O TEMPO ANTES DO TEMPO

Duas romãs, vinte nozes, bolo de milho e mel e um canto do tempo, que vem antes do Tempo.
Depois a vela, a primeira, a brilhar na primeira das frias noites.
Às vezes temos o coração preparado, outras não.
O João, a Amélia e a Matilde bateram à porta. Não trouxeram o cão e o gato, mas podiam ter trazido. E cantaram afinados o cântico que nos arma a cilada de querermos ser outra vez pequenos e acreditar que apenas aquilo que preparamos bem, nos tornará melhores e mais puros.
Acendam também a primeira das velas e venham cá a casa, que eu multiplico as romãs, as nozes, o bolo de milho, a música e o Tempo.

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No primeiro dos dias do Advento
para os que me dão a alegria de estar aqui
em celebração constante.
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Manuela Baptista
Estoril, 29 de Novembro 2009

ABANDONO

Era uma vez um homem corajoso que tinha medo do nevoeiro. Não temia as trovoadas, os vendavais, a chuva forte, o desânimo, a saudade, a inveja ou o desamor.
Se a trovoada for grande, dizia, eu sei calcular o intervalo entre o ribombar do trovão e a queda do raio, terei assim tempo para me preparar.
Se o vendaval vier, protejo o telhado, tranco as portas e as janelas da minha casa e desço à cave onde não ouvirei o seu silvar.
Com a chuva, subirei ao sótão ou à árvore mais alta do meu jardim e se não resultar, construo uma jangada com a madeira da árvore e as cordas grossas que guardo num saco comprido e cinzento.
Do desânimo, não conheço a cor, mas sei que sou forte e quando chegar, mostrar-lhe-ei os tons do Outono, a lua no céu, os livros que li e contar-lhe-ei dos países que visitei, do odor do caril em prato de prata e do sabor do pão com manteiga em tarde de frio.
Da saudade, espero que venha e me faça chorar, mas falar-lhe-ei de um violoncelo em lamento sonoro, das fotografias que não tirei, das palavras que não disse, da procura do tempo e da consolação de um riso.
A inveja terá lugar, se eu for senhor de riquezas, de casas, de pontes, se eu construir impérios apenas para mim, se a operação eleita for apenas multiplicar sem cuidar de dividir. E se o invejar, for do brilho de um olhar ou do aceno de uma mão, já não será inveja mas mesquinhez e essa desfaz-se como a espuma de uma onda.
Do desamor, aperceberei os contornos, desejarei que não se instale ao meu lado como um vizinho louco, mas se isso acontecer, bastará emprestar-lhe metade do amor que tenho e já não será desamor, mas a essência de um amor.
Mas do nevoeiro desconheço tudo.
Instala-se devagar, viscoso, lodoso, deforma os ramos das árvores, duplica o desenho dos rios, faz naufragar os barcos perdidos e torna invisíveis os rochedos do mar. Entra pelas frestas das portas, pelas chaminés e pelos buracos das fechaduras. Traz o som enganador dos lamentos, dos murmúrios e das histórias por contar.
Os meus olhos permanecem abertos mas nada vêem, as minhas mãos estendem-se trémulas e inseguras e não encontram nada, os meus sentidos estão alerta, mas nada sinto, escorregadio como alga, vazio como a solidão.
Acendo todas as luzes da casa, as velas das festas de aniversário, os LED's e as gambiarras de Natal. Agarro nas cadeiras velhas e nos baloiços, desfaço-os e ateio fogueiras gigantescas que chamuscariam as estrelas se as estrelas se vissem e tudo continua translúcido e vago.
E o homem corajoso, que não temia as trovoadas, os vendavais, a chuva forte, o desânimo, a saudade, a inveja e o desamor, pensou:
- É belo e sereno o nevoeiro e é isso que me faz vacilar.
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Manuela Baptista
Estoril, 26 de Novembro 2009
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foto - Ghost boat
© Shlomi Nissim

INTERPRETAÇÃO DO INVERNO

A aldeia, banhada por quatro mares, cinco rios e três lagos, era muito grande, mas todos sabiam exactamente onde começava e onde terminava.
Possuía também, duas montanhas, sete vales e uma floresta onde ninguém se perdia.
Os rios e os lagos estavam limpos, os mares despoluídos, as montanhas não se agitavam e nos vales não soprava o vento. O sol nascia todos os dias às sete horas e desaparecia no horizonte, pontualmente às dezanove. A noite não era assustadora e negra e das estrelas, apenas restava o sol.
A Primavera era eterna e não fazia muito calor nem muito frio.
As pessoas eram belas e perfeitas, as crianças não faziam birras, não eram instáveis, nem disléxicas e os jovens não se interrogavam sobre a incorrecção do universo.
Os velhos eram invisíveis e não se saberia dizer qual era o tom das suas vozes.
As flores não cresciam nos campos, nem os pássaros voavam no céu eternamente azul e ninguém se recordava do seu canto.
Claro que existiam músicos, mas por exemplo, um pianista nunca esborrachava notas, nem um barítono trocava escalas maiores por escalas menores. O público também não aplaudia nem vaiava, porque não saberia a razão para o fazer.
Os velhos invisíveis perguntavam-se, que filhos gerámos que não nos vêem, nem se vêem, que aldeia triste onde não sopra o vento, que mar sem peixes e sem luar?
E senhores sem nada, mas donos de um imenso tempo, pegaram em folhas de papel de seda branco e foram dobrando, em cada dobra, uma história de estrelas e pássaros, os dedos transformados em ágeis criadores.
Primeiro dobraram as estrelas e um deles disse, e se as soltássemos esta noite enquanto todos dormem?
E as centenas de estrelas de papel de seda instalaram-se nos céus, mas às sete horas quando o sol nasceu e os habitantes se levantaram, ninguém as viu.
Os velhos invisíveis não desistiram e todas as noites mantinham-se acordados e dobrando as finas folhas construíam pássaros, peixes, flores, luas e barcos vadios.
Do mais profundo da aldeia alguma coisa começou a mudar.
Primeiro foi um vento ligeiro que agitou as folhas, depois um frio intenso que os fez acordar e saíram descalços para a rua e os seus corações bateram com mais força enfrentando a noite escura, emudecidos, descobriram centenas de estrelas e de luas e milhares de pedacinhos de papel de seda branco que esvoaçavam ao luar.
E perguntaram, quem está a cantar?
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Esta é uma página que deseja fazer visível os que se sentem invisíveis, diferentes, numa aldeia que se supõe feliz, celebrando Schubert e a sua Viagem de Inverno.
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"Toi aussi, mon coeur, dans la lutte et la têmpete,
Si sauvage et téméraire,
Tu sens dans le calme ton dragon
Renaître en élans lancinants."
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Manuela Baptista
Estoril, 20 de Novembro 2009

LADOS OPOSTOS E PARALELOS

Gostava de escadas, escaladas, arranha-céus, torres e mastros.
Quando era pequena dizia que queria voar. Ser pássaro, perguntavam. Não, ser uma menina e voar. Não existe, respondiam. Não acredito, pensava.
Na escola sentia-se mal, o edifício tinha apenas dois andares e o soalho tremia cada vez que passava um autocarro.
Nas aulas de ginástica brilhava, paralelas assimétricas, trave olímpica, trampolim, era como saltar à corda sem pousar os pés no chão.
Possuía apenas um bloco de folhas brancas e um lápis preto, 7B e nele desenhava figuras geométricas, ângulos, triângulos, quadriláteros e cobria-os de asas, penas, plúmulas, filoplumas.
Inquieta no chão, ansiava pelo ar. Um dia disseram-lhe, vês aquele Trapézio? Se vieres connosco ensinamos-te a voar.
Foi, não olhou para trás, na mochila o lápis 7B e o bloco de folhas brancas.
Voou e tornou a voar, com rede, sem rede, com fitas, laços, panos longos como a noite de Inverno, brilhantes como a Estrela Polar.
As pessoas aplaudiam-na, de pé, comovidas com uma leveza que não entendiam, com uma graciosidade que não ousavam invejar.
Cá em baixo, o rapaz das rosas tremia de susto, o coração agitado a cada triplo salto sentindo-se sufocar. Às rosas que vendia, não lhes tirava os espinhos e as senhoras diziam, este rapaz é louco, quem é que compra rosas para se picar.
As rosas são inteiras, respondia, com os seus espinhos e pétalas de veludo. Ninguém retira o calor ao fogo só porque ele pode queimar.
E todos os dias colocava as rosas que não vendia junto do espelho onde ela se penteava e deixava-lhe um recado de amor. Ela pensava, não quero, sempre preso ao chão, tenho medo, estamos em lados opostos não o posso acompanhar.
Uma noite, qualquer coisa se deslocou, um cabelo, um fio, um elo perdido e ela concentrada no seu trabalho ignorava aquele centímetro que a conduziria à queda, à dureza do chão.
O público expirava, Ahh! e acenaram-lhe confundidos e ansiosos.
O rapaz das rosas apertou-as com força contra o peito e balbuciou, meu anjo!
Do alto, ela olhou-o e recordando o veludo dos seus olhos, desenhou no espaço, sem lápis nem folha, a mais perfeita das figuras, corrigindo num segundo a inexactidão do tempo.
Apenas se ouviu um agitar de invisíveis penas.
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Esta é uma página onde se conta, que não precisamos de asas para voar.
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Manuela Baptista
Estoril, 14 de Novembro 2009