RECONTO E PARTILHO UM CONTO

Deixava palavras por todo o lado, em cima da mesa, no parapeito da janela, no banco do jardim, dentro dos bolsos. Entrava sorrateira, quase invisível, nos blogues dos outros, nas conversas dos outros e ria-se e fazia-os rir e contava uma história e recontava a história dos filmes da sua vida e de quando era pequenina, tão pequenina e a terra onde morava era tão grande, com o mar ali ao fundo sempre ali ao fundo, as algas, os caranguejos, os sargos, os meninos doentes que apanhavam sol para ficarem curados e tantas vezes não ficavam curados e não voltavam mais e não jogavam mais às cartas nem ao prego e tinham saudades tantas saudades das cartas e do prego.
Às vezes pensava que seria fácil lançar-se em pixeis e bytes, formatações, definições, esquemas, deitar fora a sua identidade anónima, cinzenta ou então roubar a identidade de alguém, perfeitamente possível no mundo virtual e numa casa onde apenas existem dois computadores, um dos quais é nosso velho amigo e não gosta de Internet e onde as palavras-passe são deixadas em post it’s mesmo à frente do nosso nariz e da nossa cobiça.
E numa tarde de um Verão pasmado em calor e tédio, esgotados os livros, emborrachados os lápis colados aos dedos, desfeitos, borrados em pastel e óleo, o gelo quebrava-se na gaveta do frigorífico, lá fora o pássaro de corda lançava na quietude das árvores o seu último grito, num impulso que rasgava a monotonia do tempo clicou criar e criou, inseriu, formatou, procurou, editou, viu e olhou-o.
Estava bonito, deslavado nas cores e nas letras, cheio de água por todos os lados.
Ele disse-lhe "Esta é a página primeira onde experimento o azul do mar e a força do vento.", ela respondeu "Experimenta!" ele perguntou "Tens ideia do oceano imenso onde te vais perder?", ela respondeu "Não tenho!"

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Esta foi a forma que eu encontrei
de me ler e ser lida
umas vezes fogo outras vezes água
partilhando as histórias de vida de uns
as histórias de amor de outros
os versos
as prosas
os devaneios
os sonhos
as fotos
os desenhos finos
e o colorido dos óleos
as solidões
os medos
as crenças
os passados
as saudades de futuro
as asas
e as pétalas a mais.
Tocando e deixando-me tocar.
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Aqui está, Maria Emília a resposta ao seu desafio "Porque fiz o meu blog" e como no dia 2 e Agosto de 2009 as "HISTÓRIAS COM MAR AO FUNDO" surgiram à superfície da água.
Até nem era necessário contar-lhe, porque, lembra-se? a Maria Emília estava lá, entre o Jaime e a Filomena, com estas palavras: " Nós somos os profetas da nossa própria vida. Arautos dos propósitos que vêm dar sentido à nossa existência."
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Manuela Baptista
Estoril, 27 de Fevereiro 2010

MANHÃS DE PÁSSAROS CONTOS IMPERFEITOS

KIrlangIrc
© serdal
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Um dia -dizia- um dia escrevo um conto imperfeito. Com uma falta, uma falha, uma entoação errada, um desequilíbrio, uma nota a mais, um personagem a menos.

Era vaga a ideia que tinha da sua chegada, talvez numa manhã depois da tempestade com o céu ainda carregado de nuvens, um vento cortante vindo do mar e ela gritara, três, quatro vezes. Levantou os olhos do teclado, distraiu-se, saltou uma linha, ela gritou novamente e depois um silêncio.
Aquela tradução era particularmente difícil, linguagem técnica, objectiva, profusa de conceitos, fórmulas, medidas, numa palavra: entediante! Bocejou, esticou os braços por cima da cabeça, depois as mãos, os dedos apontados para o tecto e pensou "Vou fazer um café. Para aguentar isto, só com litros de cafeína!". Levantou-se, abriu a janela, inspirou o ar frio e húmido, passou a mão pelos cabelos que o vento despenteava e foi aí que a viu! Volteava numa mansidão de asas sustentada pelas correntes do ar, silenciosamente observadora, os olhos vivos reflectindo os vidros da janela, o pescoço perfeito numa curva suave e curiosa.


Se eu imaginasse a imensidão do tempo e nela desenhasse um homem solitário fechado na torre mais alta de uma cidade triste, ou de um monte isolado tão longe do mar, onde o marulhar das ondas não chegasse nunca, onde os pássaros não ousassem jamais construir um ninho, onde até as nuvens se intimidassem de tocar?

Na segunda manhã esperou-a, o coração preparado na hipótese da falta, a respiração acelerada no desejo da presença. Os dedos corriam velozes pelo teclado, traduzindo as palavras de um poeta, vibrantes, apaixonadas palavras maquilhadas de dor e de amor, de fazer de conta que se tem e não se terá nunca, na tradução inquieta de quem, para entender o poema, tem de o viver em primeiro lugar.
E ele ouviu! Novamente o grito de alegria, de exigência sonora e determinada, na certeza de um eco, de uma resposta. Abriu desajeitadamente a janela e permaneceu quieto, calado, sem saber como lhe falar.

Na reclusão escolhida o homem sente frio, percorre em silêncio os cantos da casa e em cada um imagina uma lareira acesa, um lume crepitante que o aqueça, por dentro, por fora, em cada poro, em cada ruga do seu rosto, nos vários rostos que sabe que tem e que vê reflectidos no espelho, todos os dias da sua vida. Às vezes é um jovem doce e sorridente, o coração ansioso de esperança, canta no chuveiro canções de amor, salta três degraus da escada e é sempre o primeiro a chegar. Outras, é um lutador, tem uma espada de prata na cintura, vence dragões, serpentes e invisíveis seres, para no dia seguinte ser apenas um homem assustado, com medo das sombras, das esquinas, dos cruzamentos.


Na terceira manhã ela pousou no parapeito da janela, ele deu-lhe pedacinhos de torrada com manteiga, ela bicou-lhe o indicador direito, ele disse "Ai!", ela respondeu "Sabes lá, o que é levar uma bicada!", ele pensou "Olha! agora traduzo pássaros?!".

Um dia - disse- na tradução de uma história única de um homem triste numa cidade solitária, construo um conto imperfeito, com uma falta, uma falha, um desequilíbrio.
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Chimamanda Adichie, escritora Nigeriana é uma contadora de histórias e foi com ela que aprendi o perigo de uma história única.
É comoventemente longo!!

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http://www.ted.com/talks/lang/por_pt/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story.html
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Manuela Baptista
Estoril, 22 de Fevereiro 2010

AMOROSA DANÇA

Toe Dancers
© Phyllis Clarke
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Varanda complexa e íngreme escadaria
apercebidos passos com a leveza do vento
ousam soltar-se em dueto e harmonia
solitários amantes na imperfeição do tempo

Atrever-me-ia numa rosa cor de sangue
a desenhar-lhe asas para que voasse
e o mar tão perto em comovido transe
agita-se de manso como se cantasse

A dança existe ainda tímida de espanto
apesar da ausência e do desengano
como se a rosa as pétalas lançasse

Em desafio de encantada alegria
contando lendas baixinho em cada ano
trémula ave em Primavera fria
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Este é um poema antigo
sentido
como sentido é o desejo de vos convidar a dançar.
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Manuela Baptista
Estoril, 19 de Fevereiro 2010

EXPERIMENTAÇÃO

oh she is dancing
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vago tão vago como indistinto ser
na delicadeza de um gesto acinzentado
gota de aguarela por escrever
voz ténue sopro sublimado
como dança que dança sem saber
se é passo voo ou apenas asa
solto pó de cada fresta de uma porta
da janela aberta ou já fechada

batente de quem bate a madrugada
triste e solitária cadência
desconcertadamente musicada

e de olhos cerrados numa ausência
desdobro-me em tempo consentido
poema desenhado em quase nada
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Esta é uma página distraída das coisas do mar.
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Manuela Baptista
Estoril, 16 de Fevereiro 2010