SEM AÇUCAR COM AFECTO

-Que loucura! -disse a Página com olhos de espanto perante tamanha ousadia.
-Loucura? -repetiu o Blog irritado -Pois eu digo mais, acho francamente ofensivo falar de cebolas, alho e refogado aqui neste espaço!
-Um espaço para histórias, de preferência depressivas ou daquelas que ninguém entende, mas azuis da cor do céu e do mar! -continuou a Página e tão zangada estava que se virou de repente sem ninguém lhe mexer.
-Pelo menos desta já me livrei!-resmungo entre dentes.
-Ouvi-te muito bem! E para que saibas vou-me também embora, procurar um sapo, que em matéria de verdura deve ter mais critério do que tu! -gritou o Blog fechando malcriadamente o visor.
Agora que estou sozinha e calei os grilos falantes politicamente correctos, aqui vai para a Nini e para todos os que gostam de Mar.

Delícias do Mar Gratinadas
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Ingredientes:
-1, 2 ou 3 embalagens de delícias do mar desfiadas (das que se desfiam e são mais caras, porque não quero fazer publicidade)
-cebolas
-alho
-azeite
-tomate saloio muito maduro ou polpa de tomate
-1 malagueta, para quem gosta do fogo
-1 ou 2 pacotes de natas (líquidas)
-queijo emmental ralado
-sal e pimenta
NOTA: 1, 2 e 3 significa que não sei quantas pessoas irão jantar a vossa casa e nesta receita o vosso bom senso e experiência devem prevalecer.
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Desenvolvimento:
-refogam-se no azeite: as cebolas picadas, o alho e a malagueta
-deita-se o tomate desfeito ou a polpa de tomate e deixa-se apurar
-deitam-se as delícias do mar desfiadas; mistura-se muito bem, tempera-se com sal e pimenta
-no final deitam-se as natas, mistura-se bem, rectifica-se o tempero e não se deixa ferver
-Deita-se a mistura num pirex, cobre-se com o emmental ralado e vai ao forno (médio) a gratinar.
Tempo no forno: avaliem se faz favor, mas não deixem secar, deve ficar ligeiramente gratinado, mas molhadinho.
Sirvam com arroz branco, feijão verde ou com o que inventarem.
Aviso-os, que a foto não corresponde minimamente a Delícias do Mar Gratinadas, mas foi o mais parecido que encontrei.
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Esta é uma página que me virou as costas e onde se dá conta que convidar alguém para a nossa mesa, é como contar-lhe uma delícia de história.
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Com afecto,
Manuela Baptista
Estoril, 15 de Setembro 2009

NOS TRILHOS DA NOITE

Bhaltus
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O homem, incrédulo, olhou para o lado e disse:
-Estás a falar comigo?
-Vês aqui mais alguém com riscas luminosas nas calças? Perguntei, se tens medo de ser atropelado por uma cobra? Com essas risquinhas luminosas verde alface, se não fosse o teu tamanho, diria que és um pirilampo. Pregaste-me cá um susto! -respondeu o gato.
-Nahh, sou um Varredor. Mas tu falas? -balbuciou o homem.
-Para homem és muito inocente... Claro que falo! Os gatos falam, os homens é que não os entendem, quer dizer, a maioria das pessoas apenas ouve miados, o que é extremamente ofensivo para os gatos! Mas de tempos a tempos lá aparece um ser especial que compreende a nossa linguagem -disse o gato.
E acrescentou:
-Muito gostava de saber qual é a tua especialidade, pareces-me uma pessoa insignificante!
-Olha que, para gato és muito rufia! -disse o homem.
-Rufus, é o meu nome, significa vermelho em latim. O meu dono é um complicado, gosta de nomes ilustres... Tens um minuto? Vendo bem ainda faltam uma horas para amanhecer e isto está tão calmo que até aborrece! Senta-te aqui comigo neste muro -convidou o gato.
O homem pousou a vassoura e a pá e com um pulo ágil saltou para junto do gato.
Estava uma noite fresca de fim de Verão, a lua fazia o seu caminho no céu estrelado, na araucária gigante ouvia-se a fala das corujas e os seres da noite sussurravam entre a folhagem.
Então o gato contou, que como animal nocturno que era, escapulia-se todas as noites pelas janelas sempre abertas da sua casa e vadiava pelos jardins, aventurava-se pelas ruas desertas, conhecia todos os jogadores do Casino e todos os que bebendo demais, nunca se lembravam onde tinham arrumado o carro.
Sabia quais os vizinhos que entravam tarde e os que saíam muito cedo, os que cantavam e os que discutiam, os que dormiam descansados e os que tinham insónias.
Dos cães rafeiros não tinha medo, assustavam-se só de verem a sua cauda enfunada para manter o respeito e os outros, fechados atrás de portões e protegidos por alarmes, ladravam-lhe nas canelas mas não lhe conseguiam chegar.
Quando o pássaro da manhã soltava o seu grito e o dono acordava e preparava o café ao som de um disco de Jazz, já ele tinha regressado a casa, lambido a tigela da comida e dormia sossegado na sua almofada.
Rufus era um gato feliz!
Então o homem contou ao gato que embora sendo um Varredor, era de facto um Respigador, recolhia o que os outros não queriam, já tinham esquecido ou, o que os magoando, desejavam ver bem longe.
-O quê? Trapos, sapatos, móveis velhos? perguntou o gato.
-Não. Coisas mais subtis, no meio de um papel amachucado, um sonho.
Entre uma chávena quebrada, uma ansiedade. Numa farpa, um desespero. Escondido numa carta, um desgosto. No bolso de um casaco velho, um medo. Entre as páginas de um livro, uma alegria, uma inspiração. Então recolho-os e guardo-os comigo.
O Homem explicou ao gato que era tudo uma questão de saber ouvir e estar atento no silêncio das madrugadas, o resto, o que os outros perdiam, largavam ou deitavam fora, era fácil de recolher.
-E o que fazes com tudo isso, Respigador? -murmurou o gato.
-Esculpo um poema de pedra.
O pêlo do gato teve um relâmpago de brilho e o pássaro da manhã lançou o seu grito de espanto.
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Num constante respigar, esculpimos o que os outros perderam ou quiseram deitar fora.
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Manuela Baptista
Estoril, 11 de Setembro 2009

FIDÉLIA

Os olhos são de um azul profundo como a água gelada das praias do Norte, o cabelo, preto como as rochas em noite de lua nova, as mãos finas e compridas como se fora a fiandeira de um rei tecendo mantos de ouro e prata, o corpo magro, longo e flexível como as algas.
Sempre falou pouco, como se as palavras fossem desnecessárias, porque os olhos dizem e explicam tudo e quando porventura dizia alguma coisa as pessoas assustavam-se, tão desabituadas estavam da sua voz.
Os pais inquietavam-se com esta estranha filha, mas sabiam que ela era feliz desenhando estranhos seres como ela, flores inexistentes e igualmente estranhas, mundos de água e mar, sempre a preto.
Todos os anos em Setembro, os pais levavam a filha para o campo, para respirar outros ares e quem sabe, desenhar outros seres.
Fidélia entristecia, sentia saudades do cheiro a maresia, não gostava do calor e sufocava na casa enorme e vazia.
À tardinha trepava montes acima, o bloco e o lápis Ivory Black fechado na mão, procurava os locais mais escarpados e isolados, onde apenas os pastores e as cabras se aventuravam e aí gostava de ficar.
Um dia encontrou Mateus, pastor de cabras, tocador de flauta, cabelos cor de milho, olhos de espigas verdes e coração manso como um cordeiro.
E Fidélia falou e Mateus assobiou.

E Mateus aprendeu a desenhar e Fidélia a tocar.
Ela ofereceu-lhe um lápis preto, ele fez-lhe uma flauta de cana.
Tinham quinze anos e o monte era alto.
Num entardecer de tempestade, um homem seguiu Fidélia pelo monte acima e soprou-lhe palavras da noite aos ouvidos e ousou agarrá-la e tocar-lhe no rosto e ela viu o gume brilhante de uma faca escondida na mão, teve muito medo e gritou:
-Mateus!
Num pulo de lobo Mateus saltou, os cabelos cor de milho maduro voando com ele e num instante em que o mundo parou de girar, o coração ruim do homem da navalha foi mortalmente atingido pelo lápis preto, onde ainda se podia ler Ivory Black.
Fidélia gostava dos lápis bem afiados.
Mateus foi condenado e Fidélia disse, antes de novamente se calar:
-Espero por ti quinze anos e outros tantos esperaria! Mas quem é que pode prender o vento ou conter a água de um rio, sem que o vento morra e o rio seque?
E passados quinze meses Mateus fugiu da prisão e escondeu-se nos montes e toda a aldeia o ajudou.
Ele trocava comida por trabalho, tocava a sua flauta nos casamentos e nas festas e os amigos e vizinhos fizeram um pacto de silêncio, porque ele era um homem bom e tinha o coração manso como um cordeiro.
Fidélia encontrava-o nas escarpas e Mateus encontrava-a na casa do campo.
Tinham trinta anos e o monte era alto.
Quis o destino, a sorte ou o azar e Mateus foi descoberto por um polícia mais zeloso, daqueles que gosta de cumprir a lei, mesmo que ela não seja justa.
Os amigos, os vizinhos e até o padre diziam:
-Não prendam um homem bom, porque ele está bem junto de nós, já cumpriu a sua pena!
Fidélia, o corpo dorido como alga quebrada, disse-lhe:
- Espero por ti quinze anos e outros tantos esperaria! Mas quem é que pode prender o vento ou conter a água de um rio, sem que o vento morra e o rio seque?
Tinham quarenta e cinco anos e o monte era alto.
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Esta é uma página afiada, como um lápis ou uma navalha e onde se conta que a vida tem muitas histórias e algumas podem ser verdadeiras.
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Manuela Baptista
Estoril, 6 de Setembro 2009

PELA MÃO

Imaginava-o apenas na cabeça do escritor ou no seu coração, invenção máxima de um romance escrito, palavras amadas reinventadas que nos marcam, que passamos a considerar nossas que são nossas na limpidez deserta de um tempo de Verão, que as pessoas teimam em fazê-lo breve, em julgá-lo breve, em desejá-lo breve.
Porque é que compramos cadernos e canetas quando o sol é quente, livros de exercícios para corrermos à volta da mesa, à roda do charco, em cima de um barco?
Inventamos prisões para lançar amarras, prender borboletas ou soltar o vento?
Onde estão as crianças que cantam, que mexem na terra lambuzadas de doces pêssegos, de gelado de chocolate, encharcadas de riso?
Onde está o tempo das histórias da noite, enrolados em mantas na relva molhada, partilhando segredos com os pés a crescer em sandálias de couro?
O pássaro de corda existe lá fora no meu quintal, que não é um quintal é um jardim e lança no ar um grito de corda e não se deixa ver, mas está lá, oiço-o todos os dias às cinco da tarde.
Às cinco da tarde mataram o poeta, mas o pássaro tomou o seu lugar.
Está lá fora no meu quintal, que não é um quintal e eu imaginava-o apenas na cabeça do escritor ou no seu coração.

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Esta é uma página aprisionada nas asas de uma borboleta.

Manuela Baptista
Estoril, 1 de Setembro 2009