INTERMEZZO OU CONCERTO A CINCO MÃOS

Éramos cinco. De um lado duas raparigas, do outro mais duas raparigas e um rapaz.
Ligados pelo parentesco, pela proximidade das famílias, cúmplices pela idade, pelas casas que partilhávamos nas férias chamadas grandes e nas outras, de Inverno e sapatos na chaminé.
No Inverno tínhamos um piano, a Avenida de Roma, o cinema Tivoli, os lanches na Pastelaria Ferrari, as casas de brinquedos da Baixa .
No Verão havia um relvado, um baloiço, esconderijos no quintal, o mar, o cinema ao ar livre, as bolas de Berlim e os gelados Santini.
As avós rezavam pela conversão da Rússia, faziam pão-de-ló ao Domingo e no catecismo havia uma imagem do Titanic a afundar-se, porque os homens tinham ousado desafiar Deus.
Nos livros de leitura, as meninas brincavam com as bonecas e os meninos com papagaios de papel, mas eram todos bons e amigos dos pobrezinhos.
Os adultos, sempre ocupados nas suas tarefas, mandavam-nos brincar e nós íamos e nesse faz de conta imenso inventávamos códigos, linguagens secretas, mundos paralelos.
Crescer não é muito fácil e acontece devagar.
Mas às vezes a vida é como o Titanic, dá uma volta e fica de pernas para o ar. As famílias separaram-se, distanciaram-se.
Sentimos saudades, trocámos cartas, prometemos fugir para nos encontrarmos, uma longa pausa instalou-se entre nós e perguntámo-nos como poderíamos viver uns sem os outros.
Foi um longo Intermezzo entre dois actos das nossas vidas.
Muitos anos depois quando nos reencontrámos, estranhámo-nos e apenas conseguimos reconhecer uns olhos verdes acinzentados, umas mãos finas e belas, uma timidez de criança, a generosidade de um coração e um egoísmo extremo.
Entre os irmãos outrora inseparáveis, existiam agora invejas, mal entendidos, golpes profundos, feridas que não iriam sarar.
E aquilo que ao longo do tempo eu imaginei que estava a perder, tornou-se na espantosa certeza de que não tinha perdido nada.
A riqueza de uma infância permanece, mas é raro um Concerto a cinco mãos.
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Perante um sinal fechado, quem não se impacienta? Mas é esta condição que nos protege da dor. Aceleramos depois.
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Manuela Baptista
Estoril, 28 de Outubro 2009

O HOMEM ARRUMADO

(René Magritte - Personal Values)
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Era uma vez um homem que gostava de ser arrumado. Tinha uma paixão por arquivos, ficheiros, índices, etiquetas, bolsos, gavetas e prateleiras.
Na sua casa, tudo estava organizado por ordem alfabética desde os armários ao frigorífico, do quarto ao escritório. Se na despensa esta ordenação funcionava, pois se o ananaz vinha sempre antes do arroz e depois do açúcar, no quarto a coisa complicava-se. A cama estava antes da cómoda, mas a mesa de cabeceira vinha depois da cadeira, logo o despertador estava colocado na cadeira e o copo de água em cima da cómoda.
Na sala, o sofá estava de costas para a televisão que por sua vez estava ao lado do telefone, o computador descansava em cima da cristaleira.
Quando ia ao café pedia sempre um café, uma meia de leite e uma torrada. Os empregados traziam-lhe a meia de leite e a torrada e diziam:
-O cafezinho no fim, Sr.º Dr.º?
Ficava incomodado para o resto do dia, com a desconfiança de que as coisas e as pessoas não estavam no sítio certo.
Tinha apenas um amigo, chamava-se Adérito. Na escola secundária fez um ou dois trabalhos de pesquisa com um Paulo e um João mas excluiu-os, porque no grupo faltava um Baltazar .
A primeira mulher de quem tinha gostado, era alegre e despreocupada e adorava comer ananaz com açúcar. Ele pedia-lhe para colocar primeiro o açúcar e no fim o ananaz. Ela respondia que ele era bizarro e aborrecido. Ele insistiu que a ser aquilo que ela insinuava, seria aborrecido e bizarro. A mulher classificou-o com outro adjectivo e saiu batendo com a porta.
Todos os dias elaborava uma lista de objectivos e cumpria-os.
Os colegas de trabalho temiam-no e os vizinhos toleravam-no e elegiam-no consecutivamente, gestor do prédio.
O homem arrumado pensava que era feliz, mas às vezes sentia uma sensação estranha, como se tivesse esquecido qualquer coisa muito importante e que lhe fazia falta.
Um dia, ao limpar o armário do sótão, encontrou uma caixa cheia de sonhos. Alguns já tinham pó.
Devagar, separou-os, deu-lhes brilho, depois contemplou demoradamente cada um deles como se fosse a primeira vez e viu que estavam intactos.
Nesse dia desarrumou a casa, saiu para a rua a cantar, comprou flores, um bom vinho tinto e convidou os vizinhos para jantar.
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Esta é uma página arrumadinha que eu não vou deixar ter pó.
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Manuela Baptista
Estoril, 23 de Outubro 2009

LIGAMENTOS

Sente o peso e a doçura da lã, cheira-a. Pára um segundo, desembaraça os nós que se formaram e recomeça alternando os pontos escolhidos.Não tem pressa, perdeu-a algures depois da vertigem, do sofrimento, da luta e ainda hoje pergunta como é que foi capaz. Era ela e já não era ela, faltava-lhe uma parte de si.
Os desenhos, sabe-os de cor. Valquíria a gata, preta e branca, grande, meiga, dando turras nas pernas, arriscando-se a ser pisada. Os papagaios de papel, o autocarro de Sonhos. Difícil tricotar um autocarro! E a palavra Sonhos, faz questão que fique bem visível.-Vamos dançar?
E ela ia e gostaria de não ter parado nunca, sempre a dançar, à roda, sempre à roda até caírem de tontos, mareados, como esse mar do Norte, bravo, revolto.
Um poço, tem de tricotar um poço, não sabe bem como, mas descobrirá uma forma. Afinal conhece-o bem, cada centímetro de solidão, de medo, de ausência de oxigénio, de humidade entranhada. E depois aquela réstia de sol, teimosa, a chamá-la a incitá-la a ouvir os risos, o murmúrio das palavras.O cachecol cresce, talvez já nem seja um cachecol! Qualquer menino tropeçará nas pontas e perguntará zangado:
-Para quê um cachecol tão grande!
E ela responderá:
-Podes fazer um baloiço, um abrigo, um pássaro mágico para atravessar os céus!
As agulhas correm velozes, ligamento, ligação directa à esperança, à vida e se há sempre alguém com frio no pescoço ou dentro de si, também haverá quem lhe ofereça uma história e um cachecol.


Começou assim:
-A minha irmã tem um blog...Se lá forem, dêem-lhe força!
Há mais de um ano, é o primeiro blog que eu abro,
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às vezes, o último que eu fecho.
São muitas páginas, que nos contam como é perder um filho, jovem, bom, belo, generoso, talentoso, como foi lutar para o tentar salvar, para o poupar ao sofrimento, para finalmente o libertar.
E o que podemos nós dizer, escrever, sem cair em lugares comuns, sem choramingar, dando força?
Quem somos nós, o que procuramos e o que encontramos nestes ligamentos que fazemos, que entrelaçamos como malhas de uma teia?
A Isabel é uma Mulher de coragem!
Foi para ela, que eu inventei um Ganso que fala a linguagem dos homens e que gosta de sumo de melancia.
Dei-lhe um gato rafeiro, pedras de entrada, histórias para enganar os dias, outras do peixe-lua e da menina estranha.
Muitas vezes apenas lhe dei silêncio.
A mim, ela deu-me a enorme dignidade de acreditar que vale a pena ligar caminhos e voar acompanhado.
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Manuela Baptista
Estoril, 17 de Outubro 2009

AS VOZES DE UMA CHAMINÉ INQUIETA

(Time Transfixed - René Magritte)
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Quando fazia sol, deslizava ligeiramente para Norte. Com vento forte, abanava como um pequeno navio e em noites de chuva, havia sempre um tecto que metia água.
De manhã as crianças acordavam excitadas e percorriam todas as divisões até encontrarem a maior das poças e aí, conforme o tempo disponível e o humor de cada uma podiam:
-dar banho ao cão
-molhar os pés
-lavar a cara
-castigar as bonecas
-fazer corridas com barcos de papel
A avó dizia:
-Aproveitem bem a água da chuva, tem propriedades miraculosas!
Mas a seguir, saía para o jardim e esquecia-se de explicar como é que se deveria guardar aquela água.
Quando se abriam as torneiras da cozinha, as banheiras enchiam e para lavar as hortaliças e a fruta era preciso dar três pulos em frente do lava-louça.
Os canos faziam ruídos estranhos, mas neste caso toda a gente sabia por Julio Cortázar, que era o Urso que há muito se tinha mudado para ali e até lhe enviavam mensagens quando bebiam água pela torneira.
Para terem água quente era preciso esperar pelo jardineiro, pois era o único a quem a velha caldeira obedecia.

A caldeira não gostava da voz da avó, odiava vozes de criança, detestava adultos, mas gostava do jardineiro que lhe cantava canções napolitanas, que lhe falava das rosas, da magnólia, dos limoeiros e da salsa e que lhe dizia:
-Um dia levo-te comigo lá para fora! Tens toda a razão em estar cansada e temperamental, há tantos anos nesta cave escura!
E permanecia ali junto dela, entoando árias até a família inteira tomar banho e lavar os dentes.
Naquela casa ninguém cantava no banho.
Nas madrugadas de nevoeiro, a grande escadaria de madeira, com o seu belo corrimão torneado, rangia como um casco velho e ao pequeno almoço alguém dizia:
-Sonhei com piratas! Vá-se lá saber porquê...
A mais bela, calma e desarrumada divisão da casa era a sala da lareira, com a sua enorme chaminé de pedra, as paredes repletas de estantes e de quadros, o piano e o violoncelo, os cavaletes de pintura e de música, a mesa de jogos, o canto dos brinquedos, os sofás confortáveis onde se podia ler um livro ou dormir a sesta e dezenas de almofadas espalhadas pelo chão, onde havia sempre um gato enroscado.
No Inverno o Sol penetrava pelas enormes janelas e portas de vidro, aquecendo-a o dia todo, por isso ninguém sabia, porque é que naquela sala havia uma chaminé que não se acendia.
Por seu lado, a chaminé, despojada da sua legítima ambição de conter em si um belo fogo, andava inquieta e no silêncio das suas paredes sem níveis elevados de dióxido de carbono, ouvia todos os sons da casa, o estalar dos móveis, as teclas do piano, o virar de uma página, o deslizar de um pincel na tela crua, um suspiro na noite e os passos no sótão.
E como precisava absolutamente de encontrar um sentido para a sua existência, passou a responder a cada um dos que escolhiam o seu canto para pensar, chorar ou contar um segredo.
A chaminé sabia onde estavam os cigarros, o carregador dos telemóveis, o batom, a bateria do computador, a chave do carro e, na solidez das pedras da sua inquieta solidão, passou a compreender os sentimentos de amor, coragem, raiva e medo.
Por seu lado quem procurava paz, inspiração ou simplesmente uma boa ideia, podia estar certo que era ali que as encontraria. Afinal a chaminé comunicava directamente com as estrelas.
Numa noite de um Inverno mais rigoroso, um visitante perguntou:
-Nunca acendem a la...?
-NÃO!!!
E no silêncio que se instalou, uma pedra soltou-se e caiu sem grande ruído.
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Esta é uma página a meter água, onde se procura a linha directa entre a loucura e a felicidade.
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Manuela Baptista
Estoril, 10 de Outubro 2009