Quando era pequenina, a mãe sabia sempre onde ela estava, entre os campos de milho maduro, no olival, na areia da praia, entre as ondas do mar.Bastava situar o ponto luminoso da sua cabeleira castanha avermelhada e chamá-la baixinho, "Aurélia!".
Ela ouvia a voz de todos, mesmo que estivessem a uma grande distância ou soprasse um vento forte.
Depois de crescida as mulheres invejavam-na e os homens murmuravam:
-Com uns cabelos assim, será a perdição de qualquer um...
ou,
-Com esses cabelos incendeia a terra seca...
Morava numa casa baixa, com duas portas, quatro janelas e um enorme alpendre coberto de hera e buganvília.
Debaixo desse alpendre, uma mesa rectangular de madeira de carvalho resistia ao sol do Verão e à chuva miudinha do Inverno e era aí nessa mesa, que ela fazia as suas jóias de pedaços de pau e pedras preciosas; de tecidos e de prata; de bagas, folhas e de ouro fino, de búzios, conchas e de platina.
Nunca tinha vendido uma jóia, porque gostava de todas e de nenhuma se queria separar.
Nunca tinha cantado uma canção.
Aurélia, possuía a estranheza da luz quando penetra num rendilhado de ramos e de folhas e faz piscar e estremecer os olhos de quem a contempla.
Um dia de manhã muito cedo, um Pássaro de fogo, perseguido por um Ladrão de Penas, esvoaçou à sua volta amedrontado e trémulo.
Ela disse:
- Tu és da cor do fogo, esconde-te no meio do meu cabelo e o Ladrão de Penas nunca te encontrará.
-Viste por aqui um Pássaro? Quero as suas penas para com elas enfeitar um chapéu de senhora! -disse o homem.
-Não vi. - respondeu Aurélia.
-Estás a mentir! Roubar-te-ei as tuas jóias se não o encontrar! -gritou o Ladrão.
Então Aurélia, abanando violentamente a cabeça, fez girar o seu cabelo como uma bola de fogo e o homem afastou-se, cego de raiva e de dor.
Na noite escura, quando o silêncio invadiu a casa e o jardim, ouviu baixinho um menino a chorar e uma Mulher que dizia:
-É tão estranho este meu filho, ninguém o consegue sossegar...Pega uma jóia das tuas e faz com ela uma roca para ele brincar!
Aurélia pegou numa tesoura de bicos e cortou o seu cabelo de uma assentada, a Mulher disse "Ah! Como o pudeste cortar? Eu só queria uma roca..." e com o seu belo cabelo encheu uma almofada de branco bordada e disse:
-Brilhará na noite escura! Deita-o nesta almofada e ele não terá, mais medo de acordar.
As pessoas comentaram:
-Que loucura! Não se desfaz das jóias, mas perde a sua mais bela pedra preciosa.
-O cabelo crescerá! -respondeu.
Um ano passou e o cabelo cresceu e numa manhã clara ouviu uma Jovem triste a chamar:
-Dás-me uma jóia das tuas, porque me vou casar? Amanhã tenho uma festa e nada para me enfeitar...
Aurélia pegou na tesoura de bicos e novamente cortou o seu belo cabelo, a Jovem disse "Ah! Como o pudeste cortar? Eu só queria uma jóia..." e fiou o seu cabelo castanho avermelhado e depois teceu-o como seda pura e por fim cortou e cozeu o mais belo vestido de baile de que se ouvira falar.
As pessoas já não disseram nada mas pensaram:
-Que louca!
-O cabelo crescerá!- murmurou Aurélia.
Outro ano passou e o cabelo cresceu ainda mais brilhante e sedoso.
Num entardecer de Outono, Aurélia desenhava as suas jóias no alpendre coberto de trepadeiras e viu aproximar-se um Cavaleiro, cansado de cavalgar.
-Minha linda Senhora, eu sou um Cavaleiro, cansado de cavalgar.
Nunca tinha vendido uma jóia, porque gostava de todas e de nenhuma se queria separar.
Nunca tinha cantado uma canção.
Aurélia, possuía a estranheza da luz quando penetra num rendilhado de ramos e de folhas e faz piscar e estremecer os olhos de quem a contempla.
Um dia de manhã muito cedo, um Pássaro de fogo, perseguido por um Ladrão de Penas, esvoaçou à sua volta amedrontado e trémulo.
Ela disse:
- Tu és da cor do fogo, esconde-te no meio do meu cabelo e o Ladrão de Penas nunca te encontrará.
-Viste por aqui um Pássaro? Quero as suas penas para com elas enfeitar um chapéu de senhora! -disse o homem.
-Não vi. - respondeu Aurélia.
-Estás a mentir! Roubar-te-ei as tuas jóias se não o encontrar! -gritou o Ladrão.
Então Aurélia, abanando violentamente a cabeça, fez girar o seu cabelo como uma bola de fogo e o homem afastou-se, cego de raiva e de dor.
Na noite escura, quando o silêncio invadiu a casa e o jardim, ouviu baixinho um menino a chorar e uma Mulher que dizia:
-É tão estranho este meu filho, ninguém o consegue sossegar...Pega uma jóia das tuas e faz com ela uma roca para ele brincar!
Aurélia pegou numa tesoura de bicos e cortou o seu cabelo de uma assentada, a Mulher disse "Ah! Como o pudeste cortar? Eu só queria uma roca..." e com o seu belo cabelo encheu uma almofada de branco bordada e disse:
-Brilhará na noite escura! Deita-o nesta almofada e ele não terá, mais medo de acordar.
As pessoas comentaram:
-Que loucura! Não se desfaz das jóias, mas perde a sua mais bela pedra preciosa.
-O cabelo crescerá! -respondeu.
Um ano passou e o cabelo cresceu e numa manhã clara ouviu uma Jovem triste a chamar:
-Dás-me uma jóia das tuas, porque me vou casar? Amanhã tenho uma festa e nada para me enfeitar...
Aurélia pegou na tesoura de bicos e novamente cortou o seu belo cabelo, a Jovem disse "Ah! Como o pudeste cortar? Eu só queria uma jóia..." e fiou o seu cabelo castanho avermelhado e depois teceu-o como seda pura e por fim cortou e cozeu o mais belo vestido de baile de que se ouvira falar.
As pessoas já não disseram nada mas pensaram:
-Que louca!
-O cabelo crescerá!- murmurou Aurélia.
Outro ano passou e o cabelo cresceu ainda mais brilhante e sedoso.
Num entardecer de Outono, Aurélia desenhava as suas jóias no alpendre coberto de trepadeiras e viu aproximar-se um Cavaleiro, cansado de cavalgar.
-Minha linda Senhora, eu sou um Cavaleiro, cansado de cavalgar.
Que belas jóias constróis, neste teu tecto de prata! Darás água ao meu cavalo e deixar-me-ás descansar?
-E queres tu as minhas jóias ou apenas descansar? -perguntou Aurélia.
-Quero a mais bela das jóias que aqui vim encontrar, no teu cabelo vermelho nas ondas desse teu mar, quero apenas descansar. -respondeu o Cavaleiro.
Aurélia deu água ao cavalo, sentou o Cavaleiro junto de si no alpendre coberto de trepadeiras e deitou fora a tesoura de bicos.
Ele pousou docemente a cabeça no seu ombro, sentiu o macio da seda e as ondas do mar e adormeceu cansado de cavalgar.
E pela primeira vez, Aurélia cantou baixinho uma canção.
-E queres tu as minhas jóias ou apenas descansar? -perguntou Aurélia.
-Quero a mais bela das jóias que aqui vim encontrar, no teu cabelo vermelho nas ondas desse teu mar, quero apenas descansar. -respondeu o Cavaleiro.
Aurélia deu água ao cavalo, sentou o Cavaleiro junto de si no alpendre coberto de trepadeiras e deitou fora a tesoura de bicos.
Ele pousou docemente a cabeça no seu ombro, sentiu o macio da seda e as ondas do mar e adormeceu cansado de cavalgar.
E pela primeira vez, Aurélia cantou baixinho uma canção.
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Esta é uma página em Siena Queimada perplexa de mar.
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Manuela Baptista
Estoril, 30 de Setembro 2009


