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Ouço-a na calma das tardes trazida pelo vento manso, sem tropeções nem pressas, dissimulada no marulhar das folhas, como o respirar leve da mais pequena das criaturas.
Às vezes procuro-a entre a multidão barulhenta e sei que ela está lá, alegria pura, cristal que ressoa, brilhante, transparente. Permanece no ruído, com ele e depois dele e o ruído não é mais ruído, apenas pano de palco, objecto de cena.
Inexplicável na ternura de um grito de criança, princípio dos princípios, antes muito antes do olhar da mãe, do embalo de um choro triste.
Característica eminentemente humana transforma-se na mais desumana de todas elas, basta uma inflexão cruel, uma intensidade que esmaga, uma pronunciação de ódio. Disfonia das disfonias, arrepiamo-nos com a sua imensidão de trevas, pode ser o carrasco o seu portador, o assassino, o terror dos terrores.
Quando é tomada pela fúria, varre-nos a face como um vento agreste, seca-nos o peito e as entranhas, desesperadamente expulsa-nos de qualquer paraíso terreal.
Cansada, cansa-nos, desfaz-nos a esperança, desiste de nós. Triste, é como a neve sobre um pássaro morto, gelado, abandonado na sua fragilidade humilde.
Cava, desce à profundidade da terra, bem colocada, sobe-nos à cabeça como o mais encorpado dos vinhos.
Mas quando a invadem ondas de alegria, estonteamo-nos com ela, sentimos o coração quente e os olhos brilhantes, as nossas mãos agitam-se como caules flexíveis e tenros e os nossos pés são capazes de dançar quietos. E que mansa e suave também pode ser, mal tocando os lábios e a língua, fascínio dos fascínios, embriaguez dos sentidos, cegueira de quem não quer mais nada senão ouvi-la e não a deixar partir!
E bela será, se possuir em si todos os tons, a altura das estrelas, a ressonância infinita dos rios subterrâneos, a gentileza de uma papoila vermelha, a doçura do mel,o cheiro das laranjeiras em flor, beleza suprema, eufonia, a articulação perfeita de um sentimento.
Às vezes procuro-a entre a multidão barulhenta e sei que ela está lá, alegria pura, cristal que ressoa, brilhante, transparente. Permanece no ruído, com ele e depois dele e o ruído não é mais ruído, apenas pano de palco, objecto de cena.
Inexplicável na ternura de um grito de criança, princípio dos princípios, antes muito antes do olhar da mãe, do embalo de um choro triste.
Característica eminentemente humana transforma-se na mais desumana de todas elas, basta uma inflexão cruel, uma intensidade que esmaga, uma pronunciação de ódio. Disfonia das disfonias, arrepiamo-nos com a sua imensidão de trevas, pode ser o carrasco o seu portador, o assassino, o terror dos terrores.
Quando é tomada pela fúria, varre-nos a face como um vento agreste, seca-nos o peito e as entranhas, desesperadamente expulsa-nos de qualquer paraíso terreal.
Cansada, cansa-nos, desfaz-nos a esperança, desiste de nós. Triste, é como a neve sobre um pássaro morto, gelado, abandonado na sua fragilidade humilde.
Cava, desce à profundidade da terra, bem colocada, sobe-nos à cabeça como o mais encorpado dos vinhos.
Mas quando a invadem ondas de alegria, estonteamo-nos com ela, sentimos o coração quente e os olhos brilhantes, as nossas mãos agitam-se como caules flexíveis e tenros e os nossos pés são capazes de dançar quietos. E que mansa e suave também pode ser, mal tocando os lábios e a língua, fascínio dos fascínios, embriaguez dos sentidos, cegueira de quem não quer mais nada senão ouvi-la e não a deixar partir!
E bela será, se possuir em si todos os tons, a altura das estrelas, a ressonância infinita dos rios subterrâneos, a gentileza de uma papoila vermelha, a doçura do mel,o cheiro das laranjeiras em flor, beleza suprema, eufonia, a articulação perfeita de um sentimento.
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Esta é uma página tocada pelo silêncio da fala, da minha voz, da vossa voz.
Como construtor solitário de vozes, imagino-as, invento-as com as palavras que me vão emprestando.
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Manuela Baptista
Estoril, 31 de Janeiro 2010




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