A GLORIOSA VIAGEM DO ÚLTIMO COMBOIO

Já não sabiam quantas viagens tinham feito juntos, e cada vez era como se fosse a primeira.
O coração do maquinista batia mais forte, sentia-se dono dos carris, das rectas e das curvas, sustinha a respiração à entrada dos túneis e soltava-se quando atravessavam planícies. Às vezes pensava que o perdia e olhava para cima e via-o subir com as nuvens, como os balões-corações cheios de hélio com que as crianças gostam de brincar e ficava assim a contemplar o seu coração-balão e dizia "Não há emoção maior do que esta de conduzir um comboio!"
Por sua vez, o coração de aço e ferro do velho comboio, ouvia o pulsar da terra, o canto das águas debaixo das pontes, estremecia a cada travagem e alegrava-se em cada apeadeiro e quando a velocidade tomava conta deles, transportava-os como leves penas empurradas pelo vento e quando alguém dizia "Velho comboio, não deve ultrapassar os 80!" eles riam-se e pensavam "Tolos! Sabem lá o que é acelerar..." e faziam soar um apito estridente e alegre.
Num dia do meio, esses dias do meio entre o Natal e o fim do ano, em que tudo perde um pouco o brilho das estrelas e se fazem balanços e confidências, um homem cinzento, vestido de cinzento, atravessou a estação com um olhar cinzento e colou na coluna de pedra junto ao comboio, um papel igualmente cinzento.
O comboio não sabia ler, mas ouvia muito bem e entendia quando lhe chamavam "monte de sucata" e outros adjectivos que o magoavam e apercebia-se, de que sobre a sua cabeça pairava uma sentença, até ali, adiada.
"Não chores." -disse-lhe o maquinista - "ficas ainda mais ferrugento! Esta não será a nossa última viagem, mas vamos prepará-la como se fosse uma festa!"
E aspirou os estofos, esfregou cada vidro para que ficasse transparente, apertou cada porca e cada parafuso para que nada se soltasse, oleou as juntas e as rodas, verificou as luzes de nevoeiro e as outras, encheu os depósitos de água e as prateleiras com caixas e caixas de cartão e finalmente sublinhou num velho mapa um percurso a azul celeste e guardou-o no bolso.
Nessa noite, às 19 horas em ponto o comboio apitou longamente e iniciou a sua marcha sem nenhum passageiro a bordo. Ao comando, o maquinista, nos carris o velho comboio, no coração de cada um, uma tristeza pesada. E pensavam "O mais provável é não entrar ninguém..."
No primeiro apeadeiro parou e uma menina magrinha perguntou:
-Para onde vai este comboio?
-Sempre a rodar sobre as terras verdes e os campos de lírios.

-É longe? -insistiu a menina magrinha.
-Muito longe!! -reforçou o maquinista metendo a cabeça de fora.
-Então é para aí que eu vou! -disse a menina magrinha.
No segundo apeadeiro tinham à sua espera um rapaz zangado.
-Para onde vai este comboio? -perguntou.
-Sempre a rodar sobre as terras verdes, os campos de lírios e os rios revoltos. -respondeu o comboio.
- É perto? -resmungou o rapaz zangado.
-É muito longe!!-disseram em coro o maquinista e a menina magrinha.
-Então é para aí que eu vou! -disse o rapaz.
No terceiro apeadeiro esperava-os um fotógrafo opaco, tão opaco que quase não davam por ele. Foram então forçados a fazer uma travagem brusca e o fotógrafo gritou:
-Qual é a vossa direcção?
-Sempre a rodar sobre as terras verdes, os campos de lírios, os rios revoltos e as frágeis pontes.-responderam.
O fotógrafo opaco deu uma corrida com a sua máquina a tiracolo e entrou no comboio em andamento cumprimentando todos. Começou a fotografar a menina magrinha e o rapaz zangado, mas descobriu que não tinha luz suficiente.
E sempre a rodar sobre as terras verdes, os campos de lírios, os rios revoltos, as frágeis pontes, a beira do mar e subindo a montanha por túneis escuros, continuaram a sua viagem.
E em cada estação, em cada apeadeiro, foram subindo outros passageiros cujo desejo era ir mais longe, a saber:
-um pássaro que tinha perdido uma asa
-um homem triste
-uma senhora vaidosa
-um gigante egoísta
-um cozinheiro cansado de cozinhar
e um malmequer sem pétalas.
A noite cinzenta e húmida foi ficando mais estrelada e à medida que subiam, o ar tornava-se mais puro e frio.
Os passageiros, primeiro silenciosos e hirtos, depois mais soltos e faladores, trocavam continuamente de lugar, até que a menina magrinha exclamou: "Estou cheia de fome! Afinal fui a primeira a entrar!"
O comboio rodou, rodou a uma velocidade impensável, inimaginável e nessa noite, a última dos dias do meio, espalhados e distribuídos num espaço desenhado num velho mapa sublinhado a azul celeste, uma senhora vaidosa dançou com um rapaz zangado e ele riu-se; um homem triste convidou os amigos para comer tostas mistas às 3 horas da manhã e sentiu-se feliz; um maquinista ensinou a um cozinheiro cansado de cozinhar, todos os segredos de um comboio; um gigante egoísta colocou um malmequer num copo com água e a cada minuto uma pétala crescia; um pássaro que tinha perdido uma asa, pousou no ombro de uma menina magrinha e voaram os dois pela janela e por fim um jovem fotógrafo expôs as suas fotografias e toda a gente dizia "Que brilho tem este homem no olhar?!"
E o comboio? Nunca mais voltou para a estação, perdido nas terras verdes, nos campos de lírios, nos rios revoltos, nas frágeis pontes e à beira do mar.

-
esta é a longuíssima história do último dia dos dias do meio
e
antes de ir lá abaixo à estação
desejo
aos que chegaram aqui comigo
.feliz ano de 2010.
-
Manuela Baptista
Estoril, 28 de Dezembro 2009

CANÇÃO DE EMBALAR

(George de La Tour - José o Carpinteiro)
-
Se eu fosse um menino queria voar, não como os pássaros não, mas como os peixes do mar.
Dava lustro a cada pena, afagava cada escama, engolia o ar sem fundo e bebia o mar e o mundo.
Depois fazia uma escada longa, de caracol, em cada degrau da escada punha uma caixa de prata e dentro dela uma lata e com uma faca afiada desenhava uma estrela e em letras redondas escrevia tantos nomes, todos os nomes que eu soubesse cantar, embalada nesta canção para o menino dormir e sorrir e pensar que estava a fazer uma casa de madeira com o pai que lhe dizia baixinho:
-Tem cuidado meu menino que te podes cortar, esta é a árvore mais alta e nela coloco a casa, uma almofada de algodão leve e branco como a neve, um banco e um cavalinho para te fazer companhia! E se tiveres medo do escuro chama por mim, que eu estou aqui, cá em baixo, sempre, para te embalar.
E mais ao longe o teu clã, a tua tribo, que te saberá encontrar na noite mais fria, sem lua, sem estrelas, sem meias de lã, sem pão com manteiga, sem mel ou azeite e que reconhecerá de olhos fechados o teu cheiro e a brancura das tuas mãos.
-
E os vossos nomes tenho-os aqui, dentro do meu coração e a todos desejo

.FELIZ NATAL.
-
Manuela Baptista
Estoril, 19 de Dezembro 2009

NO MEIO DO CÉU UM BARCO

Asimut
-
Da rocha onde o rapaz vivia, avistava-se a praia, as casas, a torre da igreja. Ignorando a terra entrava-se no mar.
Já não se lembrava há quanto tempo ali estava, mas estava bem.
No início não tinha sido fácil, sentiu frio, medo da solidão, da imensidão daquela massa azul marinho ou verde água ou negra como um véu, fechada como as trevas.
Mas as gaivotas vieram e desinquietaram-no com o seu falar, contaram-lhe histórias de marinheiros, de barcos perdidos, de meninas de cabelos de algas, de sereias que amavam príncipes e de reis que se tinham perdido para o conquistar, ao mar.
Os peixes diziam, tens de vir connosco um dia ou uma noite. Talvez...respondia.
E foi, um dia.
Agarrado às barbatanas de um peixe-lua, percorreu milhas e milhas sem nunca parar, enfrentou as altas ondas e duas tempestades, nadou junto aos golfinhos e às baleias e ouviu-as cantar. Depois desceu às águas profundas e pensou -Se alguém acendesse luzes nestas planícies, nestes desfiladeiros, nestas cordilheiras, este fundo seria a terra e o mar o céu e no meio do céu um barco!
Às vezes, junto à sua rocha aparecia Aster, a estrela do mar e ficavam os dois horas a fio a conversar. O rapaz contava-lhe como tinha vivido na terra, da sua paixão pelos palcos e pelas luzes, da tonalidade das vozes dos que ainda amava e do seu tempo que tinha sido escasso mas bom.
Aster agitava levemente os seus cinco braços e pensava -É como eu! Se alguém me cortar um braço ele regenera-se e o pedaço que me roubaram, forma uma nova estrela do mar e eu vivo na continuidade do meu tempo.
Quando o rapaz contemplava as estrelas, Aster sentia ciúmes e zangada, puxava-lhe um pé, enrolava-se numa das suas mãos, tapava-lhe os olhos e ainda ficava com dois braços disponíveis para o abraçar.
O rapaz pensava - Um dia vou-me embora, afinal lá em cima as luzes brilham com mais fulgor e os meus pés estão verdes de tanta água...
Assim passaram luas e sóis, muita maré vaza e outras tantas praia mar e numa noite gelada de Inverno, o silêncio instalou-se sobre a praia deserta e a terra adormecida. A rocha permanecia quieta e calma. No alto mar juntaram-se todos os peixes e as aves marinhas, as lulas gigantes, os polvos, os tubarões, os golfinhos, as baleias azuis e as orcas e começaram a cantar.
Nessa noite Aster, a estrela do mar, deu a mão ao rapaz e desapareceram os dois no azul de um céu, escuro como breu, onde hoje brilham duas novas estrelas.
-
Estas são as estrelas de David. Porque somos lestos a apontar a falta delas e não nos apercebemos quando brilham.
-
Manuela Baptista
Estoril, 17 de Dezembro 2009
-
(foto de John Colbersen)

III - O PRIMEIRO DOS SINAIS

Alguma coisa estalou, como o ramo frágil de uma árvore, como um pedaço de lenha quando começa a arder. Como a casca de uma noz.
A seguir, um silêncio. Curto, preciso, distinto.
A velha senhora disse:
-Acho que as pinhas da araucária vão começar a cair...
No entanto lá fora, as folhas amareladas das árvores tornaram-se de repente vermelhas e os pássaros mais pequenos agitaram as asas como se quisessem voar, mas não voaram.
O jardineiro olhou para o canteiro das couves e resmungou: "Ia jurar que já as tinha apanhado e sacudido a terra!" -à sua volta, respondeu-lhe a imobilidade calma do cortador de relva.
Na cozinha, uma mulher derretia o chocolate para o bolo e pensava "É pouco, não vai chegar para um bolo, quanto mais para dois..."- mas começou a partir pedacinhos e a comê-los e sentiu-se bem.
O rapaz gritou:
- Não temos internet! Nem televisão!!!
Às 12 horas os telefones deixaram de funcionar e às 15 horas já não havia luz. Sem aquecimento as casas grandes começaram a gelar, apesar do fogo crepitar em algumas lareiras.

As crianças entediadas bocejavam ou então experimentavam a força dos punhos e a resistência dos cabelos das meninas. Foram expulsos de casa. Afinal para que servem a rua e o jardim?
Depois das crianças, foram os personagens das histórias que começaram lentamente a sair dos livros e dos computadores desligados: o Quebra-nozes, a Menina dos Fósforos, Rufus o gato e Vadio, o barco que não gostava de humanos. Deambulavam pelos quartos e pelas salas, invisíveis e serenos soprando segredos aos ouvidos das pessoas com quem chocavam.
Da casa alta que tinha sido bela mas já não era, deslizaram alguns fantasmas um pouco pálidos e o homem que não tinha casa mas possuía sete cães brancos, aproximou-se lentamente como se o tivessem chamado e sentou-se no chão a observar as brincadeiras das crianças. Os sete cães brancos sentaram-se com ele.
O Poeta trouxe um caderno e um lápis e a Pintora foi a correr a casa buscar as tintas e o cavalete.
Ao entardecer as pessoas acenderam velas e tochas, retiraram dos sótãos e das caves as cadeiras com caruncho, os móveis velhos e inúteis e tudo o que pudesse arder e exactamente no centro do cruzamento atearam uma enorme fogueira e instalaram-se à sua volta a conversar, coisa que já não faziam há muito tempo, porque o tempo estava em falta, o que não é exactamente igual à falta de tempo.
Está crescido o bebé! e a sua filha já acabou o curso? não! não! para obter uma fotografia com resolução óptima, deverá usar outro tipo de lente. e o senhor é? eu? sou o fantasma do Alemão da casa abandonada! ah sendo assim! e há outros? não conheço...esta fogueira, aqui no meio deste cruzamento...não me parece muito legal, mas como estou de folga...não acha que poderíamos jantar cá fora sob as estrelas? não seja por mim, eu e os meus cães não fazemos outra coisa.está bonito esse quadro! as meninas estão a morder o macaco?? pois é, na verdade não sei porque é que ainda estou a viver em Londres, aqui, inspiração não me falta...vamos fazer chocolate quente, o bacalhau e as couves ficam lá dentro, afinal as crianças enrolam-no na boca e sempre odiaram couves! avó adormeceu? não! estou a dançar com o teu avô! mas o avô..viram passar um barco?
O aroma do chocolate quente espalhou-se por mais três ruas e vinte casas, as broas, os sonhos e os coscorões desapareceram das travessas e para aquecer os pés, beberam dez garrafas de vinho do Porto.
Sob um tecto de estrelas num céu sem lua, outras fogueiras se acenderam, o vento frio foi trazendo o som distante de um cantar, as vozes doces de quem conta histórias e o tilintar alegre dos copos de cristal e só muito tarde na noite regressaram às suas casas grandes e antigas e deitaram-se com o coração quente e uma paz dentro do peito. Cá fora profundamente adormecido, permaneceu o homem sem casa, fiel aos seus sete cães brancos e Rufus o gato, a contemplar as estrelas.
Mesmo antes do amanhecer quando as fogueiras se extinguiram e o silêncio cobriu as ruas, as casas, as árvores, os ninhos dos pássaros e as coisas da noite, a temperatura baixou e pequenos flocos de neve começaram a cair. Eram tão leves, tão leves que se perdiam no ar puro e frio e apenas Vadio, o barco, estremeceu, como se alguém lhe acariciasse o casco e ao sentir saudades de mar, regressou à história de onde tinha fugido.
-

-
Esta é uma pintura informal
ausência de composição organizada
abstracção lírica da noite em que nevou no Natal.
-
Manuela Baptista
Estoril, 11 de Dezembro 2009