ARTICULAÇÃO DE UM SENTIMENTO

so gentle, so furious
© Ursula I Abresch
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Ouço-a na calma das tardes trazida pelo vento manso, sem tropeções nem pressas, dissimulada no marulhar das folhas, como o respirar leve da mais pequena das criaturas.
Às vezes procuro-a entre a multidão barulhenta e sei que ela está lá, alegria pura, cristal que ressoa, brilhante, transparente. Permanece no ruído, com ele e depois dele e o ruído não é mais ruído, apenas pano de palco, objecto de cena.
Inexplicável na ternura de um grito de criança, princípio dos princípios, antes muito antes do olhar da mãe, do embalo de um choro triste.
Característica eminentemente humana transforma-se na mais desumana de todas elas, basta uma inflexão cruel, uma intensidade que esmaga, uma pronunciação de ódio. Disfonia das disfonias, arrepiamo-nos com a sua imensidão de trevas, pode ser o carrasco o seu portador, o assassino, o terror dos terrores.
Quando é tomada pela fúria, varre-nos a face como um vento agreste, seca-nos o peito e as entranhas, desesperadamente expulsa-nos de qualquer paraíso terreal.
Cansada, cansa-nos, desfaz-nos a esperança, desiste de nós. Triste, é como a neve sobre um pássaro morto, gelado, abandonado na sua fragilidade humilde.
Cava, desce à profundidade da terra, bem colocada, sobe-nos à cabeça como o mais encorpado dos vinhos.
Mas quando a invadem ondas de alegria, estonteamo-nos com ela, sentimos o coração quente e os olhos brilhantes, as nossas mãos agitam-se como caules flexíveis e tenros e os nossos pés são capazes de dançar quietos. E que mansa e suave também pode ser, mal tocando os lábios e a língua, fascínio dos fascínios, embriaguez dos sentidos, cegueira de quem não quer mais nada senão ouvi-la e não a deixar partir!
E bela será, se possuir em si todos os tons, a altura das estrelas, a ressonância infinita dos rios subterrâneos, a gentileza de uma papoila vermelha, a doçura do mel,o cheiro das laranjeiras em flor, beleza suprema, eufonia, a articulação perfeita de um sentimento.
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Esta é uma página tocada pelo silêncio da fala, da minha voz, da vossa voz.
Como construtor solitário de vozes, imagino-as, invento-as com as palavras que me vão emprestando.
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Manuela Baptista
Estoril, 31 de Janeiro 2010

SOLTAR A TEMPESTADE ADORMECER O VENTO

Às vezes apetecia-lhe acordar zangada, não abrir as janelas, fingir que o sol não estava ali, mandar calar os pássaros, deixar o portão aberto.
Quando lhe dissessem "Bom dia!" responder "Mau dia, chove lá fora, quero torradas mas não há pão!" ou então "Podes dar comida ao gato, por favor?" e responder "O gato que vá passear, afinal para que é que se quer um gato se não sabe arranjar o seu próprio prato?"
E depois ir ao café e ficar ali a entupir uma mesa e o empregado a perguntar "Então hoje o que vai ser?" "O que vai ser? O senhor fala mal para caramba! Se vai, não é. E o verbo ir mais o verbo ser, os dois juntos, ficam mal..." Pedir um croissant aquecido com manteiga e esfarelá-lo todo em cima da mesa e fazer um desenho com as migalhas, talvez o mapa de um tesouro e o empregado perguntar-lhe, delicado "Quer que limpe a mesa?" e responder "Era só o que faltava! fazia desaparecer o mapa e o tesouro e o que é que eu faço sem mapa e sem tesouro?"
Entrar no comboio sem comprar bilhete e o revisor espantado "Perdeu o seu bilhete?" "Não! Apenas não o comprei! Porque é que tenho eu de comprar um bilhete de comboio se há coisas muito mais bonitas para comprar, por exemplo um barco, porque se eu tivesse um barco para que é que eu precisaria de um comboio? E um barco anda no mar, com o céu por cima da cabeça, com ar e vento à sua volta!"
Resmungar imenso com a funcionária dos Correios, insultá-la por ser tão lenta, por não fazer a fila andar mais depressa ou então por já nem existir fila mas um papelinho enfezado com o número 74 e perceber que o 50 ainda está para ali pasmado, a comprar três selos para o Brasil e ficar a olhar para as prateleiras com livros que ninguém quer e tornar a olhar o tecto, reparar na aranha que foi fazer a teia ali no canto, por cima do net point onde se pode ler "não funciona" e de repente procurar o maldito papelinho com o número 74 e perceber que o papelinho sumiu! Depois, é só apanhar um papelinho qualquer do chão e gritar "Já passou o meu número, por favor deixem-me passar!" "O seu BI? Sem ele não pode levantar a encomenda." "Não posso? Mas não vê que é para mim? está aí o meu nome!!"
Pelo caminho, dar dois ou três pontapés em outras tantas pedras que, por um milímetro, apenas por um milímetro não bateram nos calcanhares de alguém, arrancar cinco ou seis pétalas de rosa e esborrachá-las cantarolando, bater com a porta e fazer estremecer a chaminé, largar o casaco e o cachecol e finalmente atirar-se para cima do sofá com um pacote quadrado no colo. Virá-lo, revirá-lo.
Pensar, um pacote fechado é como uma página em branco, podemos lá colocar tudo o que quisermos e depois devagarinho começar a escrever ou a desatar o nó, encadear as palavras umas nas outras ou rasgar o papel, despedaçá-lo na pressa de acabar, construir a história, terminá-la, contemplá-la à história e à caixinha de chá ali no colo, tão quieta, tão silenciosa, tão cúmplice de um segredo construído.
Com as cores do ouro, de uma doce laranja, castanha, da terra e das folhas secas, amarela, da cor do sol e de uma vela acesa, branca, do bule, da chávena e dos torrões de açúcar... E depois devagarinho, clic! abrir o fecho, levantar a tampa e de dentro da caixa saltar de repente uma senhora magrinha, com um longo pescoço e uns dedos fininhos e bonitos, que pergunta: "Aceita uma chávena de chá?"
Aceitou! As torradas saltaram na torradeira, o prato do gato encheu-se de comida, o empregado do café sentiu passar um anjo, os comboios apitaram ao longe, a funcionária dos correios ficou feliz e cantou até a loja fechar, um menino encontrou na rua uma pedra preciosa enrolada num mapa do tesouro e as pétalas de rosa cobriram a cabeça das pessoas.
O odor do chá acabado de fazer espalhou-se pela casa e todas as coisas se tornaram mornas e doces. Lá fora o vento adormeceu.

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Uma caixinha de chá com odor a canela e uma senhora magrinha dentro dela
chegou cá a casa e encontra-se feliz!!
Agradeço ao Bruno as suas mãos prodigiosas e a doçura do seu sorriso.
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(o Bruno)
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Manuela Baptista
Estoril, 27 de Janeiro 2010

A TONALIDADE DOMINANTE

My Place
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Gostava de olhar longamente a ilustração de cada página, ler devagarinho: "O maior prazer da pequena sereia era escutar histórias do mundo dos humanos." e perder-se no mundo das águas onde os humanos não desciam e imaginar-se peixe e menina ou menina-peixe, ou então escutar a voz do gigante egoísta que perguntava "Quem és tu?" e também queria ser gigante, o mais egoísta dos gigantes, não deixar ninguém entrar no seu jardim, ser má, tão má e ter de morrer ali no chão gelado, mas quase no final descobrir uma flor branca como a neve e encontrar um menino que a levasse para o paraíso. E diziam-lhe "Muda de página! como é que queres chegar ao fim!!" como se chegar ao fim, fosse o objectivo de um livro e não exactamente permanecer ali entre cada folha, fazer parte daquela história.
Nos museus ficava para trás, apaixonada apenas por uma pintura, uma fotografia, uma luz estranha num vestido de seda, o brilhar imenso na lâmina de uma espada...
Nunca percebia como é que as pessoas percorriam salas e salas e diziam "que beleza!!" mas avançavam e olhavam quinhentas belezas e não viam nenhuma. Por isso voltava sempre, incapaz de deitar fora os olhares que ainda tinha para ver, com saudades do que já tinha visto e que permanecia ali à sua espera. E então dizia " Cada museu devia ter apenas uma sala e em cada sala um quadro! Aí, valia mesmo a pena lá estar."
Gostava de ser a última, de entrar nos comboios depois dos outros entrarem, de não ter ninguém a pisar-lhe os calcanhares nas escadas rolantes, não ser obrigada a tirar uma senha na fila da farmácia.
Sabia de cor os adjectivos que lhe ofereciam: "grande pastel!", "mas que empata!" ou alguns mais simpáticos: "estás a dormir ou quê?". Mas era ela que apanhava do chão a última folha de uma árvore, a que ouvia o último cantar de um pássaro, a que sabia quem compunha a música de um filme, a que guardava a harmonia de uma voz humana, tensão crescente, afastamento, aproximação para um retorno perfeito.
Às vezes sentia prazer em espantar os outros e desatava a correr como se tivesse uma pressa que não tinha e havia sempre quem corresse com ela porque a pressa é como uma gripe, pega-se, mas chegada a um destino que não era o dela, voltava para trás, porque quem percorre duas vezes o mesmo caminho conhece-o de cor mas sabe que nunca é igual. A alegria fazia parte da sua natureza, como uma especiaria secreta que dá o sabor único a um cozinhado, como a pincelada que transforma a essência de uma obra prima.
Olhava longamente cada página. Tensão crescente, afastamento, aproximação para um retorno perfeito.
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Na harmonia há sempre um acorde perfeito, natural.
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Manuela Baptista
Estoril, 22 de Janeiro 2010

O IMAGINÁRIO PERDIDO DE UMA CARTA

Nunca sabemos onde estão. Às vezes abrimos a gaveta dos lenços, aquela que raramente se abre, porque os lenços passaram a ser de papel como elas e dizemos "Olha, cá estão! As cartas que a mãe escreveu quando estávamos no colégio" e ela dizia, portem-se bem! estudem todos os dias e nós chorávamos porque não queríamos estar ali tão longe e tão frio com saudades de casa ou então quando arrumamos as prateleiras dos livros e descobrimos, entre "Na Patagónia" e " A Maravilhosa Viagem de Nils Olgersson Através da Suécia", os postais que nos enviavam os amigos em férias ou os desconhecidos com quem nunca viajámos, mas com os quais gostaríamos de ter viajado.
Depois, as cartas de quando éramos tão jovens e tão inocentes e nos diziam "Achas possível sonhar assim?" e nós respondíamos que se não sonhássemos assim e agora, quando sonharíamos? Essas escondemo-las entre os sabonetes para não perderem o odor, para que os sonhos permaneçam contagiados pelas pétalas das flores, pelo cheiro da lavanda e da alfazema.
E as misteriosas, cheias de segredos, de mentiras, não sabemos onde estão...
Umas vezes aparecem no armário do sótão, debaixo da cama ou no velho livro de receitas, outras vezes desaparecem e não as vimos mais.
As de amor, são cartas bonitas que sabemos de cor "Meu amor se eu fosse peixe, levava-te comigo para o fundo do mar, vestia-te de algas e corais, sentava-te num trono de cristais e soltava os ventos e as tempestades, para que antes, mesmo antes de morreres, eu te pudesse salvar!". São as que têm mais folhas, reconhecem-se pela cor do papel, guardam-se em montinhos atados com uma fita de seda encarnada, manchada pelo tempo e pelo sal das lágrimas. Habitam as caixas mais belas a cheirar a madeira encerada e apenas nós, sabemos onde estão.
E aquelas tão breves, que romperam qualquer coisa dentro de nós, que nos magoaram, que nos ensinaram que as traições possuem nome e rosto e que a alegria tem tantas vezes os dias contados e a essas não respondíamos, porque não há mais nada a dizer quando nunca se disse tudo e estão ali na gaveta das facas, das de trinchar e das outras.
Das que não recebemos sentimos a falta, como de uma fina chávena de porcelana para beber o chá, porque a porcelana para o chá tem de ser fina, para que realce o seu sabor, para que cada folha se possa distender e dizer, fico aqui, porque aqui é o meu lugar.
Mas quando não ousámos sequer acariciar o papel de uma carta, cheirá-lo, esticá-lo para tirar as rugas, pegar na caneta, mordiscá-la, rolá-la entre os dedos, desenhar a data, depois o nome, olhá-lo, efabular um discurso, um pedido, um desejar a medo, saber escolher as palavras, ouvir o som do coração a bater, contar o que não contámos, dizer até breve fica bem e não estar bem, dobrar o papel, lamber a cola do envelope, quando ainda tinha cola, colar o selo, quando ainda havia selo, essas são as cartas que nunca escrevemos. Não ocupam espaço, não precisam de gavetas, nem de livros, nem de prateleiras, nem de sótãos, nem das caixas mais belas a cheirar a madeira encerada, não se guardam em montinhos, porque da fita de seda encarnada manchada pelo tempo e pelas lágrimas, elas são apenas e somente o laço.

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pela inspiração de um amoroso gosto por molhinhos de cartas
agradeço
ao Paulo o seu lado luminoso
ao Walter que cativa a luz
e à Branca que reflecte a luz
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Manuela Baptista
Estoril, 19 de Janeiro 2010