FOLHA SECA E FINA

( Rafal Olbinski)
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Ralharam-lhe, zangaram-se, fizeram-na repetir centenas de vezes as cinco vogais, começando em a terminando em u, esquecia-se do i, comia o e, deitava fora o o!
Não a deixaram ir ao recreio para aprender e pendurada na janela, com inveja dos risos lá fora, bocejava e pensava, para que quero eu estes cinco desenhos, tão pequeninos, tão curtinhos, não sei o que dizem e eu não gosto deles, quero trepar aos castanheiros, apanhar os ouriços, ser tão esperta e não me picar, abri-los, roubar-lhes as castanhas, encher os bolsos e depois comê-las na aula, cuspindo a pele fina como um papel, provocar a professora com o som de um roedor e ela dizer: "Menina? O que é que está a comer, não tem juízo nenhum!",
e responder "a! a primeira das primeiras vogais, serve para isto: Ah!"
Um dia sem saber como, pensou noutra coisa qualquer, por exemplo, bolo de chocolate e papagueou as vogais e depois as consoantes e começou do fim para o princípio e chegada ao meio saltou e leu dez páginas inteiras e a professora gritou "Já chega!", as enjoadas das outras meninas tapavam os ouvidos e diziam "Que parva!", que era um grande insulto para meninas enjoadas...então calou-se e para não irritar mais ninguém pegou no lápis e começou a escrever.
Nunca mais parou.
Escrevia nos cadernos e nas capas dos cadernos, nos papéis de embrulho para os presentes de Natal, nos recibos da água e da luz, nos sobrescritos guardados nas gavetas, nas caixas de cartão, nos guardanapos de papel, no papel de seda, nos cadernos de desenho dos irmãos e quando já não havia mais espaço, escrevia na palma da mão. Um dia escreveu um poema na parede branca da sala e perguntaram-lhe: "Mas afinal qual é o teu sonho? O que farias se vivesses numa casinha toda feita de papel?"
Só muito mais tarde percebeu que existiam casas assim, frágeis, leves, à espera de serem preenchidas, de sonhos e de letras. E nas paredes das salas contou aventuras,viagens e histórias de marear, os tectos dos quartos, encheu-os de canções de embalar, contos de meninos perdidos, de leões sem coragem, de homens de lata, de sereias e de gansos com voz para falar. Na cozinha, as receitas de bolo de chocolate espreitavam nas portas dos armários e dos corredores compridos saltavam letras escuras para aterrorizar! Nos quartos abandonados virados a norte, escrevia histórias de medo e morte, das que tiram o último sopro de vida a um animal assustado.
Às vezes, quando estava vento, a casa dobrava-se, vincava-se e saía a voar, mas se a tarde estava calma pousava como um barco sobre o azul estonteante do mar. Nos dias de tempestade desfazia-se, os pedaços de papel desligavam-se solitários e tristes para se reencontrarem na manhã seguinte sobre um quente campo de papoilas vermelhas. Outras vezes, encolhia-se com o frio e acordava toda amarrotada no bolso de um poeta.
Ele perguntou, "O que faria se vivesse numa casinha toda feita de papel?" ela respondeu, "Escrevia..."
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Agradeço ao Walter, a pergunta que me fez
e à Filomena, a imagem desenhada no céu!
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Manuela Baptista
Estoril,12 de Fevereiro 2010
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na elegia de um verso é moldura sendo tela

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Um dia sem saber muito bem porquê, a mão direita não foi capaz de segurar o pincel e a mão esquerda tomada de uma inveja angustiante espalhou pelo chão as tintas, o diluente, a paleta de tantas cores, mistura patética de pó e panos, pedaços secos como seco se sentia. À sua frente a tela branca tão branca que doía, como dor que não se pede nem se deseja, entendida, apercebida na sua dimensão rasteira.
Depois o espanto: Quem sou eu, que disparo sentimentos em folhas vazias, em telas solitárias, desapegadas de adornos, para que tenham a vida que eu lhes empresto, roubando a luz e a penumbra, a claridade e a obscura certeza de que sou apenas a consciência de mim próprio, no isolamento perfeito que me permite criar?
Se eu fosse pássaro, cumpria o meu destino num agitar de asas, na perda de uma pena leve, na construção de um ninho frágil, derrubado num primeiro ventar, mas logo reconstruído sem nunca perguntar, quem sou eu? se sou um pássaro!
Se eu fosse terra, era terra e se tremesse continuava a ser terra e se desse frutos era terra e não perguntava, porque não posso eu ser azul do céu? ou apenas azul ou infinitamente céu?
Mas sou tela e a tela por pintar é a mais bela das telas, nela estampo o grito e desenho o canto, misturo o ódio mas retoco o amor, torno mais clara a noite e enegreço o dia, desloco-me, entranho-me de cor, prometo o que não cumpro, água forte que me torna criador.
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Esta é uma página escolhida a dedo, porque escrever é como pintar.
Basta uma folha em branco.
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Manuela Baptista
Estoril,7 de Fevereiro 2010

PRIMAVERA DE CORAIS

David Hockney, Nichols Canyon, 1980
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Era uma vez uma menina.
Franzina mas espigadota!
Tinha, entre outros, o poder de ouvir:
Como posta restante ou caixa de ressonância, percutia e vibrava, reagia ao sabor da história, história real que lhe contava.
Que durante anos lhe contei ...
A ela não ficava indiferente antes vivia-a com todo o seu ser, com ela se afligia e com o seu personagem central a quem lhe abria, porém e sempre, a porta de sua casa.
Estivesse ou não eu à beira do abismo, quase a nele me precipitar, serena e paciente, como um coral, flor aquática, sempre me acolhia no seu palácio banhado, como recife, pela plenitude do mar a perder de vista.
O mar calmo ou bravio, assolado ou não pela intempérie.
Um dia olhei-a nos olhos com profundidade inabitual e o feitiço de que era portadora, perfume coralífico, tomou-me de assalto:
Vi nela o Mundo, todas as histórias, o mar preenchido de corais em ilhas distantes e acolhedoras, ameaçadas pela predação do Homem.
Foi assim que se virou o feitiço contra o feiticeiro, que um ladrão a outro o roubou e vá-se lá a saber qual a quem e a menina começou, ela também, a contar histórias.
Histórias maravilhosas de encantar a alma e o Mundo, de colorir de magia as extensas estepes, lugares desérticos e gentes feitas de fragilidade, por ela revificadas de magia e polvilhadas da cor irradiante dos corais.
Tomei-a, então, nos meus braços e a cada dia 6 de Fevereiro como em todos os dias da minha vida, gratificado, bendigo a hora em que a encontrei.
Coral raro, primaveril!
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Esta é a História breve de uma menina
que a 6 de Fevereiro
celebra o seu aniversário cheio de sal e de maresia
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Jaime Latino Ferreira
Estoril, 6 de Fevereiro de 2010

BRILHANTE

Gallop with wind© milan malovrh
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Era o mais belo. As patas traseiras bem assentes no chão, as dianteiras levantadas numa atitude de desafio, coxas firmes e musculadas, as narinas abertas num resfolegar de alegria, os olhos ternos e mansos a pedirem afagos, as crinas esvoaçando mal o vento soprasse!
O pelo era liso e brilhante e nas noites de lua cheia todos sabiam onde ele estava, tal o reflexo que emitia, como um copo de cristal em festa de reis confundido com o brilho dos lustres.
Os arreios não lhe pesavam, fixos, firmes no seu pescoço de raça e tilintavam ao som da música, compasso binário de uma polca cantada, sempre a mesma toada.
As pessoas diziam "Que bonito!" e os meninos gritavam "Brilhante! Eu só quero o Brilhante!" e lutavam entre si para o montar e zangavam-se e choravam e as mães diziam "Não chores! Vem cá, vamos comer algodão doce e andar no comboio fantasma...". Mas os meninos tinham medo dos fantasmas e do comboio, temiam as suas curvas perigosas, o escuro imenso dos seus túneis, os estranhos esqueletos vestidos de teias de aranha e os sopros sinistros que vinham do nada. Sentiam a magia daquele companheiro de viagens, ouviam o seu sussurrar, as histórias que lhes contava entre passos e trotes, galopes e voos, sempre a rodar.
E quando por fim pela madrugada os sons se calavam, as luzes esmoreciam e um vento ligeiro arrastava as folhas e os papéis pelo chão gelado, Brilhante fechava os olhos e sonhava partir à desfilada pelos caminhos pedregosos, o mais veloz, o mais temerário de todos os cavalos.
Todos os anos os meninos voltavam, mais crescidos uns, mais feios outros, mais brigões, mais chorões e voltavam os meninos desses meninos e um dia, Brilhante, já não sabia que dia era esse, sentiu um peso no peito e as patas traseiras tremeram no chão e alguém disse "Está sem cor este cavalo" e ele pensou aflito "Sou eu?!" e a polca tocava e como era monótona a polca e o seu coração bateu mais forte, tão forte, galopava em vez dele, chamava-o não sabia porquê e ele parado, cansado e triste percebeu como era redonda a sua caminhada e como o primeiro a chegar era sempre ele, porque na roda redonda não há princípio nem fim.
E nessa noite, no seu sonho de todas as noites, Brilhante libertou as patas traseiras ainda agora assentes no chão, agitou as patas dianteiras desafiando o vento, coxas firmes e musculadas, as narinas abertas sedentas de aventura, os olhos ternos e mansos buscando o infinito e soltando-se num galope doido, relinchou três vezes, o mais veloz, o mais temerário de todos os cavalos!
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Viver é correr riscos
cavalgando carrosséis patéticos
libertando o mais brilhante de todos os cavalos.
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Manuela Baptista
Estoril, 4 de Fevereiro 2010