do granizo que a espancava, da suavidade da neve que a fazia adormecer. E de um menino magrinho, que todas as noites se esgueirava pela janela de um sótão e com uma lanterna pendurada ao pescoço gostava de contemplar as estrelas e de adormecer com os braços cruzados atrás da cabeça.
O gato pasmava com as coisas que ouvia e ela disse:
-E isto, não é metade daquilo que eu sei!
Uma noite, Gaspar ganhou coragem e com a ajuda do menino magrinho com olhos de estrelas, saltou de telhado em telhado e com o coração aos pulos correu pelas ruas desertas, foi até ao porto de pesca, esperou a chegada dos barcos, sentiu o cheiro a peixe fresco e a mar, enfrentou duas gaivotas brigonas, mas foi bem sucedido no roubo do seu primeiro carapau! De regresso a casa não se esqueceu de trepar a duas ou três árvores, de soltar as suas garras de fera e tão louco estava com esta aventura que deixou caída a sua coleira encarnada com falsos gatinhos e espinhas de peixe. De manhã, quando o dono abriu a porta ao leiteiro, ouviu-o dizer:
-Ia jurar que tinha deixado o gato dentro de casa...
A aventura de Gaspar repetiu-se outras noites e quando se encontravam nas tardes de sol em cima do telhado e ela estalava contente de o ver, ele sentia-se o gato mais feliz do mundo e trocavam histórias de vadiagem e sabiam os dois quantas andorinhas já tinham chegado, quantos melros a tinham bicado e acreditavam que a Primavera era a eternidade de todas as estações.
Mais tarde na noite, se existisse alguém suficientemente sensível para ansiar pela solidão dos telhados e conhecer o caminho das estrelas, poderia ver um menino adormecido com os braços cruzados atrás da cabeça e um gato enroscado numa telha, ligeiramente desalinhada, pincelada de musgo e de líquenes. Tosca, bela.
Esta é uma página vadia, presa à terra pelo fio de uma telha.
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Vissi d'arte, vissi d'amore - I lived for my art, I lived for my love
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Manuela Baptista
Estoril, 16 de Março 2010


